Continuação. Episódios anteriores publicados na GipsyTeam Brasil:
- Jonathan Jaffe: do boom do poker à carreira profissional – Parte 1
- Jonathan Jaffe: da estreia na WSOP à final do WPT – Parte 2
- Jonathan Jaffe: o slowroll que provocou ameaças de morte – Parte 3
Para entender minha queda em 2010, é preciso saber como funcionava o ecossistema dos HU SNG. Em cada faixa de buy-in — $100, $200, $500, $1.000, $2.000 e $5.000 — havia uma vaga disponível. Assim que dois jogadores se sentavam para disputar uma partida, uma nova vaga aparecia automaticamente. Se você quisesse jogar e já houvesse alguém esperando um adversário no lobby, teria de enfrentá-lo. Se o lobby estivesse vazio, poderia se sentar primeiro, mas precisaria jogar contra quem aceitasse a vaga em seguida.
Quem “segurava o lobby” conquistava o respeito dos outros jogadores de elite. Caso contrário, eles teriam prazer em se sentar contra ele. Cada um tinha sua abordagem, sua política diplomática, sua ideia de etiqueta e sua disposição para lutar por território. Todos os dias acontecia algum drama em torno dos lobbies. Às vezes, as discussões chegavam aos chats públicos da sala; outras vezes, ficavam restritas às conversas privadas no AIM e no MSN, programas populares naquela época. Alguém com boa memória provavelmente conseguiria escrever um ótimo texto sobre tudo isso.
Em 2007, experimentei pela primeira vez as disputas pelos lobbies dos high stakes. Apesar dos bons resultados, uma downswing no fim daquele ano me obrigou a ser mais cauteloso. Eu já não queria ser o primeiro a me sentar no lobby de $5.000. Uma boa premiação em Foxwoods, em novembro de 2008, mudou isso: passei a ter munição para enfrentar com tranquilidade qualquer reg disposto a jogar naquele limite. Logo descobri que não havia tantos candidatos assim. Conquistei o direito de me sentar primeiro. Os outros profissionais de ponta praticamente pararam de me desafiar, embora continuassem jogando entre si.

Em 2010, porém, a situação mudou. Um dos novos regs de elite, Skilled_Sox, não demonstrou grande respeito por mim. E estava certo: ele me deu uma bela surra, que não podia ser atribuída apenas à variância. Eu não entendia o que estava acontecendo. Seu jogo era um enigma para mim. Antes de Skilled_Sox, eu havia enfrentado muitos adversários talentosos e sempre conseguia perceber como eles se ajustavam ao meu jogo. Então fazia meus próprios contra-ajustes, e a disputa seguia com mudanças constantes de estilo dos dois lados.
Acredito que, naqueles anos, minhas maiores qualidades eram a estabilidade emocional — eu praticamente não tiltava — e a capacidade de prever como os acontecimentos recentes de uma partida afetariam meu adversário. Sei que parece estranho, já que no online não vemos nem ouvimos quem está do outro lado. Mesmo assim, muitas vezes eu conseguia captar seu estado emocional. Até pela internet há sinais que podem ser percebidos. Um dos mais importantes é a velocidade das decisões. Alguns jogadores costumavam digitar seus sizings, mas, quando entravam em tilt, passavam a usar os valores predefinidos pela sala para acelerar o jogo. Às vezes, nem era preciso observar detalhes tão sutis: os caras desabafavam diretamente no chat.
O heads-up é uma modalidade sujeita a muita variância. Qualquer jogador, por melhor que seja, enfrentará uma sequência de blefes malsucedidos, calls errados, coin flips perdidos, coolers e outras formas de azar. Cada pessoa reage de um jeito a esses episódios. Com o tempo, reuni uma boa coleção de reads sobre meus adversários regulares e sobre como seu jogo mudava de acordo com as mãos mais recentes.
Com Skilled_Sox, porém, eu não conseguia sentir essas reações. Quando pensava que ele provavelmente pararia de me pagar tão light depois de uma sequência de calls ruins, ele logo mostrava que eu estava errado. Então chegava à conclusão oposta — e errava de novo. Aos poucos, passei a acreditar que os acontecimentos recentes simplesmente não influenciavam suas decisões. Os truques que eu usava para conduzir os adversários ao terreno que me favorecia não funcionavam contra ele. Sox confiava em sua estratégia básica e não a alterava, por mais que eu tentasse. Parecia que eu estava enfrentando um robô, e aquilo me deixava completamente perdido.
Minha confiança foi desaparecendo, até que quase parei de blefar. Ao abandonar os blefes, assinei minha sentença. Lembro-me da sensação sombria de inevitabilidade que me acompanhava nas últimas partidas contra Sox. Eu apenas tentava acertar boas mãos. Já não tinha nenhuma outra arma. Minha única esperança de vitória era encontrar um cooler a meu favor. Era o sinal mais claro possível de que, por mais doloroso que fosse admitir, aquele adversário estava acima do meu nível.
Skilled_Sox não foi o único a encontrar uma maneira de me vencer. Skaiwalkurrr, o Rachid Ben-Cherif, que se tornaria um dos regs mais ativos e lucrativos da história dos HU SNG, começou a disputar os lobbies em 2010. Ele terminou o ano no prejuízo, mas me atropelou. Quando nos encontramos na segunda rodada do campeonato de heads-up do WCOOP, não me deu a menor chance. Sim, foi apenas uma partida, em um formato bastante diferente dos HU SNG que jogávamos normalmente. Ainda assim, ela me impressionou profundamente. Aquele cara era muito mais forte do que eu, e eu não fazia ideia do que poderia fazer a respeito.
Sox e Skai me superavam, principalmente, por seguirem estratégias melhores, fundamentadas na matemática. Oscilações de curto prazo não os faziam abandonar seus planos.
Na mesma época, Ben Tollerene também adotou uma abordagem baseada na teoria dos jogos. Segundo ele, as partidas contra mim ajudaram a confirmar que estava no caminho certo:
Quando jogávamos, você escolhia alguma linha que provocava uma reação emocional muito forte em mim. Eu pensava: ‘Tenho que foldar. Com certeza tenho que foldar. Você não pode estar blefando aqui’. Mas então me acalmava e dizia a mim mesmo: ‘Ele está apostando 60% do pote; preciso defender determinada parte do meu range’. Eu queria muito foldar, mas minha mão era forte o bastante para pagar. Dava o call e encontrava seu blefe. Isso! Você estava tentando me enganar, mas eu não ia mais jogar conforme as suas regras

