Há alguns meses, Rui começou a contar sua história em detalhes. Para sua surpresa, os posts fizeram sucesso.
Comecei a jogar online em 2006 ou 2007, quando ainda estava na faculdade. Depositei $50 com o cartão de crédito da minha mãe e ganhei $100 mil no primeiro ano. Joguei cash games do NL5 ao NL1k. Era uma época completamente diferente: o rake era muito menor e as mesas, incomparavelmente mais fáceis.
Decidi que o poker seria minha profissão. Meus pais não gostaram nem um pouco, mas, de alguma forma, consegui convencê-los.
Foi muito difícil passar do NL1k para o NL5k. Eu dava um tiro atrás do outro, e meu bankroll oscilava entre $10 mil e $100 mil. Isso continuou até o dia em que resolvi jogar PLO. Estava em tilt e coloquei meus últimos $10 mil em quatro mesas de PLO $25/$50. Eu praticamente não tinha experiência com Omaha.
Jogava com um sistema nada sofisticado de “pote, pote, pote”, e ele funcionava muito bem contra quem achava que PLO era apenas uma questão de formar o nuts. Logo na primeira noite, transformei aqueles $10 mil em $100 mil e me apaixonei imediatamente pelo Omaha.
Os regs começaram a me caçar. Evidentemente, não me consideravam um especialista em PLO. No fim, quase toda a minha ação se concentrou no HU PLO. Em um ano, levei meu bankroll a $1 milhão. Descobri que tinha um talento natural para esse formato.
Entre 2008 e 2012, joguei contra qualquer um que se sentasse à minha mesa. Alguns jogadores de ponta até me consideravam o melhor do HU PLO. Mas Ben Sulsky, Phil Galfond e Ben Tollerene sempre me davam trabalho.
Com o tempo, encontrar ação ficou incrivelmente difícil. Quase todos os regs só queriam jogar contra recreativos, e eu não tinha muito interesse em abrir todas as salas e passar o dia inteiro esperando nos lobbies. Gostava muito do lado competitivo do poker, não apenas do dinheiro. Para mim, o bankroll era uma espécie de pontuação em um videogame. Talvez tenha sido essa relação com o dinheiro que me ajudou a subir tão rápido de limites.
O capítulo seguinte da minha carreira foi a mudança para Macau com meus dois melhores amigos, Romain e Cyril. Avante, três mosqueteiros!
Foi absurdamente difícil sair do multi-tabling de HU PLO para jogar uma única mesa presencial de NL, com nove jogadores. Eu não tinha paciência nenhuma, jogava com VPIP de 50% e era punido o tempo todo por isso. Para ser sincero, nunca aprendi completamente aquelas lições, haha.
Mas tive sorte outra vez: o Short Deck explodiu em Macau. O jogo se parece bastante com PLO, as equities das mãos são muito próximas e a ação é muito mais dinâmica do que no NLHE. A vantagem dos ranges muda a cada street. A maioria dos adversários jogava muito mal, então meu gosto por participar de muitas mãos não me custava tanto EV.
Por algum tempo, meus adversários diários foram Jungleman, Trueteller, Phil Ivey, Dwan e os empresários chineses.
Investi meus ganhos no poker principalmente em empresas de tecnologia. Comprei ações da Nvidia, por exemplo, a $3 ou $4. Já mencionei que tenho muita sorte?
[Nota da redação original: a cotação da Nvidia à época da publicação era de $225.]
Quando a pandemia começou, praticamente encerrei minha carreira no poker — algo em que já vinha pensando havia bastante tempo.
Poucos jogadores de poker conseguem ter uma carreira longa e bem-sucedida. Rake, dívidas, dificuldade para entrar em bons jogos, o surgimento constante de novos gênios… Tudo isso torna o sucesso a longo prazo quase impossível.
Esse foi o capítulo do poker na minha vida. Contarei o próximo em outra ocasião.
