Parte 1: Jonathan Jaffe: do boom do poker à carreira profissional – Parte 1

Parte 2: Jonathan Jaffe: da estreia na WSOP à final do WPT – Parte 2

Em setembro de 2009, na primeira rodada do WCOOP de heads-up de $25.000, flopei uma sequência nuts contra um dos grandes vilões do poker online: JeevesGets (nome alterado).

Iftarii (BB): 21.579 (134,9 bbs)

JeevesGets (SB): 18.421 (115,1 bbs)

Pré-flop:

JeevesGets aumenta para 320, Iftarii ( ) faz uma 3-bet para 1.120, JeevesGets paga mais 800.

Flop (2.240):

Iftarii aposta 1.500, JeevesGets aumenta para 17.301 e vai all-in.

Meu cursor pairou sobre o botão de call. Foi então que percebi o olhar de espanto de T.J.: aquele era o momento perfeito para um slowroll! Como você pode desperdiçar uma oportunidade dessas?

A estrutura oferecia um time bank de dez minutos para o torneio inteiro. Passei os cinco minutos seguintes em um estado de euforia sádica.

Iftarii paga mais 15.801.

JeevesGets mostra

Turn (36.842):

River (36.842):

Pouco depois, recebi uma mensagem de um novo usuário no AIM.

anon_44 (17:56:54): escuta aqui, seu *******

anon_44 (17:57:00): se a gente se encontrar, vou tentar te matar

anon_44 (17:57:03): não me importa se eu morrer também

anon_44 (17:57:09): por isso, você merece ser torturado e morto

anon_44 (17:57:10): estou falando sério

anon_44 (17:58:13): já estou indo para o seu estado

anon_44 (17:58:17): você merece ser morto, ****

anon_44 (17:58:27): e todos os membros da sua família de **** também, idiota

anon_44 (18:04:43): isso, me ignora

anon_44 (18:04:56): não importa que você seja maior e mais forte do que eu, vou te torturar e te matar ou morrer lutando

anon_44 (18:05:02): eu não fiz nada para você

Eu (18:06:18): quem é?

anon_44 (18:06:28): **** iftarii

anon_44 (18:06:36): vou até Massachusetts e vou te matar, ****

anon_44 (18:06:39): eu não fiz NADA para você

Eu (18:06:58): jeeves?

anon_44 (18:07:28): você está morto

4.4
Consolidado como um dos sites de poker mais tradicionais do mundo, o PokerStars reúne jogadores do Brasil e de diversos outros países para disputar cash games nas principais modalidades do mercado, como Texas Hold’em, Omaha, Stud, H.O.R.S.E. e variações menos populares do poker online.

Jeeves era um jogador talentoso, com um ego enorme, mas o mesmo poderia ser dito de mim. Além disso, ele perdia a cabeça com facilidade, pelas coisas mais insignificantes. Assim como alguns outros jogadores de elite daquela época, explodia ao menor sinal de azar e descontava em quem estivesse por perto. Durante a minha infância e adolescência, muitos garotos ao meu redor tinham esses acessos explosivos de raiva, e jurei que nunca me tornaria um deles. O heads-up é um jogo muito emocional, em que as ações dos adversários frequentemente são percebidas como ataques pessoais, e as pessoas precisam extravasar quando tudo dá muito errado. Todos nós lidávamos constantemente com a raiva e a frustração. Mas eu tinha aprendido, mais ou menos, a guardá-las para mim e, por isso, não gostava muito de quem não conseguia fazer o mesmo.

O slowroll contra Jeeves foi uma espécie de sessão de exorcismo: eu expulsava minha própria escuridão enquanto me sentia um verdadeiro exemplo de virtude. Humilhar quem não conseguia controlar a própria raiva era uma das minhas maneiras de não me tornar um deles.

Os trechos da conversa acima parecem bastante chocantes, mas o ecossistema do heads-up naquela época era bastante tóxico. Alguns anos depois, porém, tudo ficaria muito pior do que simples ofensas no chat.

(Nota da redação: é possível supor que, sob o nome Jeevesbets, o autor tenha disfarçado de maneira pouco sutil a identidade de Steven “stevesbets” Jacobs. Os escândalos envolvendo o jogador ganharam uma nova dimensão depois de seu processo de $13 milhões contra a DraftKings. Mas, é claro, isso é apenas uma suposição.)

Se alguém me perguntasse o que eu esperava de 2008, eu escreveria, sem pensar duas vezes, uma lista inteira de desejos de Ano-Novo. Uma namorada. Mais dinheiro. Mais reconhecimento. A lista habitual de um rapaz de 20 anos que acredita estar no caminho certo. E, de uma forma ou de outra, consegui tudo isso.

Em abril, conheci Britney. Passaríamos os seis anos seguintes juntos. Em junho, fiquei em quarto lugar no campeonato de heads-up da World Series. Meu nome começou a ser reconhecido, e meu bankroll ganhou um reforço considerável. Em novembro, recebi mais de meio milhão de dólares pelo segundo lugar em Foxwoods.