Assim como eu, Adonis confiava no instinto e na leitura dos adversários. Também jogava sem HUD. Para ele, 2010 foi o pior ano da carreira até então. A diferença é que Busquet tirou a conclusão certa daquele período e passou a usar a ferramenta. Dali em diante, começou a levar a melhor sobre mim: 147 a 120. Sua carreira voltou a crescer, e ele se consolidou como um dos jogadores mais lucrativos dos HU SNG.
Terminei 2010 praticamente no zero a zero, com $2.000 de lucro nas mesas. Financeiramente, porém, não foi um desastre tão grande quanto esse número sugere. Joguei um volume excepcionalmente alto e com buy-ins tão caros que alcancei o status Supernova Elite no PokerStars, o que me rendeu outros $110.000.
Era uma quantia de seis dígitos, mas ainda assim representava um grande passo para trás em uma carreira que, até aquele momento, só havia avançado. Mais importante: eu estava perdendo a reputação de Iftarii, o terror do lobby de $5.000. Já não conseguia manter meu lugar nos high stakes, pois jogadores mais fortes me destruíam. Eu havia deixado de ser o predador para me tornar a presa.
Eu tinha algumas opções:
- Continuar lutando, , colocar meu bankroll em risco e torcer para que os resultados de 2010 fossem apenas variância, enquanto tentava decifrar os adversários mais difíceis e recuperar minha vantagem.
- Grindar limites mais baixos, ocupar os lobbies de $1.000 e $500, aceitar a perda de status e me juntar aos regs que também ganhavam muito bem nesses jogos.
- Aprender a usar HUDs, estudar a matemática do poker e buscar conhecimento com meus concorrentes.
Felizmente, tive prudência suficiente para não escolher a primeira opção. Infelizmente, era orgulhoso e teimoso demais para escolher a segunda ou a terceira.
Então fiz o que ricos entediados fazem há séculos: comecei a jogar golfe.

Eu não era humilde. Não estava disposto a aceitar a queda de status e descer para os limites médios.
Também não era curioso. Minha obsessão pela liberdade me fazia rejeitar qualquer tipo de autoridade. Eu evitava tudo que lembrasse minimamente a escola. Teoria dos jogos, programas novos, aulas, análise de mãos… Escola outra vez! Eu não queria saber de nada daquilo.
Eu não estava disposto a trabalhar duro. Aquilo era… trabalho! E trabalho não era para mim. Se eu não queria fazer alguma coisa, simplesmente não fazia. Acreditava que esse era o meu caminho e o segredo do meu sucesso. A liberdade era minha única estrela-guia.
Levei dez anos para encontrar uma nova definição de sucesso: a capacidade de lidar com as dificuldades que a vida coloca em nosso caminho.
Na época, porém, eu não tinha motivação. Minha vida não mudaria se dobrasse ou triplicasse meu bankroll. Gostava do status de jogador de elite, mas não de muitas das emoções que sentia nas disputas pelos lobbies. Também não tinha interesse em passar dias inteiros diante do computador.
Eu não conhecia a teoria. Literalmente, não conhecia nada. Mesmo que eu tivesse sido humilde, curioso, motivado e trabalhador, ainda assim não seria garantido que conseguiria acompanhar os melhores. Uma nova filosofia e uma nova linguagem haviam chegado ao poker. Eu não as entendia e, sem elas, não teria como incorporar o que precisava aprender. Acho que não usei a palavra “range” nem uma vez antes de 2012.
Eu jogava poker em um computador, mas não tinha vontade de jogar como um computador.
Meus resultados de 2010 foram como o canário na mina de carvão: um alerta antecipado. As habilidades exigidas dos jogadores de high stakes estavam mudando rapidamente. Os regs que se recusassem a mudar ficariam para trás.
“Se você não gosta de mudanças, vai gostar ainda menos de se tornar irrelevante.”
General Eric Shinseki