Mais uma história de trapaça em jogos ao vivo veio à tona. Não se trata de um caso como o de Mike Postle, em que alguém conhecido acabou sendo exposto, mas tudo indica que podemos estar diante de um esquema muito maior e mais organizado.

Os envolvidos nesta história parecem estar usando o mesmo método revelado por Matt Berkey em 2024.

Em um dos episódios recentes de seu podcast, Matt Berkey e seus co-apresentadores discutiram detalhadamente uma grande máfia cujos participantes roubaram em mesas de poker ao redor do mundo por um ano e meio, incluindo em Las Vegas e na série Triton.

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Os jogadores utilizam uma microcâmera escondida em algum lugar da mesa, enviam as imagens para alguém fora do local e, em seguida, as informações sobre as cartas são repassadas a uma pessoa que está jogando. Assim que recebe esses dados pelo fone de ouvido, esse jogador pode, em teoria, tomar a decisão correta em 100% das vezes.

A notícia surgiu no canal de Bart Hanson no YouTube. Bart é comentarista de cash games high stakes, conhecido por narrar as partidas do Hustler Casino Live, além de ser proprietário do Crush Live Poker. Um regular anônimo do Aria, identificado apenas como "Joe", decidiu denunciar o que estava acontecendo — e ainda bem que fez isso.

Vamos ouvir o que Joe viu no Aria em junho.

Só para dar um pouco de contexto, isso aconteceu nas mesas de $5/$10, que às vezes funcionavam como $10/$20. Esses são alguns dos maiores jogos públicos disponíveis durante a WSOP. O buy-in máximo era de $5.000, então estamos falando de uma quantia relativamente significativa.

Esse cara, que achávamos ser extremamente ativo, praticamente uma baleia, normalmente chegava bem tarde, por volta das 2h ou 3h da manhã. Ele jogava uma quantidade enorme de mãos. Falava muito, parecia realmente gostar de ação e mostrava mãos como 62o e K7o, dando 3-bet com elas e tudo mais.

Nós simplesmente pensávamos: 'Nossa, esse jogo está ótimo, vamos continuar jogando com ele o máximo possível.'

No começo, não suspeitamos de nada. Nas primeiras sessões que jogamos com ele, durante a primeira semana, achávamos apenas que ele tinha instintos muito bons ou estava runnando muito bem!

Basicamente, ele conseguia jogar uma quantidade enorme de mãos e quase nunca perdia. Blefava bastante, mas, de alguma forma, nunca blefava contra o nuts. Muitas vezes, parecia saber exatamente onde estava quando tinha uma mão marginal.

E, frequentemente, se você tivesse uma mão marginal — por exemplo, um par de setes em um board com rei, dama e outras cartas altas — e apostasse, ele simplesmente aumentava. E você basicamente nunca conseguia pagar, a menos que tivesse uma leitura muito boa sobre ele.

O próximo passo de Joe foi conversar com outros regs sobre o que vinha observando.

Então, em determinado momento, alguns dos outros regulares começaram a me mandar mensagens e conversamos fora do jogo. Ficamos tipo: 'É realmente interessante como ele consegue blefar com tanta frequência e, mesmo assim, parece ganhar muito.'

Se você acompanhou o escândalo de Mike Postle, tudo isso provavelmente soa familiar. Jogar um range enorme de mãos e, de alguma forma, sempre conseguir tomar as decisões certas: esse era Mike Postle em poucas palavras.

Postle dando uma 4-bet com ace-high e gutshot.

Uma das maneiras favoritas de Mike para extrair dinheiro dos adversários era por meio de blefes absolutamente perfeitos. Alguém tinha um underpair, Mike não tinha absolutamente nada e aplicava pressão máxima. O resultado normalmente era um fold, e Postle sorria e dava risada. Depois que o caso foi exposto, a comunidade do poker deixou de achar isso tão engraçado.

Uma das principais teorias sempre foi a de que Mike tinha ajuda — alguém nos bastidores fornecendo informações sobre as cartas.

