Assista ao vídeo original (em inglês)
Doug: Recentemente, conversei com mil jogadores para entender melhor a comunidade do poker. A principal conclusão foi que eles estão enganados sobre muitas coisas. Hoje vamos analisar dez das principais ilusões, e Mike Brady vai me acompanhar.
Mike: Estava ansioso por essa oportunidade. O décimo ponto me surpreendeu especialmente, mas não vamos dar spoiler.
Então, a primeira conclusão: 80% dos jogadores se consideram acima da média em nível de habilidade, mas apenas 54% disseram que são lucrativos. Erraram, mas onde?

Doug: As pessoas tendem a superestimar as próprias habilidades. É bom que parte dos entrevistados tenha tido coragem suficiente para admitir que joga no prejuízo. Jogam bem, mas perdem dinheiro?
Mike: São bons, só têm um azar absurdo.
Doug: Qual é, de fato, a porcentagem de jogadores lucrativos? Apenas alguns poucos por cento conseguem ganhar dinheiro de forma consistente no longo prazo. O número real é significativamente inferior a 54%.
Mike: Não é apenas uma questão de ego e autoconsciência. A pesquisa foi feita por meio das suas redes sociais e das newsletters da Upswing Poker e da Lucid Poker. Essas pessoas acompanham poker e estudam o jogo — provavelmente jogam melhor do que o cara do NL200 no cassino local —, mas mesmo entre esses jogadores duvido que 54% sejam vencedores.
Além disso, acontecimentos recentes influenciam a amostra: o jogador se lembra da última vitória e esquece todas as perdas que teve desde que começou no poker.
Doug: Depois de cravar um torneio grande, quem vai querer se lembrar de quantos buy-ins já queimou? É mais fácil acreditar que está no lucro. Mas a realidade pode ser completamente diferente.
Doug: Vamos em frente! O que mais irrita os jogadores são os próprios erros, apontados por 61% dos entrevistados. Também incomodam as derrotas para recreativos e os downswings longos. Já bad beats, coolers e blefes parecem não incomodar ninguém.

Mike: Faz sentido. As coisas que podemos controlar irritam mais do que acontecimentos aleatórios. Isso nos leva à próxima conclusão: jogadores perdedores se irritam mais com aquilo que não podem controlar.

Doug: Se um amigo manda mais uma bad beat para você, geralmente ele não é um top reg.
Mike: E normalmente a mão também foi jogada toda errada.
Doug: Isso não vale para você. Suas bad beats são realmente brutais.
Mike: Sou um dos raros profissionais que reclama de suckouts.
Doug: Os regulares se irritam com os próprios erros, faz sentido. O que me surpreende é os jogadores não terem destacado os downswings. Houve períodos em que fiquei perdendo por muito tempo. E, no fim desses períodos, comecei a questionar tudo: será que ainda consigo bater o limite? Será que vou conseguir encontrar novamente meu A-game?
Jogando heads-up, eu ganhava 10bb/100 em uma amostra grande e, mesmo assim, em determinado momento perdi 50 buy-ins seguidos. Comecei no 25/50, desci para 10/20, depois 5/10, 3/6...
No fim, me concentrei no NL200. Eu até podia abrir mesas mais caras, mas era insuportável continuar perdendo para todo mundo. Precisava ganhar de alguém antes de subir novamente.
Mike: Em uma situação parecida, lembro que tive vontade de largar tudo. Os resultados estavam me deixando maluco. Surge um círculo vicioso: jogo menos, ganho menos e perco as oportunidades de virar a situação.
Eu colocaria os downswings longos em primeiro lugar. Mas, em uma pesquisa, os jogadores acabam focando em erros específicos, porque são mais fáceis de lembrar.
Nem todo mundo joga volume suficiente para enfrentar um downswing realmente longo. A maioria joga apenas nos fins de semana. Provavelmente perde dinheiro, mas, com pausas tão grandes entre as sessões, não sente isso da mesma forma. Suspeito que essa seja a explicação.
Doug: Surpreende que os blefes estejam tão abaixo?
Mike: As pessoas não são totalmente honestas consigo mesmas. É como no basquete, quando alguém bloqueia seu arremesso. É um golpe grande demais no ego, então é mais fácil aceitar, seguir em frente e fingir que aquilo não incomoda. Mas, na verdade, incomoda muito.
Doug: Ninguém vai bloquear meus arremessos. Eu nem jogo basquete!
Doug: A quarta conclusão não é tão surpreendente. Jogadores que blefam com frequência ganham em 70% dos casos, enquanto jogadores que quase nunca blefam ganham em 30%. O que você acha, Mike?

