Aos 42 anos, dono de três óticas e de um laboratório de lentes na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Filipe Bohmerwald Dutra de Morais tinha o que a maioria chamaria de vida resolvida. Foi exatamente por isso que decidiu bagunçá-la — de forma planejada. No meio deste ano, o empresário conhecido no circuito como Filipe BDM embarcou para Las Vegas com uma missão: passar três meses vivendo exclusivamente do poker.

"Sempre tive vontade de passar um tempo maior em Las Vegas para jogar de forma mais profissional, mas nunca houve essa possibilidade, principalmente pela necessidade da minha presença nas empresas e pelo fator financeiro", conta. O estalo veio de uma conta simples consigo mesmo: "Com 42 anos, sem filhos e com uma situação financeira mais estável, falei: ou faço essa loucura agora ou nunca mais."

A relação de Filipe com o poker vem de longe — e sempre foi lucrativa. Ele começou em 2008 como grinder de sit-and-gos de 45 a 180 jogadores em sites menores de poker online, como Everest e BestPoker, onde acumulou mais de 50 mil dólares em ganhos. Foi esse dinheiro que bancou a abertura de sua primeira ótica e, depois, do laboratório de produção de lentes.

Cadastre-se usando este link para ganhar os bônus do GipsyTeam:
  • Promoções exclusivas do GipsyTeam
  • Ajuda com depósitos e saques
  • Acesso a freerolls exclusivos
  • Suporte 24 horas por dia, 7 dias por semana
Cadastre-se usando este link para ganhar os bônus do GipsyTeam:
  • Уникальные акции от GipsyTeam
  • Помощь с депозитами и кешаутами
  • Доступ в закрытые фрироллы
  • Круглосуточная поддержка

No feltro ao vivo, o resultado mais marcante veio em junho de 2012, quando ele cravou o Main Event do BSOP Belo Horizonte e embolsou R$ 101.400. Desde então, o poker seguiu como um hobby rentável, encaixado nas brechas da rotina de empresário.

Filipe "BDM" Morais Vence o BSOP Belo Horizonte | PokerNews
Filipe foi Campeão Brasileiro de Poker em 2012

Uma mudança radical, mas planejada

Largar tudo por 90 dias, no entanto, não foi um impulso. Antes de embarcar, Filipe alinhou o funcionamento das empresas na sua ausência: a ótica do centro de BH ficou sob comando de um gerente de confiança, enquanto as duas unidades de Santa Luzia já eram tocadas no dia a dia pela sócia, que mora na cidade. Mesmo de Las Vegas, ele segue resolvendo pendências à distância.

A lista de providências foi longa: alugou o apartamento para um amigo — "para a casa não ficar vazia e ainda gerar renda" —, deixou o carro à venda na agência de outro, confiou os gatos à mãe, trancou academia e clube e migrou para matérias a distância na faculdade, abrindo mão do estágio presencial. Até o transporte público de Las Vegas entrou na pauta de estudos.

O orçamento também foi definido antes do embarque: US$ 2.500 por mês para o custo de vida e US$ 7.000 de bankroll para o jogo.

Na contramão da WSOP

Quem imagina o mineiro disputando os fields gigantes da World Series of Poker se surpreende. A escolha dele é o caminho oposto: torneios diários de cassino, com buy-ins baixos, estruturas turbo e mesas cheias de turistas e jogadores locais — principalmente no The Orleans e no Caesars.

"A WSOP reúne fields gigantes, com regulares, recreativos e premiações milionárias, mas com uma variância enorme. Escolho jogar torneios 'baratos', com fields pequenos, que não interessam aos profissionais", explica. "Sobram jogadores recreativos e variância baixa. As premiações não são tão altas, mas pagam um bom valor em dólar, sem incidência de imposto" [Nota do Editor: nos Estados Unidos, para brasileiros, prêmios com lucro acima de US$ 5 mil sofrem retenção de 30% na hora].

Filipe BDM em um dos torneios diários de Las Vegas

A filosofia, diz ele, vem dos tempos de grinder online: "Fields menores e baixa variância. É um valor que sempre carreguei como jogador. Até hoje acredito ser o melhor caminho para realmente ser lucrativo no poker."

Este é o quarto ano seguido que Filipe visita Las Vegas, então o nível dos adversários não trouxe surpresas. Ele acredita, inclusive, que existe ali um mercado que muitos brasileiros simplesmente ignoram. O ambiente desses torneios menores também é outro: "É mais leve, o clima é de entretenimento, ao contrário da WSOP, que é de alta competição."

Rotina de jogador — e a variância na conta

O dia a dia em Las Vegas, ele admite, ainda está desorganizado. Acorda por volta das 11h — "em BH não consigo acordar depois das 8h; aqui, se deixar, vou até meio-dia" —, almoça e sai para jogar, voltando perto da meia-noite. Na véspera, escolhe os torneios do dia seguinte; o cash game fica para a noite, "para poder sair a qualquer hora" quando bate o cansaço. Daqui para a frente, o plano é focar também no cash, que ele acredita render bem, e trocar o hotel por um condomínio, onde pretende estruturar treinos e alimentação mais saudável.

Viver exclusivamente do jogo, mesmo que por três meses, também cobra seu preço mental. "Não é fácil. Poker é um jogo muito de fase. Às vezes você volta para casa exausto depois de 10 horas de dedicação, e o resultado é perder centenas de dólares", ri. "Mas tenho lidado bem. Entendi que faz parte e está na conta da escolha."

Nas folgas, o programa favorito é simples: "Com certeza tomar uma na Fremont", brinca, citando a famosa rua do centro antigo da cidade.

O relógio do visto

O prazo de 90 dias não é só uma meta pessoal — é uma trava de segurança. Por estar no país com visto de turista, pesquisas e orientações profissionais sugeriram não ultrapassar três meses. "Alguns amigos brasileiros que ficaram seis meses aqui tiveram a renovação dos vistos negada recentemente", relata. Repetir o projeto todos os anos? "Acho complicado. Vamos ver como termina todo o processo." Morar definitivamente em Las Vegas um dia? A resposta vem em forma de pergunta: "Será?"

"Vale muito a pena"

Um mês depois do embarque, o balanço é positivo. "O principal é curtir e ter gratidão de poder viver isso agora. Venho aproveitando cada dia", afirma. A comparação com a vida em BH, aliás, pesa a favor do deserto de Nevada: "BH e o Brasil têm muitas coisas que me incomodam, do trânsito a valores, política, cultura e o sistema como um todo. Por enquanto está fácil, porque estou mais confortável aqui do que lá."

BDM, em dois momentos de lazer, em um show na famosa "Esfera"; e nas fontes do Bellagio

Para quem sonha em repetir a experiência, o recado depende do perfil. "Jogadores profissionais precisam de volume para seus resultados, e o live não permite isso. Para recreativos, se encaixa como uma experiência melhor", avalia. O conselho final resume a jornada: "Não tem muito segredo. Tendo um bom planejamento e entendendo que, mesmo sendo mais fácil, é difícil — vale muito a pena."

E o maior aprendizado até aqui vai além das mesas: "Às vezes precisamos fazer umas loucuras na vida. Estamos aqui de passagem, e muitas vezes dá medo de fazer algumas coisas. Mas, de forma responsável, vale muito a pena."