– Hoje temos um convidado que tentamos trazer há muito tempo e finalmente aceitou. Allen “Chainsaw” Kessler, bem-vindo! Conte um pouco sobre você.

– Nasci e cresci em Huntingdon Valley, uma pequena cidade da Pensilvânia. Desde criança adorava jogos. Eu e minha irmã passávamos dias inteiros jogando gamão, e graças a isso aprendi a jogar muito bem. No ensino médio e depois na faculdade conheci o poker. Na época jogávamos apenas variantes hi-lo de $1, e uma sessão boa podia render $100 ou até $200.

Depois abriu um clube de poker na Filadélfia chamado The Lodge, que tinha jogos apenas nos fins de semana. Eles ofereciam apenas duas modalidades: Limit Hold'em e Limit Omaha Hi. Em determinado momento houve um escândalo. Descobriram que alguns dealers favoreciam certos jogadores. Apenas um golpista foi pego em flagrante, mas eu parei de frequentar o lugar imediatamente. Felizmente, mais ou menos na mesma época, os cassinos de Atlantic City começaram a abrir.

– Você começou a jogar profissionalmente ainda na faculdade?

– Não, eu conciliava os estudos com um trabalho de telemarketing. Era um dos melhores funcionários e ganhava $4 por hora.

– Qual era o seu segredo?

– Nem sei. Simplesmente ligava para pessoas aleatórias e conversava de forma amigável. Hoje em dia ninguém mais atende telefone, mas naquela época era diferente. Aos 19 anos fui promovido a supervisor e passei a liderar pessoas com o dobro da minha idade.

– Você nunca terminou a faculdade?

– Abandonei. Recebi uma proposta de outro emprego que pagava quase o dobro. Trabalhei lá por 12 anos. Fazia basicamente a mesma coisa: de segunda a sexta ficava no escritório e, às 18h de sexta-feira, dirigia até Atlantic City, onde passava o fim de semana inteiro jogando poker, slots e videopoker. Vivi assim durante muitos anos.

– Nos cassinos você apenas gambleava ou acreditava ter vantagem?

– Naquela época havia muitas promoções excelentes. Por exemplo, existiam máquinas de videopoker com dois curingas. Hoje já não existem mais. O RTP (Retorno ao Jogador) era superior a 100%, embora eu nem sempre tivesse bons resultados. Não importa quanto a máquina devolva, você ainda precisa acertar os bônus. Alguns amigos meus literalmente imprimiam dinheiro nessas máquinas.

No poker, comecei jogando Omaha-8 $20/$40 e depois subi para $100/$200, onde enfrentava gente como Phil Ivey e John Hennigan. Eles logo migraram para $400/$800, mas eu continuei jogando meu limite durante anos. Os resultados eram excelentes. O cassino me deu uma caixa especial para guardar fichas pretas de $100 e, com o tempo, ela ficou completamente cheia.

– Você fazia questão de não trocar as fichas?

– Eu simplesmente não gastava dinheiro. Pegava apenas algumas fichas menores para despesas e deixava as grandes no cassino. Na sexta-feira voltava, pegava o valor necessário para jogar poker ou slots e seguia. Eu ganhava mais nos cassinos do que no trabalho, onde recebia cerca de $60.000 por ano.

Certa vez, o cassino Claridge fez uma promoção completamente absurda. Aliás, ele já fechou, talvez por minha causa. Entre meia-noite e duas da manhã os jackpots pagavam em dobro; entre duas e quatro, em triplo; e entre quatro e seis, em quádruplo. Havia uma máquina Triple Diamond em que qualquer prêmio acima de $400 era considerado jackpot. Durante a promoção joguei apenas nela e acertava dois ou três jackpots por hora. A promoção durou 11 dias. Tirei férias do trabalho, aumentei os valores apostados e ganhei algumas centenas de milhares de dólares.

– Depois disso você não pensou em largar o emprego?

– Voltei ao trabalho normalmente, mas pouco depois realmente pedi demissão. Saí em ótimos termos. Sempre me trataram muito bem e até encontrei alguém para ocupar meu lugar antes de sair.

Achei que nunca mais pisaria em um escritório, mas minha irmã me convenceu a participar de um novo projeto. Ela abriu uma empresa de telefonia e trabalhávamos comprando e revendendo números raros ou bonitos. Eu morava na casa dela e trabalhava à noite, pesquisando manualmente bancos de dados. Nos fins de semana continuava indo aos cassinos.