Mike: É isso mesmo. O efeito inverso aparece no histograma: quanto mais você blefa, maior a frequência com que vence. Isso também funciona no YouTube: quando colocamos a palavra "blefe" no título, muito menos gente clica no vídeo.
Acho que recreativos não se sentem confortáveis com o conceito de blefar — afinal, você não tem nada! Não é agradável estar com lixo na mão e colocar fichas no meio da mesa.
Um jogador fraco e inexperiente tem menos chance de blefar em situações complicadas. Um assinante da Upswing disse algo muitos e muitos anos atrás de forma precisa e resumida: "Com uma mão forte, você sente que ela vale dinheiro".
Já quando você blefa, precisa pensar muito. Tenho os blockers corretos? A situação é adequada? Qual sizing usar? Como estão os ranges? Para os jogadores, tudo isso é mais difícil.
Doug: Uma vez eu estava conversando sobre poker com meu sogro.
— Você é um bom jogador — disse ele. — Então você só joga cartas boas?
A clássica lógica de um recreativo.
Quanto mais agressivo você joga, maior a chance de ser um bom jogador. Alguns, claro, blefam em toda oportunidade possível. Mas a maioria blefa menos do que deveria. Faz parte da natureza humana.
Mike: Espera aí, Doug. Quanto dá a soma dessas porcentagens?
Doug: 200.
Mike: Não quero cortar seu embalo, mas você está lendo o gráfico errado. Os histogramas mostram a porcentagem de vencedores, e temos uma amostra para cada resposta: 839 de 1.500 disseram que blefam com uma frequência "média", enquanto apenas 245, ou 17%, disseram que blefam em toda oportunidade.
Doug: Ok, mas eles continuam mentindo.
Mike: Se você abrir um solver, pode enlouquecer. A máquina adiciona blefes em linhas nas quais é difícil até imaginar que existam. Para compreender melhor as frequências, trabalhar com software é absolutamente necessário. Mas, no jogo real, executar esses blefes continua sendo muito mais difícil.
Provavelmente esses 17% superestimaram a própria frequência de blefes. Você disse que, em toda a sua carreira, só encontrou um jogador que realmente blefava muito?
Doug: Era meu amigo Dong Kim. Uma vez estávamos analisando o jogo dele em heads-up. E percebi algo muito estranho: a frequência de raise river dele era simplesmente gigantesca.
Dong dava raise toda vez que o adversário fazia alguma coisa estranha e explicava assim:
"Eles foldam com frequência demais nesses spots, então eu simplesmente enlouqueço."
Imagine que vocês deram check no turn, no river você aposta e o adversário dá raise. O range é estreito: dois pares, um set que chegou ou uma sequência. É por isso que as pessoas têm medo de blefar nessas situações — a menos que saibam que você sabe disso...
Não vamos entrar demais no leveling, mas, quando avalio o jogo de alguém, o leak mais comum é não blefar o suficiente.
Mike: Quinta conclusão: 71% dos regulares já foldaram reis no pré-flop, contra apenas 26% dos semiprofissionais. Quanto maior o nível de jogo, maior a chance de você ser capaz de fazer esse tipo de fold.

Fico pensando até que ponto isso corresponde à nossa amostra.
Doug (interrompendo): Não me importa o que você pensa, Mike. Qualquer um que folda reis no pré-flop não é profissional — a menos que seja eu.
Claro que, ocasionalmente, surgem situações adequadas, mas normalmente isso é um erro. Inclusive temos um vídeo no nosso canal analisando esses spots.
Se você joga poker há anos, provavelmente já enfrentou spots absurdos com stacks deep, 5-bets e 6-bets em potes multiway, nos quais ter reis deixa de ser tão divertido.
Mike: Em satélites, às vezes as fichas que você pode ganhar valem menos do que até mesmo uma pequena chance de perder todo o stack. Um profissional consegue encontrar o fold. Já um jogador comum, que abre mesas online uma vez por semana, nunca vai largar.

Doug: Se você joga por diversão, dá pena de foldar reis!
Sexto fato: 96% dos jogadores admitem que jogam mãos mesmo sabendo que não deveriam. Eu, particularmente, nunca fiz isso.

Mike: Concordo. Eu também jogo perfeitamente. Agora falando sério, não acredito nesses 3,6%. Parece margem de erro. Todo mundo joga mãos a mais de vez em quando. Como alguém consegue responder "nunca"?
Doug: Provavelmente alguns vovôs nits encontraram Wi-Fi e responderam à pesquisa (risos).
Talvez algumas pessoas tenham lembrado de situações em que percebem que o adversário está tiltado e querem entrar no pote com ele. Caso contrário, o dinheiro vai acabar indo para outra pessoa.
Mike: Isso é diferente. Você está procurando ou criando uma situação apropriada. Sempre precisa existir uma razão.
Por exemplo, você defende T7o contra UTG em um cash game caro, em uma mesa 9-max, porque já está cansado de foldar todas as mãos.
Ou entende que o solver dá fold, mas há um fish no blind — então pode ampliar o range e extrair o máximo de EV no pós-flop.
Doug (rindo): A realidade é a seguinte: mesmo defendendo T7o, ainda existe a chance de tomar uma pancada do Phil Hellmuth.
Nota do editor: Doug se refere a uma mão de cash game no High Stakes Poker, nos blinds 200/400/400. Hellmuth abriu QTo, Doug defendeu T7o no BB como terceiro jogador da mão e, no flop , deu check-raise e foldou para o shove de Hellmuth.
Doug: Para ser justo, já havia uma dinâmica entre nós. Se você joga com amigos, conhecidos ou em uma transmissão, de vez em quando vai precisar inventar alguma coisa assim.
Se você sempre jogar ABC, vai parecer um nit e não será convidado para jogos privados...
Existem inúmeros fatores pelos quais pode valer a pena colocar mãos -EV no seu range. Tudo depende da interpretação da pergunta.
Mike: A importância de manter seu lugar em um jogo privado é o aspecto mais interessante. Você não quer ficar conhecido como um chato, então precisa entrar com alguma mão ruim e esperar pelo convite para a próxima sessão.
Sétima conclusão: jogadores americanos são menos disciplinados do que todos os outros. Segundo a amostra, os jogadores dos Estados Unidos jogam mãos que não deveriam com uma frequência 20% maior.

