Yuri Dzivielevski, embaixador da CoinPoker, recorreu à matemática para explicar por que deixou de incluir regularmente as etapas da Triton Poker em seu calendário. Em um vídeo publicado nas redes sociais, o profissional brasileiro analisou bankroll, ROI, variância, despesas de viagem e custo de oportunidade para mostrar por que, em sua visão, disputar os torneios mais caros da série não é uma decisão financeiramente justificável para a maioria dos jogadores — nem mesmo para muitos nomes consagrados do circuito.

A resposta mais direta de Yuri chama atenção: "não tenho dinheiro". A frase, porém, não significa que ele não possa pagar uma inscrição isolada. O ponto é outro: para comprar uma parcela relevante da própria ação, enfrentar uma sequência de super high rollers sem comprometer o bankroll e ainda compensar os custos envolvidos, seria necessário reservar milhões de dólares exclusivamente para o poker.

Como referência, o brasileiro utilizou um levantamento publicado pela SoMuchPoker, elaborado a partir da base pública do MTTDB. Esses números não representam necessariamente o ganho ou a perda pessoal de cada jogador, já que acordos de staking, venda de ação e swaps não aparecem nos resultados oficiais.

Uma vitória online antes de entrar no assunto

Eu cheguei para falar sobre esse tema depois de uma noite longa. Fui dormir às duas da manhã porque me dei bem no domingo, o que normalmente é um bom sinal para quem joga torneios. Ganhei um evento de $1.000 no ClubWPT Gold, site disponível apenas nos Estados Unidos e que não tem os resultados rastreados pelo SharkScope.

Era o último torneio da minha sessão. Eu já havia caído na primeira entrada e fiquei em dúvida se deveria reentrar, porque quase todas as outras mesas já tinham acabado e eu sabia que ainda teria algumas horas de jogo pela frente. No fim, pensei que domingo é dia de trabalhar e que eu não deveria desistir tão cedo. Fiz a reentrada e acabei campeão, sem deal.

Isso me lembrou de algo que repito há muito tempo: basta um torneio para transformar uma sessão inteira. Por isso, preciso fazer o possível para manter o foco do início ao fim. A última competição em que me registro pode ser justamente a que fará a diferença.

Também tenho me sentido mais focado graças ao swap que fizemos na RegLife. Estou jogando torneios em conjunto com a turma dos limites mais altos e compartilhando muitas informações. Isso me empolga e me lembra o começo da 9Tales, agora com mais experiência e os pés no chão. Sinto que continuo evoluindo.

"Eu não tenho dinheiro para jogar a Triton"

Por que eu não jogo mais os torneios da Triton? A resposta mais direta é: porque eu não tenho dinheiro. Essa é a verdade. Não tenho dinheiro suficiente para disputar aqueles eventos dentro da administração de bankroll que considero correta. E, se eu jogar apenas a fração que posso comprar, a viagem deixa de valer a pena para mim.

Além das inscrições, existem os custos de passagem, alimentação e toda a logística. Também preciso considerar o custo de oportunidade. Se eu ficar em casa, com mais conforto, consigo produzir um retorno maior nos jogos que disputo atualmente.

Quero deixar claro que estou falando de bankroll, não de patrimônio. O dinheiro separado para o poker não pode se misturar com o dinheiro da vida. Uma pessoa pode ter imóveis, investimentos ou outros ativos e, ainda assim, não possuir o bankroll necessário para assumir de maneira responsável a variância desses torneios.

"Para mim, poker é alocação de capital sob incerteza"

Eu vejo o poker como uma competição, mas, acima de tudo, como alocação de capital sob incerteza. Quando o assunto é alocar capital, preciso recorrer à matemática. Não se trata simplesmente de concordar ou discordar de uma opinião: o resultado depende das premissas usadas, como tamanho do field, ROI esperado, valor das entradas e nível de risco aceito.

