Yuri Dzivielevski já havia acumulado um lucro expressivo no ano quando surgiu a oportunidade de disputar um jogo muito mais caro do que aqueles aos quais estava acostumado. Segundo ele, a banca comportava a participação. As oscilações, porém, também seriam maiores: em cerca de um mês, o brasileiro perdeu tudo o que havia ganhado até aquele momento.
“Em um mês eu perdi tudo o que eu tinha ganho no ano inteiro”, conta. O impacto financeiro veio acompanhado de um abalo psicológico e de uma revisão sobre a forma como enxergava os próprios resultados.
Em um vídeo de perguntas e respostas, Yuri usa essa experiência para discutir gestão de banca, subida de limites e variância. A conversa também passa por ICM, torneios ao vivo, estudo e os acordos que permitem conciliar o poker profissional com a vida em família.
O dinheiro continuava no bankroll
O problema, na avaliação de Yuri, estava na expectativa que havia criado sobre os ganhos. Embora continuassem no bankroll — o dinheiro reservado para jogar poker —, ele já os tratava como um valor consolidado em seu patrimônio pessoal.
“Se eu quisesse que aquele dinheiro fosse meu, eu teria que tirar ele do meu bankroll”, explica.
Os resultados positivos haviam aumentado sua capacidade financeira para disputar jogos mais caros. Ao manter o lucro na banca e utilizá-lo para subir de limite, também aumentava a quantia sujeita às oscilações de cada sessão.
Yuri conta que sofreu justamente porque não havia assimilado essa consequência. O dinheiro permanecia disponível para jogar, mas, emocionalmente, ele já contava com aqueles ganhos como garantidos.
A lição foi separar com mais clareza os recursos destinados ao poker daqueles que deseja preservar para outros objetivos. Sua orientação é retirar do bankroll o dinheiro com o qual o jogador não está disposto a enfrentar oscilações, destinando-o, por exemplo, a uma reserva de emergência.
“Se você não está disposto a swingar com aquele dinheiro, ou uma parte daquele dinheiro, não considere aquilo parte do seu bankroll.”
O princípio é definir conscientemente qual parcela do capital pode ficar exposta ao risco e dimensionar os jogos a partir dessa decisão.

Como enfrentar o medo de subir de ABI
A discussão começa com uma pergunta sobre o medo das perdas ao aumentar o ABI, sigla para o buy-in médio dos torneios disputados. Yuri admite que ainda sente frio na barriga quando participa de jogos muito caros, mesmo depois de tantos anos de carreira.
Para ele, esse desconforto é natural diante de um ambiente menos familiar. A preparação envolve ter a banca necessária, avaliar a própria capacidade de competir e compreender as oscilações possíveis no novo limite.
“O medo faz parte, tá tudo bem”, resume.
Yuri observa que a progressão costuma acontecer aos poucos. Um grande resultado ou o suporte de um time pode permitir saltos maiores, mas a possibilidade de pagar uma inscrição precisa ser analisada dentro da estrutura financeira do jogador.
Conhecer a variância também ajuda a ajustar as expectativas. Uma sequência negativa pode acontecer mesmo quando existe vantagem técnica sobre o field, e a preparação para enfrentá-la deve começar antes da primeira sessão no novo limite.
O erro de escolher um field gigante para o tiro mais caro
Um dos principais alertas do vídeo é sobre a combinação de buy-ins elevados com torneios de fields grandes, ou seja, com muitos participantes.
Yuri compara a grade de torneios a um portfólio de investimentos: cada composição traz uma expectativa de retorno e um nível de volatilidade. Um evento pode ser lucrativo em expectativa e, ao mesmo tempo, exigir uma banca maior para suportar as oscilações até os resultados mais expressivos.
Por isso, ele critica a prática de escolher justamente um torneio enorme para fazer a inscrição mais cara da grade. Em sua visão, os eventos de maior variância deveriam ocupar uma faixa mais baixa de buy-in em relação à banca disponível.
Como exemplo, o brasileiro lembra de ter visto jogadores nas Bahamas assumirem uma exposição que considerava excessiva em um Main Event de $26 mil. Na avaliação dele, alguns não tinham uma estrutura financeira compatível com o risco, mesmo quando disputavam apenas parte da própria ação.
A perspectiva de uma premiação milionária, argumenta Yuri, pode desviar a atenção da frequência com que o jogador sairá sem receber. O tamanho do prêmio ao campeão precisa ser colocado ao lado do custo da entrada, da dificuldade do field e da capacidade de absorver perdas.
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Quando uma downswing deve preocupar?
Yuri evita estabelecer um número universal de buy-ins a partir do qual uma downswing passa a ser preocupante. A resposta depende, principalmente, do tamanho dos fields e do ROI, o retorno sobre o investimento esperado para aquele jogador.
Uma grade com torneios de milhares de participantes pode apresentar oscilações muito diferentes das de uma seleção de eventos com cerca de 150 inscritos. Segundo ele, essa diferença pode ser relevante mesmo quando o jogador dos fields menores tem um ROI inferior.
Durante o vídeo, Yuri recorre a uma simulação de variância para ilustrar como jogadores com a mesma expectativa de lucro podem terminar grandes amostras com resultados bastante diferentes.
