Leia a parte 1 aqui:

Fundador do GTO Lab, Jonathan Jaffe relembra o início no poker, os primeiros lucros no PokerStars e a decisão de abandonar a faculdade para jogar.

Leia

No início de 2007, eu ainda tinha 19 anos. Isso significava que o poker ao vivo legalizado estava fora do meu alcance, com exceção do cassino Turning Stone, no norte do estado de Nova York.

Havia, porém, outra exceção: o festival anual PokerStars Caribbean Adventure. Seu Main Event, com buy-in de $10K, era realizado no cassino Atlantis, em Nassau, nas Bahamas, e reunia mais de mil jogadores. Durante meses antes de seu início, o PokerStars promovia centenas de satélites online que ofereciam vagas para o torneio.

Em 2007, ganhar um pacote para o PCA representava muito mais do que a oportunidade de disputar um excelente torneio e passar as férias de inverno em um destino tropical. Aquele pacote confirmava que você era um verdadeiro profissional de poker.

Era possível passar meses contando aos amigos, familiares e seguidores no MySpace e no Facebook que sua habilidade no poker havia garantido uma semana nas Bahamas. O poker online antes parecia um hobby estranho e um pouco condenável. Agora, esse mesmo hobby despertava curiosidade e inveja.

O PokerStars divulgava o PCA de maneira agressiva. Imagino que a empresa perdesse muito dinheiro com o torneio todos os anos, mas a perspectiva de jogar nas Bahamas gerava bastante tráfego para a sala e ajudava a alimentar o sonho do poker.

4.4
Consolidado como um dos sites de poker mais tradicionais do mundo, o PokerStars reúne jogadores do Brasil e de diversos outros países para disputar cash games nas principais modalidades do mercado, como Texas Hold’em, Omaha, Stud, H.O.R.S.E. e variações menos populares do poker online.

O Main Event do PCA 2007 foi um momento decisivo na minha carreira, embora eu não tenha conquistado nada por conta própria. Fui eliminado na metade do primeiro dia depois de exagerar completamente com em um flop e acabar em all-in contra dois jogadores: um tinha e o outro, uma trinca de setes.

Como muitos participantes de torneios caros, eu havia trocado 5% de minha ação com alguns amigos que considerava ter um nível técnico semelhante ao meu. Um deles, Jon Ford, que também era especialista em heads-up, terminou na terceira colocação e recebeu $550.000. Minha parcela de 5%, equivalente a $27.500, tornou-se meu maior resultado em torneios até aquele momento.

A lendária mesa final: Isaac Haxton, Rob Mizrachi, Jon Ford, Frank Rusnak, Ryan Daut e Jonathan Little.

Eu não havia conquistado aquele dinheiro por conta própria. Simplesmente tive sorte. E, quando o dinheiro chega de maneira inesperada, fica muito fácil convencer a si mesmo a se aventurar.

No início, meus tiroes eram bastante cuidadosos e pontuais. Eu jogava principalmente jogos de $500 e $1.000 contra adversários fracos. Pouco depois, aconteceu algo cujos detalhes infelizmente não consigo recordar. Só me lembro de, repentinamente, perceber que estava disputando um jogo de $5.000. Vinte minutos depois, havia ganhado $4.900.

Aquela euforia puramente bioquímica foi tão intensa que fez todo o restante parecer insignificante.

Nos dois meses seguintes, evitei cuidadosamente os heads-ups de $5K. No final de março, porém, não consegui resistir novamente. Duas derrotas consecutivas custaram $10.000 e me obrigaram a passar um longo período recuperando o prejuízo nos limites de $100 e $200.

A experiência, no entanto, havia me transformado por completo. Agora eu queria enfrentar os melhores dos melhores. Aos 19 anos, possuía tudo de que precisava para isso: uma absoluta falta de medo e a possibilidade de continuar dando shots.

Nessa fase da minha carreira, ganhei um aliado inesperado: meu pai. Apesar de não ter o menor interesse em jogar poker, ele ficou fascinado pelo drama do universo dos HU SNG. Observava o lobby vazio como um falcão à caça. Quando encontrava um nick desconhecido nos limites mais altos, principalmente nos jogos de $2K e $5K, telefonava imediatamente para mim: "Jonathan! Corra para o computador! Tem um russo de quem nunca ouvi falar esperando no lobby de $5K!"

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Estimo que as ligações do meu pai tenham sido responsáveis por aproximadamente 20% dos meus ganhos naquela época. Eu adorava recebê-las. Durante muitos anos, sempre que meu telefone tocava, esperava encontrar a palavra "Pai" na tela.

Aquele foi o período de crescimento mais rápido de toda a minha carreira. Em abril, ganhei $80.000, praticamente igualando o resultado do ano anterior em apenas um mês.Eu sentia muito orgulho do meu desempenho em 2006, da disciplina que havia demonstrado e de minha capacidade para grindar. Quantas oscilações emocionais havia enfrentado para ganhar aquele dinheiro!

