— Como começou seu amor pelo poker?

— Quando eu era criança, meu pai organizava home games com os amigos. Ele sempre foi um exemplo para mim, então acabei seguindo seus passos.

— Quantos anos você tinha?

— Uns nove anos. No meu primeiro torneio, fiquei em segundo lugar e ganhei cerca de $80. Fiquei nas nuvens. Depois comecei a vencer os amigos do meu pai com frequência e, algum tempo depois, as partidas simplesmente acabaram.

Um dia perguntei:

— Pai, faz tempo que vocês não jogam com seus amigos...

E ele respondeu:

— Eles já perceberam. Acham que a gente organiza o jogo só para você tirar o dinheiro deles.

Eu apenas dei risada. Eu jogava porque realmente amava o jogo. O dinheiro nunca foi o principal para mim. Essa forma de enxergar o poker continua a mesma até hoje.

— Você estudava poker quando estava começando?

— Assistia a muito conteúdo gratuito no YouTube, principalmente vídeos do Jonathan Little e do Alex Fitzgerald. Eu absorvia tudo como uma esponja e tentava aprender o máximo possível. Esses vídeos me fizeram perceber o quanto o poker é um jogo profundo e complexo. Até hoje aprendo algo novo todos os dias.

— Está se preparando de alguma forma para a mesa final?

— Sim, mas prefiro não entrar em detalhes sobre como faço isso nem sobre quem está me ajudando. Posso dizer que passo várias horas por dia me preparando. Quero estar pronto para qualquer situação que possa surgir na mesa final.

Tenho uma equipe de apoio excelente, então estou muito confiante na minha preparação.

— Em qual momento do Main Event você sentiu as emoções mais intensas?

— É difícil destacar apenas um. Todos os oito dias foram inesquecíveis. Talvez eu mencione os inúmeros potes pequenos que consegui vencer. As pessoas normalmente não dão muita importância a eles, mas todos foram fundamentais.

— Você acha que essa é uma oportunidade que aparece apenas uma vez na vida?

— Antes desta edição, eu nunca tinha passado do Dia 3. Na verdade, é difícil encontrar torneios que durem mais de cinco dias. Claro que gostaria de acreditar que posso repetir o caminho do Joe Cada. Hoje é justamente nele que penso.

Em 2009, Joe Cada venceu o Main Event. Em 2018, voltou à mesa final e terminou em quinto lugar.

Joe Cada

Uma coisa é chegar à mesa final do Main Event. Outra completamente diferente é vencer. Embora qualquer pessoa possa ganhar um torneio, a verdadeira demonstração de habilidade é repetir um feito desses. O fato de o Cada ter sido campeão e depois quinto colocado foi algo extraordinário. Talvez eu vença este torneio, mas voltar a uma mesa final do Main Event seria uma conquista ainda maior.

— E como você se prepara mentalmente?

— Faço caminhadas à noite e pratico visualização. Acredito muito em energia positiva.

Durante a preparação, minha equipe e eu analisamos todos os cenários possíveis, inclusive os piores. Mas também acredito que é importante enviar energia positiva para o universo. Prefiro focar em tudo de bom que já aconteceu e no que ainda pode acontecer.

Meu trabalho ainda não terminou. Ainda há muito a fazer.

— Dá a impressão de que você não encara essa campanha incrível no Main Event como algo garantido.

— É óbvio que chegar à mesa final do Main Event é o momento mais importante da vida de qualquer jogador. Mas eu jamais teria chegado até aqui se encarasse isso como algo natural.

Se você olhar meu Hendon Mob, vai ver que caí cerca de 15 vezes nas fases pré-finais de grandes torneios. Passei por muitas decepções na carreira. Várias vezes me perguntei: "Será que sou bom o suficiente?". Mas esses pensamentos acabaram me ajudando a evoluir.

NaNa maioria das vezes você cai depois de um cooler ou perde um coin flip. Isso é simplesmente variância. E no poker ao vivo é muito difícil acumular volume suficiente para compensar isso.

As pessoas pensam: "Ele só tem 22 anos, deu sorte e agora pode ganhar milhões". Mas jogo torneios desde os 18 anos. Tenho experiência no online, disputei séries no Texas e na Flórida. Passei por muitos spots difíceis.

Desde o começo do Main Event, entrei com um único objetivo: vencer. Nunca me importei em terminar em 18º ou 23º lugar.

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— Que conselho você daria aos jovens jogadores que pensam em desistir depois de mais uma eliminação dolorosa perto da mesa final?

— Para ser sincero, ninguém consegue se preparar para isso. Acho que é algo que vem com a experiência e com a maturidade.

Já chorei depois de ser eliminado no Dia 2 de alguns torneios. Durante muito tempo, cada eliminação era um golpe muito duro para mim. Mas, aos poucos, percebi que nem sempre posso controlar o resultado. A única coisa que posso fazer é criar as melhores condições possíveis para alcançar o sucesso.

Todo jogador passa por eliminações frustrantes. Acho até que sentir essas emoções faz parte do processo. Só não deixem que elas destruam vocês. Não deixem que acabem com o sonho de vocês.

— Você já pensou em abandonar o poker?

— Alguns meses atrás, durante uma série em Austin. A viagem começou muito mal e liguei para meu pai dizendo: "Não acho que vou conseguir continuar fazendo isso."

Mas depois você senta à mesa, percebe a vantagem que tem sobre os adversários e esses pensamentos desaparecem. Ainda não conquistei nada, nem no poker nem na vida. Tenho objetivos muito claros e gosto de acordar todos os dias sabendo que ainda tenho algo pelo qual lutar.

Poucas pessoas conseguem continuar se levantando depois de fracasso atrás de fracasso. Mas são justamente essas pessoas que acabam se tornando realmente perigosas.

Jumalon e Jeff Platt

— O Main Event ensinou alguma coisa para você?

— A característica especial desse torneio é que você pode jogar durante muito tempo com um stack curto sem precisar entrar em desespero. Em vários momentos fiquei com menos de dez blinds.

A receita para sobreviver é simples: não entregar fichas por tilt. A estrutura permite isso

Cada ficha é extremamente importante, e isso não é apenas uma frase de efeito. Não importa se você tem dois blinds ou cem. O importante é que você ainda está vivo no torneio.

— Você já assistiu aos episódios da cobertura da ESPN?

— Sou um fã apaixonado por poker e sempre acompanho o Main Event. Quem imaginaria que um dia eu mesmo apareceria na televisão nacional?

A equipe da ESPN chegou até a visitar minha casa para gravar uma reportagem. Tudo isso parece um sonho.

Tenho muita sorte de estar vivendo esse momento e sou profundamente grato por essa oportunidade. Vou fazer o possível para aproveitá-la ao máximo e espero permanecer no poker por muitos anos.

A mesa final do Main Event da WSOP 2026 terá transmissão ao vivo no Brasil pela ESPN3 e pelo Disney+. A disputa começa nesta segunda-feira (3), às 22h, e será realizada ao longo de três noites no Horseshoe Las Vegas.

A programação prevê a redução do field de nove para seis jogadores no Dia 1, a formação do 3-handed na terça-feira (4) e a definição do campeão na quarta-feira (5), embora os horários e o cronograma possam sofrer alterações de acordo com o andamento do torneio.

Apresentamos cada um dos nove finalistas do Main Event da WSOP 2026, com suas colocações em cada dia, histórico no poker e trajetória pessoal.

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