Entrevista Mike Postle teve ajuda interna do Stones Casino: Ve

Com as polêmicas em torno de Mike Postle de volta à tona, trouxemo a entrevista de Daniel Cates, de 2024, com Veronica Bill, que falou sobre a ajuda interna que ele precisava para trapacear, além de explicar por que as autoridades não processaram o Stones Casino.

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Na história contada por Joe, algo semelhante também parece estar acontecendo.

Começamos a conversar e uma das coisas que percebemos foi que, toda vez que ele se sentava, sempre havia uma segunda pessoa na mesa. E os dois nunca interagiam.

Eles nunca davam qualquer sinal de que se conheciam. Mas essa segunda pessoa usava máscara, era extremamente quieta e muito nit. Na verdade, quando começamos a pensar sobre isso, percebemos que esse cara, durante uma ou duas semanas em que jogamos com ele, nunca tinha jogado uma única mão. Até a pessoa mais nit do mundo, em algum momento, vai receber ases, reis ou damas.

Ele simplesmente não jogava mão nenhuma, mas sempre deixava o boné apoiado no rail da mesa. No começo, não demos muita importância. Depois percebemos que havia uma possibilidade muito grande de que os dois estivessem trabalhando juntos.

Para ser sincero, era um sistema bastante eficiente, porque você nunca suspeitaria que o cara que não jogava nenhuma mão estivesse trapaceando, justamente porque ele não estava jogando. Mesmo que estivesse trapaceando, ele não estava ganhando dinheiro diretamente. Então não suspeitávamos dele.

E o outro cara, muito mais ativo, praticamente uma baleia, obviamente poderia levantar suspeitas porque estava ganhando muito. Mas ele não tinha nada no rail. Não tinha nenhum dispositivo ou qualquer coisa que pudesse indicar trapaça. Ele ficava de fones de ouvido o tempo inteiro, mas muitas pessoas fazem isso, como se estivessem ouvindo música ou assistindo a vídeos na mesa. Então não era algo suspeito.

Era um esquema muito interessante porque, pela maneira como dividiam as responsabilidades, não suspeitaríamos que nenhum dos dois estivesse trapaceando.

O próximo passo foi avisar os funcionários do cassino Aria, que realmente tomaram alguma providência. Isso nem sempre acontece nesse tipo de situação.

Em determinado momento, percebemos que os dois sempre estavam na mesa ao mesmo tempo. Então fomos falar com o floor do cassino e dissemos: 'Ei, suspeitamos que essas duas pessoas possam estar trapaceando. Percebemos isso ao longo das últimas semanas. Obviamente, não conseguimos pegá-los em flagrante, mas vocês poderiam pedir para eles tirarem o boné da mesa? Garantir que não haja nada no rail.'

Então o floor apareceu e disse: 'Ei, você precisa tirar o boné daí.' E ele imediatamente ficou extremamente defensivo.

Esse cara nunca falava. Ficava superquieto o tempo inteiro. E, de repente, ficou muito defensivo e disse: 'Não, não, não. Eu não estou fazendo nada de errado. Não tem nada acontecendo. Eu não estou trapaceando nem nada.'

E isso foi muito interessante, porque nenhum de nós tinha sequer mencionado trapaça. Tudo o que dissemos foi para ele tirar o boné, e ele ficou extremamente defensivo.

Em determinado momento, começou a conversar com o outro cara, seu possível cúmplice. Até então, durante uma semana e meia ou duas semanas, nunca haviam dado qualquer sinal de que se conheciam. Eles fingiam não se conhecer.

De repente, começaram a conversar entre si, inclusive em espanhol. Então ficou imediatamente claro que os dois se conheciam e tinham algum tipo de acordo. Logo depois, praticamente se levantaram e foram embora juntos. Para nós, embora isso não seja uma prova concreta, tornou tudo ainda mais evidente. Porque, se você não é culpado, não vai agir dessa maneira.

Você não vai ficar extremamente defensivo. Não vai começar a conversar com outra pessoa e imediatamente ir embora.