Agora, eu conseguia a mesma quantia em um mês — e não graças a um resultado isolado em um torneio, mas na modalidade que jogava diariamente. De repente, os limites do que eu considerava possível se expandiram drasticamente.

Eu transitava com facilidade entre os limites e disputava qualquer partida com buy-in entre $200 e $5.000. As vitórias pareciam inevitáveis. Em maio, lucrei $20.000. Em junho, a tampa da panela explodiu: foram $138.000, um valor tão alto que parecia irreal. Continuei vencendo em julho e, no início de agosto, já havia acrescentado mais $50.000 ao resultado.

Meu lucro total chegava a aproximadamente $284.000, sem que eu tivesse recebido um único prêmio superior a $5.400. Minha confiança estava nas alturas, meu ego havia crescido ainda mais e comecei realmente a acreditar que possuía o toque de Midas.

Sem dúvida, eu estava vivendo um período de muita sorte. Mas também havia evoluído bastante tecnicamente. Desde o princípio, tive muita facilidade para fazer leitura de mãos, uma qualidade especialmente valiosa no heads-up. Ao mesmo tempo, o cenário dessa modalidade era extremamente caótico e imprevisível.

Novos jogadores de elite surgiam do nada, e muitas vezes era difícil determinar se alguém realmente estava destruindo os adversários ou apenas atravessava um período indecentemente longo de boa sorte. Era impossível estabelecer uma hierarquia exata.

Acredito que, em meados de 2007, eu estivesse entre os três ou cinco melhores jogadores de HU SNG do mundo. Meu bankroll, porém, não era grande o suficiente. Portanto, o principal combustível de minha ascensão ainda era uma sequência positiva da variância. O inevitável aconteceu em agosto: enfrentei minha primeira downswing nos high stakes e perdi pouco mais de $100.000.

Ainda consegui encerrar o ano com um lucro de $182.000, mas passei a compreender de outra maneira as possíveis oscilações daquela modalidade. Eu jogava heads-up com um bankroll de apenas 20 a 50 buy-ins. No outro extremo estavam profissionais de SNG 6-max e 9-max, como Jorj95 e SpaceGravy, que mantinham bankrolls de 300 a 1.000 buy-ins.

Passei tanto tempo tentando convencer meus amigos e familiares de que poker não era jogo de azar que acabei convencendo a mim mesmo. Com o meu gerenciamento de bankroll, a sorte influenciava meus resultados tanto quanto a habilidade.

A solução racional para o problema era vender ação. Em fevereiro de 2008, recebi exatamente esse tipo de proposta.

Conheçam o Dr. Fells.

Seu nome verdadeiro era Keith. Ele também era profissional e usava Hannibal Lecter como avatar. Eu já o via nos lobbies de heads-up desde a época em que ainda frequentava a escola.

Certo dia, ele pediu meu e-mail e explicou que havia reunido um grupo de investidores interessado em bancar os melhores jogadores de heads-up nos limites mais altos. Queria saber se eu estaria disposto a ouvir a proposta.

Um mês depois, Keith e um dos investidores, Mike, viajaram até Connecticut para se encontrar comigo.

A apresentação foi clara e detalhada. Eles mostraram vários modelos de projeção, diferentes cenários de risco e abordagens conservadoras ou agressivas, dependendo de minha disposição para arriscar. A proposta permitiria que eu disputasse os limites mais altos enquanto colocava em risco apenas valores com os quais me sentisse confortável. Por outro lado, também significava dividir meus lucros.

Eu tinha 20 anos, morava sozinho, podia me permitir dar tiros arriscados e estava disposto a voltar a grindar os limites médios caso as coisas dessem errado. Passei todo o fim de semana em uma indecisão angustiante.

Na segunda noite, meu pai se juntou a nós para o jantar, e Keith claramente o impressionou. No fim da noite, quando restávamos apenas nós três à mesa, meu pai perguntou diretamente: "O que você realmente acha? Jonathan deveria aceitar a proposta?"

Keith refletiu durante um longo momento, balançou a cabeça e respondeu: "Não. Acho que Jon ficará bem sem nós. Se ele entrar em downswing, sempre poderemos voltar e conversar novamente."

Depois disso, Keith e eu nos tornamos amigos. Até hoje, considero-o um de meus amigos mais próximos e confio completamente nele.

Em março, completei 21 anos. Finalmente, em junho, pude viajar pela primeira vez a Las Vegas e participar da série que havia me inspirado a começar no poker: a World Series of Poker.

Tive alguns resultados modestos durante as duas primeiras semanas. Depois, avancei muito no Heads-Up Championship de $10K. Foi incrível ter um desempenho tão bom justamente em minha especialidade.

A quarta colocação entre 256 participantes me rendeu $108.000.

Heads-Up Championship da WSOP 2008

O resultado veio em uma ótima hora. Embora já tivesse acumulado aproximadamente $250.000 em lucros, cheguei à série com um bankroll de cerca de $100.000. A classificação para a semifinal praticamente dobrou esse valor.