Com o tempo, todo o processo foi automatizado e meu cargo deixou de existir. Trabalhei lá cerca de cinco anos. Minha irmã é extremamente inteligente e ganhou muito dinheiro nesse negócio. Aliás, muita gente diz que eu jogo poker com o dinheiro dela, mas isso não tem absolutamente nada a ver com a realidade.

Trabalhei por cerca de 15 anos sem praticamente gastar nada. Investi tudo muito bem. Ganhava $60.000 por ano, depois mais, e os rendimentos fizeram esse dinheiro crescer bastante.

– Tudo isso aconteceu nos anos 90, quando ainda não existia internet. Como você descobria as promoções dos cassinos?

– Havia promoções por toda parte. No Sands, por exemplo, existia um sorteio de carros e eu ganhei. Jogando slots e outros jogos você recebia cupons. Alguns eram chamados Lucky Star e participavam dos sorteios. Descobri o sistema que determinava quais eram os bilhetes premiados. Meu primeiro carro foi um Chevrolet Citation.

Foi nos cassinos que conheci Steve Norden, que se tornou meu mentor. É a pessoa mais inteligente que conheço e devo praticamente tudo a ele. Foi quem me explicou que videopoker era um jogo perdedor, mas que ainda assim existia uma estratégia correta. Na época não havia software, mas ele calculou tudo manualmente: quais cartas trocar, quais manter etc. Jogando corretamente você não ganharia dinheiro, mas também não perderia muito. E ainda receberia hospedagem, refeições, freebets e outros benefícios dos cassinos.

Em Las Vegas as promoções eram ainda melhores. Em 1998 comecei a voar para lá todos os fins de semana em vez de dirigir até Atlantic City. Quase todos os grandes cassinos davam bilhetes para sorteios conforme você jogava. No geral, você tinha uma pequena perda no jogo, mas os bilhetes transformavam tudo em expectativa positiva. Uma vez ganhei $10.000 em uma loteria e, em outra, um Jaguar.

Minha carreira em torneios começou em Las Vegas. Certa vez fui até lá para jogar um torneio de Omaha-8 de $5.000 totalmente por minha conta. Era meu melhor jogo, mas eu nunca havia disputado torneios antes. Fui bem e terminei em oitavo ou nono lugar. Dos participantes eu conhecia apenas Phil Ivey. Para mim, Phil Hellmuth, Scotty Nguyen e as outras estrelas eram completos desconhecidos.

Gostei da experiência e passei a jogar torneios de mixed games, obtendo bons resultados. Depois experimentei torneios de NLHE, modalidade da qual eu não entendia absolutamente nada. Jogava extremamente tight e, naquela época, isso era lucrativo. Em termos de Texas Hold'em, pouca coisa mudou no meu jogo até hoje.

Meu primeiro Main Event da WSOP foi em 2004. Ganhei a vaga por um satélite. Já classificado, fui all-in com 88 contra AK e venci. Depois me disseram que aquilo tinha sido uma enorme besteira, mas eu simplesmente não sabia como jogar satélites. Na primeira mesa do Main Event sentei ao lado de Doyle Brunson.

Depois vieram os torneios do WPT. Eles realizavam cerca de 20 eventos de $10.000 por ano e todos eram transmitidos pelo Travel Channel. Foi o auge absoluto da popularidade do poker. Hoje não existe nada parecido. Eu também jogava bastante esses torneios e com resultados razoáveis.

Em 2005 me mudei para Las Vegas, onde moro até hoje. Quase não jogo torneios de Hold'em. Meu foco são os mixed games. Não preciso de dinheiro; jogo por diversão. Muita gente acha estranho eu atravessar o país inteiro para jogar um torneio de Stud de $500 no Borgata. A explicação é simples: adoro torneios de jogos limit e, de quebra, posso jogar slots.

Os torneios de mixed games têm muitos problemas. Já são poucos, e as estruturas frequentemente são terríveis. Por exemplo, no Commerce há um torneio de 2-7 Triple Draw com stack inicial de 25.000 fichas. Qual vocês acham que é o primeiro nível?

– Espero que seja 100/100.

– 400/800!

– Isso é absurdo.

– Exatamente. Por princípio, eu não jogo torneios assim.

– Os organizadores costumam ouvir suas opiniões sobre estruturas?

– Sim. Tenho ótima relação com Ryan, do Wynn, e com muitos outros diretores de torneio. Alguns anos atrás, até Jack Effel alterou estruturas durante a própria série depois que apontei problemas. Existe uma matéria sobre isso no PokerNews. Tenho certa influência nas estruturas da WSOP.