Phil Galfond apareceu nos comentários para recordar uma mão:
— Joguei PLO $5k 6-max contra você quando ainda estava subindo de limites. Em um board com flush, apostei no turn e você deu all-in. Paguei, desanimado, com o segundo ou terceiro nuts. Você não tinha outs nem blocker. Aquilo explodiu minha cabeça. Eu não sabia que uma jogada dessas sequer era permitida. Depois disso, passei a ter muito medo de você.
— Haha, medo de que eu começasse a te entregar stack atrás de stack?
— 😂 Eu só aprendi que não dava para jogar no piloto automático contra você. Era preciso estar preparado para qualquer coisa.
— O que ficou na minha memória é que era impossível blefar contra você.
— Você é a personificação do gambler bem-sucedido. Começou online, saiu dos micro limites e chegou aos high stakes, investiu bem e ficou absurdamente rico. Depois voltou ao poker, mas agora como um whale de VPIP 90, para que todos os seus amigos do poker também pudessem participar do seu sucesso! 🐳😂💰
— Sua história é muito mais impressionante. Quando vai contá-la para quem ainda não conhece? Tanto no Oriente quanto no Ocidente, só existe um verdadeiro Boss do poker.
— A mão lendária contra Dwan com 2-7 será lembrada para sempre. Você e Galfond foram os primeiros adversários para quem perdi stacks quando dei meus tiros no $50/$100. Seus ranges amplíssimos e sua agressividade desenfreada deixavam claro desde o começo que o heads-up era a sua praia.
— Parece que meu post fez sucesso. Perguntem o que quiserem. Se eu não responder, é porque simplesmente não quis.
— Todos os regs de high stakes são gênios e teriam sucesso em outras áreas? Magnus Carlsen poderia se tornar o melhor jogador de poker da história se estivesse 100% motivado?
— O sucesso no poker combina QI e trabalho duro. E trabalhar duro, nesse caso, é simplesmente ser obcecado: não dá para fazer algo dez horas por dia sem amar aquilo. Poker e xadrez têm algumas coisas em comum, mas não tantas. Uma inteligência elevada pode ajudar em situações específicas, que aparecem com muito mais frequência no poker ao vivo.
— Você ainda mantém contato com as pessoas do documentário Nosebleeds?
— Sim, são amigos próximos.
[Nota da redação original: o filme conta a história dos franceses Alex “Alexonmoon” Luneau e Sébastien “Seb86” Sabic, regs de ponta dos mixed games.]
Alex Luneau
— Qual é sua equipe favorita no CS2?
— Acho que é a Vitality. Sou francês, afinal.
— Onde você colocaria Jared Bleznick na hierarquia do poker online?
— É um bom jogador, mas ganhei muito dinheiro dele.
— Quão bom é Trueteller? Você o chamaria de melhor jogador?
— Ele é incrivelmente forte e uma das pessoas que mais respeito entre todas que conheço.
— Existe um caminho realista para um reg da Índia chegar aos torneios da Triton em cinco anos?
— Realista? Conseguir um emprego que pague muito bem. Se quiser sonhar, pode esperar chegar lá graças ao trabalho duro e ao talento no poker.
— Quem é o mais forte nos high stakes atualmente?
— Não acompanho o poker de hoje, mas imagino que Berri seja o GOAT.
— Qual foi o maior pote que você já ganhou?
— Um valor na faixa alta dos sete dígitos.
— Pelo preço atual do BTC, é melhor comprar ou vender?
— Não acompanho criptomoedas.
— Quem foi o adversário mais difícil da sua carreira?
— Sauce123 e Ben86 no auge da minha fase online. Trueteller e Jungleman no poker ao vivo. Mais recentemente, Kayhan Mokri me destruiu no HU NL. Resolvi competir contra o melhor em um formato no qual não sou particularmente forte.
— Se estivesse começando do zero, o que jogaria nos próximos cinco anos?
— Cash games são difíceis demais. Provavelmente escolheria torneios. Mas, de modo geral, o poker não é a melhor opção hoje.
— Você conseguiria transformar $10 mil em $1 milhão jogando apenas poker?
— No meu caso, seria possível, porque tenho acesso a determinados jogos.
— Qual foi a lição mais importante que aprendeu na vida?