Um período prolongado no zero a zero pode levar alguém a duvidar excessivamente da própria capacidade. Na outra ponta, uma sequência muito lucrativa pode criar uma percepção exagerada sobre a vantagem que realmente possui.
A análise dos resultados precisa considerar esse contexto. A rentabilidade observada em uma amostra e o retorno esperado para o jogador são medidas que podem se distanciar bastante.
As fases ruins como oportunidade de estudar
Reconhecer o peso da variância convive, no relato de Yuri, com uma postura exigente em relação ao próprio desempenho. Ele diz que costuma assumir muita responsabilidade pelas fases ruins e que, às vezes, sofre ao tentar controlar resultados que não dependem inteiramente de suas decisões.
Ao mesmo tempo, considera esses períodos importantes para sua evolução técnica.
“São sempre os momentos que eu mais evoluo, que eu mais estudo, que eu estruturo os estudos”, afirma.
Nessas fases, ele pode diminuir o tempo de jogo, reorganizar o estudo e concentrar esforços em corrigir problemas. A percepção é de que costuma retornar mais preparado.
A distinção está entre procurar erros que podem ser corrigidos e atribuir toda perda à falta de habilidade. Para Yuri, assumir responsabilidade pelo trabalho ajuda; transformar cada resultado em um julgamento definitivo sobre o próprio nível aumenta o desgaste.

O ICM deve ser considerado desde o início
Ao responder a uma pergunta sobre quando o ICM começa a importar, Yuri afirma que já o considera desde a primeira mão do torneio.
O ICM é um modelo usado para estimar o valor monetário das fichas a partir dos stacks e da estrutura de premiação. Na leitura do brasileiro, sua influência existe desde o começo, embora seja menor do que em situações nas quais a pressão dos saltos de premiação se torna mais evidente.
Ele cita o exemplo de dois jogadores que dobraram seus stacks e passam a se enfrentar ainda nos primeiros níveis. Segundo Yuri, essa mudança já pode aumentar a importância do fator na tomada de decisão.
O desafio de depender apenas dos torneios ao vivo
Yuri também faz uma avaliação bastante crítica sobre a possibilidade de viver exclusivamente de torneios presenciais. Para ele, a combinação de baixo volume e variância torna essa dependência problemática. Nos cash games ao vivo, considera que existe uma possibilidade mais viável.
Seu argumento se concentra no número de oportunidades de jogo. Em uma rotina de um torneio por dia, sem folgas, seriam 365 eventos em um ano. Yuri compara essa quantidade ao volume que diz exigir em um mês dos jogadores de high stakes da RegLife.
O exemplo mostra a dimensão do problema que ele enxerga: uma amostra que exige um ano inteiro no ao vivo pode ser construída muito mais rapidamente no online. Com menos torneios, o resultado financeiro permanece mais dependente de poucas campanhas profundas e premiações expressivas.
Corrida, sono e fé na rotina fora das mesas
Quando o assunto passa para as mudanças fora do poker, Yuri destaca a corrida, a musculação e o cuidado com o sono.
A corrida entrou na rotina pela facilidade de adaptação. Com o tempo dividido principalmente entre família e trabalho, ele buscava um esporte que pudesse praticar sem depender de uma estrutura complexa, inclusive durante viagens.
Segundo Yuri, correr antes de jogar tem um efeito especialmente positivo sobre seu estado mental. Ele também relata melhora no descanso após investir em uma capa de colchão com controle de temperatura, ajustada às preferências dele e da esposa.
Os benefícios descritos estão ligados à atenção, ao foco e à disposição. O próprio jogador ressalta que a evolução técnica continua dependendo de estudo e treino.
Yuri ainda atribui à conversão cristã uma mudança na maneira de atravessar momentos bons e ruins. Em seu relato, a fé reduziu o peso dos resultados do poker sobre sua felicidade e trouxe maior estabilidade emocional.
Trabalhar mesmo quando a vontade de jogar diminui
A organização da rotina ganhou novos desafios com a chegada de mais um filho. Yuri conta que os horários de exercício ficaram mais flexíveis, enquanto o período reservado ao trabalho permaneceu estruturado por um acordo com a esposa.
A tarde e o início da noite são dedicados principalmente a jogar ou estudar. A partir do fim da sexta-feira e durante o sábado, ele procura se desligar do trabalho para ficar com a família. Aos domingos, a sessão vem depois da igreja e do almoço.
Esses acordos ajudam a proteger o tempo de convivência e a manter o compromisso profissional. Yuri revela que, em algumas fases muito lucrativas, sente menos vontade de jogar do que nos períodos ruins, quando aumenta o desejo de estudar, competir e provar sua capacidade.
O horário definido impede que essa oscilação de motivação determine todo o volume de trabalho.
“Isso me faz colocar um volume muito maior do que se eu deixasse as minhas emoções tomarem conta”, explica.
Por essa razão, ele vê com cautela a ideia de se tornar jogador apenas para não ter patrão. Trabalhar em casa exige construir uma rotina e cumpri-la mesmo quando os resultados, o humor ou a vontade de abrir as mesas mudam.
“Exige muita disciplina de você fazer a coisa acontecer sem ninguém te cobrar.”