A diferença entre a autoavaliação de "acima da média" e o fato de realmente ser lucrativo é nove pontos percentuais maior entre os americanos.
Nos Estados Unidos, joga-se muito mais poker ao vivo e muito menos online.
Doug: Depois da Black Friday, o poker nos Estados Unidos migrou para o live. Temos muitos lugares em que o rake é tão alto que o jogo praticamente não pode ser batido. E a falta de disciplina também não surpreende muito.
Mike: Nada de novo. É justamente por isso que jogadores como Gary Blackwood — coapresentador do podcast Level Up com Mike e um dos coaches mais conhecidos da Upswing Poker — gostam tanto de vir para cá. E não dá para culpá-lo.
Você se senta em uma mesa cheia de caras que só jogam live, abrem mãos que não deveriam e ainda admitem isso abertamente...
É um lugar agradável para jogar em todos os sentidos.
Doug: Dá até medo de imaginar quais seriam os números no Texas. A verdadeira conclusão aqui é: se você quer jogar apenas contra americanos, vá direto para Austin.
Vamos ao próximo ponto: um em cada cinco jogadores lucrativos perde dinheiro na maioria das sessões.

Mike: Suspeito que isso se refira principalmente aos jogadores de torneios. É perfeitamente possível ser lucrativo no longo prazo em MTTs e entrar no dinheiro em, no máximo, 15% dos torneios.
Doug: Ou então o jogador mistura modalidades: perde dinheiro em torneios em 80% das sessões e ganha no cash. É por isso que eu só jogo cash!
Mike: É sempre agradável ouvir um tricampeão de braceletes discursando sobre o quanto gosta de cash e não gosta de torneios.
A penúltima conclusão: o maior ganho é maior do que a maior perda. Isso é verdade para 57% dos jogadores.
O resultado é bastante influenciado pelos torneios, mas suspeito que algo parecido também aconteça com jogadores de cash.

Digamos que você jogue 2/5 algumas vezes por semana e apareça um jogo ótimo de 5/10. Com stacks deep, surge a oportunidade de ganhar muito mais do que normalmente poderia perder no seu limite habitual...
Doug: As pessoas normalmente estão com stacks grandes porque já estão ganhando bastante naquela sessão.
Portanto, existem apenas duas razões para alguém jogar um pote gigantesco: ou está muito no lucro, ou você é Nik Airball.
Finalmente, o último e melhor fato: um em cada oito jogadores perdedores ainda avalia a própria habilidade no poker com nota oito de dez ou superior.

Mike: Trinta e três pessoas!
Doug (desistindo): Meu Deus... Como alguém pode se considerar um jogador muito bom depois de passar a vida inteira perdendo dinheiro? Espero que seja apenas uma ilusão.
Mike (sem desistir): Vamos olhar por outro ângulo.
Digamos que você começou a jogar dez anos atrás e passou sete ou oito anos perdendo dinheiro. Mas tinha outra fonte de renda e podia ir ao cassino todos os fins de semana e sair distribuindo dinheiro por amor à arte.
Depois você decidiu levar o jogo mais a sério: instalou um solver, começou a estudar e se transformou em um regular forte.
Mas, por causa de todas as perdas dos primeiros anos, ainda está no prejuízo no acumulado.
Agora, quantas dessas pessoas realmente podem estar nessa situação entre os 33 votos?
Doug: Boa tentativa, mas os jogadores acreditam que são melhores do que realmente são.
É justamente isso que torna o poker tão lucrativo: as pessoas realmente não percebem qual é o próprio nível.
A sorte distorce a percepção muito rapidamente. Não é à toa que não existe high stakes no xadrez: contra Magnus Carlsen, você não tem nenhuma chance de pegar um upswing.
Já a variância no poker joga ainda mais combustível no fogo:
"Estou tendo muito azar. Se meus reis tivessem segurado, eu estaria no lucro."
Isso é realmente tão óbvio? Não necessariamente.
Mike: "Um jogador ruim precisa de apenas uma boa sessão para passar o resto da vida acreditando que está tendo azar."
É exatamente por isso que o poker é tão lucrativo para quem trabalha no próprio jogo.
Doug: Às vezes, basta um único torneio. Surge a ilusão de que você pode desafiar os melhores — e essa lição pode sair muito cara.
Não acredita? Pergunte a Jamie Gold.
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