Para construir meus exemplos, considerei três perfis: um jogador com bankroll de $1 milhão, outro com $2 milhões e um terceiro com $500.000. Este último seria o jogador que acabou de conseguir um grande resultado, está empolgado e já quer disputar a Triton.

A primeira pergunta é quanto cada um pode investir em um único torneio. Na gestão de bankroll, eu não devo olhar apenas para o ABI, a média dos buy-ins, mas para a maior aposta individual que farei. Se eu jogar 100 torneios de $100 e colocar um evento de $5.000 no meio da grade, minha média continuará parecendo baixa. Isso não muda o fato de que assumi um risco enorme naquele torneio de $5.000.

Uma das referências usadas nesse tipo de cálculo é o critério de Kelly, originalmente criado para dimensionar apostas e posteriormente adaptado ao poker. Como o Kelly integral tende a ser agressivo, prefiro trabalhar com uma margem mais conservadora.

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O que um bankroll de $1 milhão permitiria

Vamos supor que eu tenha $1 milhão reservado exclusivamente para o poker, espere um ROI de 10% na Triton e enfrente fields entre 128 e 256 entradas. Em uma abordagem mais conservadora, meus cálculos apontam um buy-in máximo aproximado de $2.500 no field menor e de $1.800 no field maior. Quanto mais jogadores houver, maior será a variância e menor deverá ser a fração investida em cada torneio.

Se eu decidir ser muito agressivo, poderia dobrar esses valores: cerca de $5.000 para um field de 128 entradas ou $3.600 para um de 256. Mesmo essa gestão, equivalente a aproximadamente 200 buy-ins, é mais arriscada do que eu recomendaria.

Existe ainda uma premissa extremamente otimista: ter 10% de ROI em torneios com alguns dos melhores jogadores do mundo, rake que estimei em torno de 6% e estruturas que muitas vezes são mais rápidas. Para alcançar esse retorno, eu precisaria estar no topo do topo da cadeia alimentar. Estou falando de competir em um ambiente com jogadores do nível de Stephen Chidwick. Portanto, a conta já parte do cenário de que sou um dos melhores do field.

Quanto eu esperaria ganhar em uma viagem

Em uma etapa da Triton, considerei uma grade com aproximadamente 15 entradas. Se meu buy-in médio fosse de $3.000, eu investiria $45.000. Com ROI de 10%, meu lucro esperado seria de apenas $4.500 antes de qualquer despesa.

Para tornar a comparação mais simples, também projetei o cenário agressivo em que cada perfil joga no limite máximo de 200 buy-ins:

BankrollBuy-in usado no exemploInvestimento em 15 entradasEV com ROI de 10%
$1 milhão$5.000$75.000$7.500
$2 milhões$10.000$150.000$15.000
$500.000$2.500$37.500$3.750

Esses valores ainda não descontam passagem, alimentação e outras despesas. Uma passagem internacional em classe econômica pode custar cerca de $2.000. Em determinadas condições, o hotel pode ser oferecido pela organização a quem alcança certo volume de buy-ins, mas isso não elimina os demais gastos.

Então eu me pergunto: vale a pena viajar para produzir um EV de $7.500, antes dos custos, mesmo tendo um bankroll de $1 milhão? Para mim, a resposta é não.

Enquanto isso, esse mesmo jogador poderia permanecer em casa e disputar torneios online com ABI de $300 ou $400. Se investisse $40.000 por semana e mantivesse os mesmos 10% de ROI, teria $4.000 de lucro esperado em uma semana e $8.000 em duas. O resultado esperado seria maior do que o da viagem, sem passagem, desgaste ou mudança de rotina.

O problema aumenta quando alguém viaja, frequenta apenas restaurantes caros, compra roupas de luxo e transforma a etapa em uma vitrine. Tenho a impressão de que muitos participantes, especialmente entre os mais jovens, nem sequer acumularam $2 milhões de lucro no poker. Vejo jogadores que são muito bons e estudam bastante, mas que talvez não tenham dedicado dez minutos a uma conta como essa. É fácil entrar em um mundo de fantasia e confundir aparência de sucesso com uma decisão financeiramente racional.