Para a maioria de nós, isso parece bastante claro, mas, do ponto de vista jurídico, tudo ainda é circunstancial. Não havia nenhuma prova definitiva, e o Aria percebeu isso.

Depois que eles foram embora, depois daquele incidente em que todos se levantaram e saíram imediatamente, conversamos com a administração do cassino e perguntamos: 'Vocês não acharam isso suspeito? Agora parece ainda mais claro que eles podem estar trapaceando.'

A administração do cassino basicamente respondeu: 'Bem, nós não os pegamos trapaceando. Não existe nenhuma prova concreta. Não podemos simplesmente bani-los.' Então, naquele momento, nós, como grupo de regulares, decidimos resolver a situação por conta própria.

Havia um grupo de mensagens com várias pessoas que jogavam ali regularmente. Eu só fico lá durante o verão, mas tenho um amigo que participa desses grupos e ele começou a repassar informações para os outros: 'Cuidado especificamente com essas duas pessoas. Eles estão trapaceando no $5/$10 do Aria. Fiquem atentos.'

Alguns dias depois, estou novamente sentado na mesa de $5/$10 e percebo que o cúmplice se sentou, mas não o cara que jogava muitas mãos. Então já fiquei em alerta.

E, como esperado, cerca de 15 minutos depois, a baleia, amigo dele, apareceu. Imediatamente falei: 'Certo, foi bom jogar com vocês. Estou indo embora.' Não expliquei o motivo, porque não achei necessário, mas imediatamente decidi guardar minhas fichas e sair.

Curiosamente, outro regular da mesa percebeu isso e basicamente confrontou a baleia cara a cara: 'Ei, ouvi alguns rumores sobre você. Ouvi dizer que você é muito bom em descobrir as cartas e saber o que as pessoas têm.' Ele falou isso na frente de todo mundo.

O cara ficou extremamente defensivo e respondeu: 'Não faço ideia do que você está falando. Não sei do que você está falando.' E o regular respondeu: 'Bom, não importa. Eu acho que você está trapaceando.' Então virou para as duas pessoas ao lado dele e disse: 'Aliás, tomem cuidado com ele. Tenho quase certeza de que ele trapaceia. Eu vou embora. Vocês fazem o que quiserem.'

Então ele se levantou e saiu. As outras duas pessoas começaram a dizer: 'Bem, isso está estranho. Vou levantar e sair também.' Outro jogador, mais recreativo e que estava apenas visitando, percebeu que a situação estava muito estranha, com quatro pessoas indo embora ao mesmo tempo, e também saiu. Imediatamente, basicamente toda a mesa acabou, e os únicos que ficaram foram ele e o cúmplice.

Se houvesse fotos das expressões dos supostos trapaceiros naquele momento, enquanto todas as vítimas em potencial abandonavam a mesa, elas não teriam preço.

Conseguimos mais algumas evidências. Aparentemente, ele havia contado para outras pessoas que também tinha sido banido do Wynn e do Venetian. Até onde sei, o único caso sobre o qual tenho certeza envolve o cara que estava fazendo o papel de baleia.

Ele afirma que foi banido do Wynn porque teve algum tipo de desentendimento com o floor, algo como uma altercação física.

Na época, não demos muita importância. Mas, pensando melhor agora, acho muito mais provável que ele tenha sido banido do Wynn por possivelmente estar trapaceando e simplesmente não quisesse contar o verdadeiro motivo.

E é aí que termina a história de Joe. Do nosso ponto de vista, é o mais próximo que podemos chegar de uma trapaça evidente sem possuir uma prova concreta.

Esse é justamente o problema dessas situações: a prova definitiva pode nunca aparecer. Foi exatamente o que aconteceu no caso de Mike Postle. Acusações fortes, toneladas de evidências circunstanciais, uma anomalia estatística, mas nenhuma prova definitiva.

Quando algo parece tão suspeito e apresenta todos os sinais característicos, porém, é necessário fazer um julgamento.