No entanto, eu não tinha interesse em uma carreira no poker de torneios. Viajar constantemente de um torneio para outro, foldar muito mais do que aumentar, ser eliminado muito mais vezes do que chegar a uma mesa final? Eu estava acostumado a um formato em que era preciso jogar 80% das mãos e em que os dias de lucro eram mais frequentes do que os de prejuízo. Faltavam-me a paciência e a capacidade de suportar a dor que os MTTs exigem.

Poucas semanas depois de completar 22 anos, comprei uma casa. Eu precisava de um lugar onde meus amigos pudessem aparecer e passar um tempo, por alguns dias ou semanas, sem avisar e sem precisar de um motivo. E foi exatamente o que aconteceu. Meus amigos ficavam constantemente lá em casa para grindar, e eu até transformei o quarto principal em um escritório, enquanto me mudava para um quarto menor. Mas não jogávamos apenas poker. Eram festas sem fim, cerveja, jogos de todo tipo. Eu gostava de passar tempo com meus amigos e com Britney, e criei um ótimo lugar para ficarmos juntos.

A vida era simples e maravilhosa. Eu ganhava mais do que a maioria dos adultos que conhecia, jogando meu jogo favorito, em uma casa cheia de pessoas que eu amava muito.

Comecei a me acostumar com aquela vida. Surge um desejo; o desejo se realiza; pensamos no que mais poderíamos desejar.

O slowroll contra Jeeves me permitiu passar pela primeira rodada. Também venci os quatro confrontos seguintes e fiquei com o primeiro prêmio de $315.000. Não me lembro exatamente de quanto da minha ação vendi, mas seria muito estranho se tivesse sido mais de 20%. Além disso, ao longo do ano, ganhei outros $300.000 nos sit & gos de heads-up. Meu ego, que já não era pequeno, passou de todos os limites. Em quatro anos, ganhei mais dinheiro do que sonharia ganhar em 15.

Os resultados do torneio ainda estão disponíveis nas notícias do site CardPlayer. Vamos reproduzi-los exatamente como fizeram nossos colegas americanos, que só não conheciam o nome por trás de um dos nicks desse lendário grupo de oito :)

1º. Jonathan “Iftarii” Jaffe — $315.000

2º. Allan “Sifosis” Bakke — $180.000

3º Olivier “Adonis112” Busquet, também conhecido como livb112 — $90.000

3º Sorel “zangbezan24” Mizzi, também conhecido como Imper1um — $90.000

5º Alex “mistakooll” Keating, também conhecido como Kadabra — $56.250

5º joiso — $56.250

5º Adam “skilled_sox” Ewenstein — $56.250

5º Peter “PeteEastgate” Eastgate — $56.250

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Antes da chegada dos solvers, era possível jogar bem de várias maneiras. Meus talentos estavam no reconhecimento de padrões e na disposição para experimentar linhas criativas. Primeiro, eu observava como determinada mão afetava meus pensamentos e minhas emoções. Depois, pensava na mesma situação do ponto de vista do adversário. Na etapa seguinte, inventava uma estratégia para explorar essas emoções e induzi-lo a tomar a decisão que eu desejava.

Em 2025, Ben Tollerene descreveu como era estar do outro lado:

Você adotava linhas que provocavam uma reação emocional muito forte em mim. O efeito era muito poderoso. Lembro muito bem das suas apostas de lead... Você dava check-call e depois saía apostando nos turns, literalmente me forçando a reagir de determinada maneira. Era muito forte.

A terceira etapa era a mais prazerosa: prever quando o adversário perceberia o que eu estava fazendo e me preparar. Era preciso observar atentamente os sinais de que ele estava prestes a se adaptar à minha estratégia e surpreendê-lo com um contra-ajuste. Eu procurava estar sempre um passo à frente.

Um dos meus recursos favoritos era uma linha com um sizing absurdo, que provocava blefes até dos adversários mais cautelosos. Eu os pegava nessas situações e, como eles consideravam seus blefes muito raros e espontâneos, passavam a me enxergar como um simples calling station, contra quem não fazia sentido blefar. Mas, assim que você consegue fazer um adversário parar de blefar no heads-up, a maior parte do trabalho já está feita: sua vantagem se torna quase impossível de superar.

Era o fim de uma era que recompensava mais o talento do que a persistência, em que os instintos para o poker eram mais importantes do que a disciplina de trabalho.

Em vez de valorizar a sorte de ter recebido aquele talento, concentrei-me no que, a meu ver, ele dizia sobre quem eu era.