– Recentemente você até ganhou uma série com seu nome, certo?

– Sim. Organizamos torneios baratos de mixed games no Orleans, Caesars e outros cassinos. Phil Hellmuth já jogou algumas vezes, Jeff Madsen também apareceu. Muitos regulares dos jogos caros participam simplesmente porque gostam de jogos limit.

Logo após a série do Caesars Palace começa a série do Wynn, então antes da WSOP é possível jogar torneios baratos de mixed games todos os dias. Planejei tudo justamente para que as pessoas possam praticar bastante.

– Você já tem mais de 100 premiações na WSOP.

– Sim, acho que estou entre os 20 melhores nesse quesito. Mas só comecei a jogar regularmente em 2010. Antes disso disputava apenas alguns torneios por ano. Em 2009 não consegui entrar ITM nenhuma vez; em 2010 fui premiado dez vezes. Hoje isso não impressionaria ninguém, mas na época foi um recorde, porque havia muito menos torneios.

– Qual é o seu jogo favorito?

– Antigamente era Stud-8, mas ultimamente prefiro 2-7 Triple Draw. Tenho resultados excelentes nessa modalidade.

– E o bracelete ainda não veio?

– Ainda não, mas tenho certeza de que vou ganhar um em breve em algum mixed game de buy-in baixo. Já perdi quatro heads-ups na WSOP. Três deles para jogadores muito famosos.

Em 2005, Todd Brunson me venceu em um torneio de Omaha-8 de $2.500. Tenho certeza de que, sem aquele bracelete, ele não teria entrado para o Hall da Fama.

Em 2010, Frank Kassela já estava indo embora do cassino quando sugeri que ele jogasse o Stud-8 de $10.000. Acabamos chegando ao heads-up, ele venceu e depois ainda se tornou Jogador do Ano.

Em 2011, eu praticamente lancei a carreira de Brian Rast. Na época ele era conhecido apenas como amigo de Antonio Esfandiari. Ele me derrotou no heads-up de um torneio de Pot-Limit Hold'em de $1.500 e, empolgado com o resultado, se inscreveu no Players Championship de $50.000, que também venceu.

A quarta derrota foi na WSOP Europe, mas eu nem considero aquilo um bracelete de verdade.

– Você jogou a WSOP Europe em Praga este ano?

– Não. Boicotei porque havia apenas um mixed game: PLO/PLO-8/Big O.

– Falando em boicotes, no ano passado ninguém te escolheu no Fantasy de $25.000.

– Sim, foi muito estranho. Costumavam me selecionar por $5 ou $10, e uma vez até por $40. Todo mundo sabe que eu jogo todos os dias.

Depois do draft escolhi dez jogadores pelos quais haviam pago apenas $1 e propus uma aposta: eu faria mais pontos do que eles. Uma pessoa aceitou e eu terminei à frente de oito dos dez.

Neste ano Shaun Deeb me propôs algo parecido, mas queria escolher os jogadores ele mesmo. Recusei, porque a ideia é justamente eu escolher jogadores que os participantes do draft consideram melhores do que eu.

Já defini todo o meu calendário. Vou gastar menos de $150.000 durante a série e já vendi parte das minhas ações. Não existe a menor chance de eu ficar sem dinheiro ou perder a motivação. Vou jogar a série inteira do primeiro ao último dia. Outros jogadores podem se cansar e simplesmente voltar para casa antes do fim.

– Recentemente você ganhou um jackpot de $1,2 milhão nos slots. Depois disso gravou uma entrevista engraçada.

– O que você vai fazer com tanto dinheiro? – perguntou um entrevistador invisível.

– Nem sei. Eu não gasto dinheiro.

– Se tivesse que escolher apenas uma coisa para jogar pelo resto da vida, poker ou slots?

– Slots, sem dúvida. Eu adoro slots e jogo cerca de 350 dias por ano. Só paro durante a WSOP.

– Qual é o segredo da estratégia vencedora?

– Eu apenas caminho entre as máquinas e elas mesmas me dizem onde devo sentar.

– Depois daquela vitória, levei quatro horas para resolver toda a burocracia. Joguei por cerca de 14 horas e saí do cassino às 7 da manhã. Recebi um cheque de $60.000 e, quanto ao restante do prêmio, me deram duas opções: receber mais 19 cheques iguais, um por ano, ou pegar uma porcentagem do valor total imediatamente. Escolhi a segunda alternativa.

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