Quanto eu precisaria para jogar os eventos de $25.000 e $50.000

Isso significa que nunca vale a pena jogar a Triton? Não. Pode valer quando eu tenho capital suficiente para comprar toda a minha ação, inclusive nos torneios mais caros.

Para jogar um evento de $25.000 com uma gestão de 200 buy-ins, eu precisaria de um bankroll de $5 milhões. Repito: considero essa estratégia extremamente agressiva e não a recomendaria para torneios tão difíceis.

Para chegar aos eventos de $50.000 sob o mesmo critério, seriam necessários $10 milhões reservados apenas para o poker. Se eu adotasse a gestão de 400 buy-ins, que considero mais inteligente, o bankroll subiria para $20 milhões.

Os jogadores que usei como referência — nomes como Stephen Chidwick, Jason Koon e Daniel Dvoress — apresentam buy-ins médios próximos de $70.000 na base que consultei. Isso mostra a dimensão real do investimento feito por quem participa regularmente desse circuito.

Em uma conta hipotética com 15 entradas de $50.000 e ROI de 10%, meu lucro esperado seria de $75.000 por viagem. Se eu gastasse $10.000 com passagem em classe executiva, alimentação e outras despesas, ainda restariam $65.000 de EV por cerca de duas semanas de trabalho. Nesse patamar, a viagem começaria a fazer sentido financeiro. O problema é que, para chegar lá, eu precisaria ter pelo menos $10 milhões de bankroll usando uma estratégia que já considero agressiva — ou $20 milhões com a margem que prefiro.

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Patrimônimo x Bankroll

Se eu tenho $20 milhões reservados para o poker, qual é o tamanho do meu patrimônio total? Provavelmente muito maior. E, mesmo com todo esse dinheiro, ainda preciso ser um jogador excepcional para ter vantagem contra o field da Triton.

Nesse ponto, surge outra pergunta: será que jogar poker é a melhor utilização para esse capital? Eu poderia separar $5 milhões para continuar jogando e investir os outros $15 milhões no mercado financeiro ou em diferentes negócios. Poderia até manter apenas $1 milhão como bankroll e fazer o restante do patrimônio trabalhar em outras frentes.

São poucas etapas da Triton por ano. Manter $20 milhões destinados ao poker para disputar três ou quatro viagens significa deixar uma quantia enorme comprometida com uma atividade de alta variância e baixo volume. O custo de oportunidade passa a ser difícil de ignorar.

Também existe um custo pessoal. As viagens são desgastantes, bagunçam o fuso horário e a rotina e me afastam da família. Se eu fosse solteiro, adorasse viajar e não me importasse com isso, poderia atribuir outro valor à experiência. A vida não é feita apenas de dinheiro, e o desafio de enfrentar os melhores também tem valor. Ainda assim, preciso separar paixão de decisão financeira.

Eu, sinceramente, não conheço nenhum jogador que tenha acumulado $20 milhões de lucro no poker ao longo da vida. Conheço poucos que chegaram a $10 milhões. E quem ganhou $10 milhões não necessariamente possui $10 milhões de bankroll, porque usou parte do dinheiro para comprar uma casa, investir ou pagar o custo de vida. Premiação, lucro, patrimônio e bankroll são coisas diferentes.

Nem os melhores escapam da variância

Mesmo que eu tivesse os $20 milhões de bankroll, jogaria a Triton apenas eventualmente. Gosto do desafio e acho essas viagens muito interessantes, mas não colocaria todas as etapas como compromisso fixo no calendário.

Os dados de alguns dos melhores jogadores do mundo ajudam a explicar por quê. Isaac Haxton, que considero um dos maiores nomes do field, registrou 434 entradas na série desde 2017 e aparecia com resultado negativo de aproximadamente $7,7 milhões na base que consultei. Parece uma amostra grande, mas, para torneios, pouco mais de 400 entradas em quase uma década ainda é um volume muito pequeno.