Você entende o que quero dizer se também cresceu assistindo a transmissões esportivas. Os grandes atletas parecem se entregar de bom grado ao próprio ego, pelo menos durante a competição. Depois, nas entrevistas, dizem palavras humildes, mas aquilo parece mera formalidade. No calor da disputa, depois de uma cesta decisiva de três pontos, de um forehand potente ou de um gol decisivo, batem no peito ou erguem os punhos, e não há nada de humilde nisso. “Eu é que mando, e todo mundo sabe.” Às vezes, atletas como Michael Jordan ou Kobe Bryant iam ainda mais longe: em vez de demonstrar uma explosão de energia e paixão, exibiam uma serenidade fria e um olhar de gelo. Aquilo transmitia uma mensagem ainda mais forte: “Você não é como eu.” Muitos de nós assistíamos àquilo com admiração. Eu também aspirava a algo parecido.

Isso explica, em grande parte, por que eu quase não pensava na sorte que tinha ou em como as circunstâncias haviam sido favoráveis. Essa seria a reação de um ganhador da loteria, de alguém em cujo colo caiu um prêmio por acaso. Eu queria acreditar que meu sucesso era resultado de habilidade, e não de sorte. A maioria dos jogadores de poker tem uma relação complicada com a sorte. Quando alguém chama você de sortudo, a atenção se afasta daquilo de que você realmente se orgulha.

Vale dizer que os talentos que me tornaram um dos melhores jogadores de poker em 2009, dez anos depois, já não seriam suficientes nem para me tornar profissional. E, dez anos antes, o formato adequado simplesmente não existia. Portanto, cheguei no momento exato do boom do poker, e só isso já me torna uma das pessoas mais sortudas do mundo. Mas eu preferia ignorar esse fato.

2009 foi um ano de prazeres e de domínio nos jogos de limites altos do poker online. No entanto, uma crise se aproximava silenciosamente e, olhando para trás, ela parece inevitável. Meus desejos se realizavam tão depressa que eu começava a ficar sem nada mais para desejar. Mais dinheiro? Algo mesquinho e sem sentido; não um desejo verdadeiro, mas um substituto. Eu gostava de receber reconhecimento, mas já estava perto do meu teto. Dedicava ao jogo muito menos horas do que meus colegas no topo da hierarquia do heads-up e não pretendia mudar isso. Por isso, comecei a fazer a mim mesmo perguntas desconfortáveis para as quais não havia uma boa resposta. Eu não tinha depressão clínica, apenas havia me deparado com problemas de natureza filosófica. Continuava desfrutando dos prazeres, das pessoas ao meu redor, dos jogos e dos esportes. No entanto, surgiu a sensação de que, com o tempo, a alegria que tudo aquilo me proporcionava se esgotaria. Era preciso mudar alguma coisa, e isso me deixava deprimido.

No início de 2010, compartilhei esses pensamentos com meu pai durante um dos nossos jantares habituais. Eu evitava falar sobre isso com meus amigos e com Britney, para não tornar a vida deles mais pesada. Mas meu pai era mais velho, mais sábio, trabalhava como psicólogo, e dificilmente os problemas de um garoto de 23 anos poderiam afetá-lo negativamente.

Ele me ouviu e fez boas perguntas. Senti que tinha sido compreendido, mas sua resposta me entristeceu. A criança dentro de mim esperava uma pílula mágica. E se eu tivesse deixado passar alguma coisa muito lógica e muito simples?

Infelizmente, não. Ele disse que aquela era uma crise de verdade e que havia passado por algo parecido quando era um pouco mais velho do que eu naquele momento. Disse que, quando eu tivesse filhos, eles ajudariam a preencher o vazio que eu começava a sentir.

Aquela resposta não me trouxe alegria. Vi a vida passar diante dos meus olhos: me distrair com metas e ambições, repetir isso até ter filhos, criá-los e, depois, morrer. Só isso.

Minha única e tênue esperança veio de uma observação do meu pai: uma das principais fontes renováveis de alegria na vida é ajudar os outros. Às vezes, eu fazia trabalho voluntário em uma casa de repouso, conversando com idosos que raramente recebiam visitas. Era minha maneira de retribuir à sociedade, já que ganhava a vida jogando. Depois de refletir sobre as palavras do meu pai, comecei a buscar um sentido adicional no trabalho beneficente. Aquilo não se tornou a pílula mágica, mas, nos anos seguintes, me ajudou mais do que qualquer outra coisa.

Que coincidência paradoxal! Comecei a mergulhar em questões existenciais porque havia conquistado tudo com que sonhara. Ao mesmo tempo, porém, minha identidade começou a desmoronar por duas frentes: meus ganhos diminuíam, mas eu perdia meu status de jogador de elite ainda mais depressa.

Eu dominava o lobby de um dos formatos mais difíceis do poker online moderno. Iftarii era um nome respeitado, temido, invejado. Quatro anos de sucesso ininterrupto. E, de repente, tudo começa a seguir na direção contrária!

Em 2010, duas pessoas, Skilled_Sox e Skaiwalkurrr, me transformaram em uma pinhata.