O dinheiro havia seguido o caminho habitual: impostos, previdência, aluguel e outras despesas. Embora nunca tivesse sido apaixonado por carros, também havia comprado um Infiniti G35 Coupé 2004. Foi a primeira coisa que comprei com o objetivo de chamar a atenção.

2004 Infiniti G35 Coupe for Sale - Cars & Bids
Infiniti G35 Coupé 2004

A etapa de novembro do World Poker Tour em Foxwoods surgiu como outra oportunidade. Era um torneio com buy-in de $10K realizado a apenas uma hora e meia do meu apartamento em Connecticut.

Em 2008, o cenário ao vivo era radicalmente diferente daquele encontrado no poker online.

Na internet, eu havia aprendido a observar os menores detalhes nos timings e sizings dos adversários para tentar descobrir suas mãos. Descobri que o poker ao vivo oferecia um verdadeiro bufê de informações gratuitas.

Os jogadores discutiam despreocupadamente suas mãos entre uma street e outra, mostravam cartas aos vizinhos e compartilhavam honestamente suas opiniões estratégicas entre as mãos. Isso sem mencionar a enorme quantidade de tells físicos, muitas vezes bastante evidentes.

Em 2008, eu era um arrogante regular de elite do poker online, mas aparentava ter aproximadamente 15 anos. Apesar da quarta colocação em um torneio relativamente importante, meu nome verdadeiro não significava absolutamente nada para 99% dos profissionais do circuito ao vivo. Resolvi aproveitar o anonimato e me divertir ao máximo.

Organizava meu stack em colunas ridículas de quatro fichas, fazia apostas com a coordenação motora de um bebê e contava para todo mundo que meus avós haviam me dado o buy-in como presente de aniversário de 21 anos. Segundo minha história, eles eram proprietários de uma próspera pista de boliche.

Quando Mike Dentale perguntou meu nome, resolvi ir all-in na interpretação:"Chris."

Minha atuação era tão grotesca e tão ofensivamente caricata que todos deveriam ter percebido imediatamente.

No primeiro nível do torneio, entrei de limp do UTG com 32s e apliquei um grande limp-reraise depois de um raise e vários calls. Quando o último adversário foldou para minha continuation bet em um flop , mostrei orgulhosamente o blefe. Depois, passei o minuto e meio seguinte organizando cuidadosamente as fichas como uma criança brincando com blocos de montar.

Durante os seis dias seguintes — a mesa final foi disputada apenas no sétimo dia! —, mantive desesperadamente o personagem enquanto destruía todos os adversários.

Terminei cada um dos dias como chip leader e, desde a metade do primeiro dia até restarem oito jogadores, nunca coloquei em risco mais de um quarto do meu stack em um único all-in.

Meu controle sobre o torneio parecia absoluto.

Quase fui desmascarado no quarto dia. Jon Friedberg, um profissional experiente, aproximou-se enquanto eu retirava minhas fichas do saco: "Ouvi dizer que você é o Iftarii. É verdade?", perguntou, citando meu nick no PokerStars.

Meu coração parou por um instante. Ele, porém, não parecia completamente convencido, então resolvi levar a atuação até o fim. Fingindo surpresa, perguntei: "Eu... sou americano?"

E ele acreditou!

Constrangido, Jon pediu desculpas e explicou que outro profissional, chamado Kevin Saul, havia me identificado em um fórum como um jogador online de high stakes. Continuei olhando para ele com uma expressão de completa incompreensão. Pouco depois, nós dois rimos do mal-entendido. Ele se afastou da mesa absolutamente convencido de que Saul havia confundido as pessoas.

Minha identidade como Iftarii só foi oficialmente confirmada quando alcancei a mesa final televisionada, com seis jogadores.

Apesar de perder absolutamente todos os all-ins pré-flop, consegui manter a liderança até o heads-up contra Jonathan Little.

Depois de mais algumas horas, perdi três all-ins para Little e terminei na segunda colocação. O prêmio foi de $670.000. Fiquei com 85% do valor, enquanto 10% foram para Nick Petrangelo e 5% para Keith.

É difícil dizer exatamente o que senti, porque não me permiti comemorar.

O dinheiro era excelente, mas eu não havia vencido. Também sentia que havia decepcionado meus amigos e familiares que viajaram para torcer por mim.

Eu realmente acreditava que apenas perdedores conseguiam ficar felizes com um segundo lugar.

A maioria dos jogadores que chega longe em um grande torneio sente depois uma enorme atração pelo circuito. Eu não senti. Foxwoods havia sido divertido, mas torneios eram lentos e exigiam muita paciência. Paciência nunca foi uma de minhas virtudes, e eu também não tinha interesse em desenvolvê-la.

Voltei para casa e para os lobbies de heads-up. Meu lugar era ali.

Aos 21 anos, eu possuía exatamente todas as características recompensadas pela meta daquela época. O jogo, porém, estava mudando rapidamente. Uma nova meta se aproximava — e ela destacaria todas as minhas deficiências.