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Com buy-in médio perto de $70.000, uma perda de $7 milhões representa cerca de 100 buy-ins. Muitos profissionais já enfrentaram downswings de 100 buy-ins em torneios bem mais fáceis. Portanto, esse número não significa que Haxton seja um jogador perdedor ou que não tenha nível para competir. Mostra apenas como a variância pode ser brutal.

Também não significa que ele tenha perdido exatamente esse valor do próprio bolso. Haxton investe em outros jogadores, compra ação e pode ter swaps com participantes do circuito. Os dados públicos mostram entradas e premiações, não toda a estrutura financeira existente por trás de cada registro.

Artur Martirosian, mesmo depois de conquistar o prêmio de Jogador do Ano da Triton, aparecia com cerca de 325 entradas e resultado negativo próximo de $6,1 milhões. Chris Brewer, outro jogador de elite, tinha 223 entradas e aproximadamente $5,4 milhões negativos. Juan Pardo, o "Malaka$tyle", também um dos melhores do field na minha avaliação, aparecia com 111 entradas e perda estimada em $4,5 milhões.

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Tudo isso é completamente normal dentro de uma amostra tão pequena e de torneios tão caros. Esses números não tornam nenhum deles um jogador ruim. Minha reflexão é outra: mesmo sendo excelente, será que a participação frequente compensa financeiramente? Se houver outros objetivos, como buscar o desafio, competir contra os melhores ou viver a experiência, a resposta pode mudar. Em termos estritamente financeiros, tenho muita dificuldade para justificar.

A mesma ilusão aparece nos limites mais baixos

Não estou falando apenas para quem sonha em jogar super high rollers. Quero chamar a atenção de quem disputa micro e low stakes, joga para um time e passa o ano tentando construir uma carreira sólida.

Imagine que eu jogue ABI $30 online, enfrente swings grandes e consiga manter ROI entre 10% e 15%. Então chega um BSOP Millions e eu quero, de qualquer maneira, jogar um Main Event de aproximadamente $500 — algo perto de 15 vezes o meu ABI — além de enfrentar rake e variância maiores. Sei que alguns fields ao vivo, inclusive no BSOP, podem ser excelentes; ainda assim, essa decisão pode atrasar todo o trabalho que fiz para construir meu bankroll.

Tudo tem seu tempo. Se eu viajar para rever amigos, me divertir ou fazer networking, tudo bem. Nesse caso, estou atribuindo à viagem um valor que não é apenas financeiro. O que eu não posso fazer é me iludir e afirmar que essa experiência será necessariamente a responsável por me dar dinheiro ou consolidar minha carreira.

Também não acho mais convincente justificar qualquer torneio caro apenas pela exposição. Quem se lembra do campeão do último evento de $1.500 da WSOP? Eu mesmo muitas vezes não lembro. O mercado de patrocínios no poker é pequeno, e, para ganhar dinheiro com imagem, eu precisaria trabalhar profissionalmente com a minha imagem, não apenas aparecer em um torneio.

Por isso, prefiro tratar o poker como ele deve ser tratado: alocação de capital sob incerteza. Se eu decidir jogar por ego, paixão, amizade, férias, networking ou vontade de me testar, preciso reconhecer o verdadeiro motivo. Não há problema em escolher uma experiência, desde que eu não a apresente para mim mesmo como uma decisão matemática quando ela não é.

Esse é o motivo pelo qual eu parei de ir às etapas da Triton: não tenho dinheiro suficiente para comprar minha ação nos torneios de $50.000 dentro da gestão de bankroll em que acredito. Se um dia eu tiver $20 milhões reservados exclusivamente para o poker, talvez volte de forma pontual, porque gosto do desafio. Ainda assim, não faria de todas as etapas uma obrigação. Para mim, os números simplesmente não justificam isso.