O método parece relativamente claro: um dispositivo — o boné — grava as cartas em um ângulo baixo enquanto elas são distribuídas e transmite as imagens para alguém nas proximidades. Essa pessoa provavelmente fica estacionada do lado de fora do cassino, talvez dentro de uma van.

O fato de a baleia usar fones de ouvido, isoladamente, não seria um sinal de alerta. Mas, combinado com todo o restante desta história, torna-se extremamente suspeito. É a maneira perfeita de transmitir informações sobre as cartas. Não é necessário nenhum dispositivo para dar toques na perna, como no filme Cassino.

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Sempre soubemos qual é a solução para impedir esse tipo de trapaça

As microcâmeras são tecnologicamente avançadas, mas relativamente fáceis de neutralizar. A comunidade sabe disso há anos, o que significa que os cassinos também estão cientes.

Bart Hanson destaca isso no vídeo:

Você poderia distribuir as cartas viradas para baixo. Poderia simplesmente evitar levantar as cartas, distribuí-las a partir de um shoe, como fazem no blackjack — e acho que também fazem isso em Mônaco, até mesmo no poker. Nunca joguei lá, mas simplesmente não levantar fisicamente as cartas [funcionaria], caso isso se tornasse algo generalizado à medida que a tecnologia avança.

Ele está absolutamente certo.

A principal maneira de impedir esse método de trapaça é distribuir as cartas mantendo-as totalmente rente à mesa — técnica conhecida como European slide ou Euro-slide — sem permitir que a face das cartas fique visível em nenhum momento. Esse estilo de distribuição, porém, ainda não foi adotado amplamente nos Estados Unidos.

O slide deal, no entanto, está se tornando padrão em diversas organizações. O EPT anunciou que a técnica passaria a ser esperada a partir de 2025. Segundo relatos, a maioria das grandes operadoras da Ásia utiliza o slide deal. A Tournament Directors Association também anunciou, durante seu Summit de 2026, transmitido ao vivo, que passaria a treinar dealers para utilizar o método.

No mesmo encontro, representantes do South Point Casino e do Venetian Casino manifestaram apoio à adoção do slide. A mudança levará algum tempo, mas é um passo na direção certa.

É possível apostar que a adoção demorará ainda mais nos cash games dos cassinos locais, onde os dealers recebem menos e sofrem maior pressão para distribuir as cartas rapidamente. Alguns operadores podem enxergar isso como uma escolha entre a integridade do jogo e o número de mãos por hora, mas o slide não é tão lento quando executado corretamente.

Com o slide deal, as cartas passam rapidamente do baralho para o feltro e permanecem totalmente apoiadas sobre a mesa até chegarem ao jogador.

Mas, durante o TDA Summit de 2026, um dos participantes do painel ligado ao Asia Poker Tour comentou como é fácil adotar esse estilo de distribuição de cartas:

Não demora tanto quanto vocês imaginam para ensinar os dealers a usar o slide deal. Se isso é o que está impedindo vocês. Se acham que seus dealers não conseguem aprender, nós ensinamos 200 dealers a distribuir as cartas dessa maneira basicamente em um único dia. É possível fazer isso. E isso elimina completamente esse problema.

A segunda medida de proteção seria proibir dispositivos e objetos sobre a mesa. Se apenas fichas e cartas fossem permitidas no feltro, seria difícil imaginar uma maneira de os trapaceiros contornarem a regra. De alguma forma, eles precisam conseguir colocar suas câmeras sobre a mesa.

Por outro lado, proibir objetos sobre a mesa pode prejudicar um pouco o ambiente para jogadores recreativos. Os jogos poderiam parecer mais sérios e mais próximos de uma competição do que de um hobby divertido. O cenário ideal seria os cassinos adotarem o slide dealing e o problema terminar por aí.

Continuaremos acompanhando. Por enquanto, parece que os profissionais responsáveis pela organização dos torneios — além de alguns cassinos — estão cientes desse método de trapaça e não pretendem esperar que ele se transforme em um problema grave capaz de afetar seus resultados financeiros.

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