— Nunca podemos ter certeza absoluta de nada.
— No começo da carreira, você se apoiava nos instintos ou já usava software e estudava o jogo?
— Comecei a usar trackers desde o início. Nunca dependi apenas do instinto.
— Quem é o melhor jogador de HU NLHE atualmente? Gostaria de enfrentá-lo por diversão. Obviamente, não acho que teria vantagem. Só tenho curiosidade de saber se teria alguma chance.
Nos comentários, sugeriram que ele desafiasse Linus Loeliger. A partida aconteceu pouco depois.
— Vou transmitir ao vivo — anunciou Rui.
Eles jogaram em duas mesas de $200/$400, com buy-in de $100 mil. A gravação está disponível no canal de Rui Cao.
Nos primeiros minutos da transmissão, Rui recebeu 7-2 suited nas duas mesas. Venceu ambas as mãos com overbets no river, e Linus foldou duas vezes.
— Podemos até parar por aqui — brincou Cao ao publicar o vídeo no Twitter.
A partida, porém, continuou e terminou com vitória de Linus, que ganhou cerca de $120 mil.
— Nada mal para o criador do Linux — resumiu Rui. — Quem é o próximo? Só aceito quatro mesas; duas são entediantes demais. Doug Polk, que tal jogar contra um aposentado do poker ao vivo?
Doug ainda não respondeu, mas Daniel Cates disse nos comentários que estaria disposto a jogar.
Em outro post, Rui relembrou uma sessão em que ele e Trueteller enfrentaram o famoso whale chinês conhecido como Chairman:
O jogo aconteceu em Manila. Os valores eram enormes e não podíamos sair. Perguntei a um reg muito conhecido se ele tinha alguma coisa para me ajudar a ficar acordado — Adderall ou modafinil.
— Tenho, sim — respondeu ele, antes de ir até o quarto. Quando voltou, deu alguma coisa, que eu não sabia o que era, para mim e para Trueteller.
Passamos as dez horas seguintes sentindo os efeitos. Em determinado momento, perguntei: “Que merda foi essa que você nos deu?”
Ele simplesmente respondeu:
— Mas vocês não queriam ficar acordados?
Justo.
Acho que jogamos bem, mas tentar permanecer sentados tranquilamente no mesmo lugar virou uma tortura.
— A princípio, achei que ele estava tentando se livrar de nós daquele jeito — escreveu Timofey.
— Essa missão fracassou.
Na parte seguinte da autobiografia, Rui contou como se interessou pelos esports e fundou sua própria equipe.
Capítulo 2.
Sou fã de esports desde sempre. Aliás, foi por meio de amigos do Counter-Strike que cheguei ao poker.
Em 2018, eu passava o tempo todo no TeamSpeak com os melhores jogadores franceses. Sabiam que uma vez joguei contra kennyS valendo dinheiro e ganhei?
Nunca vou esquecer que apEX se recusou a apostar contra mim depois de ver minha pontaria lendária, haha.
[Nota da redação original: kennyS é jogador profissional de esports e recebeu o prêmio de Jogador do Ano em 2015; apEX também é jogador profissional e atua há muitos anos pela Vitality.]
Perto do fim da minha carreira no poker, comecei a pensar no que faria depois. Não sabia nada sobre negócios nem por onde começar, mas tinha muito entusiasmo e dinheiro suficiente para arriscar sem grande preocupação.
Todo mundo tentava me convencer de que era muito difícil ganhar dinheiro com esports. E é verdade, mas eu não me importava. Nos negócios, sigo a mesma abordagem que tinha no poker: o mais importante é a paixão. Faça sempre o que ama.
Em 2018, fundei a Cooler Esport. Édouard Debrousse assumiu todas as operações do dia a dia.
CS era nosso jogo principal, mas a concorrência era enorme. Mais ou menos naquela época, Fortnite começou a crescer. Também gostamos do jogo e decidimos que teríamos mais chances ali, porque as gigantes do setor ainda não haviam dominado o mercado.
O começo foi muito difícil. Precisávamos disputar jovens talentos com Vitality e FaZe, enquanto ninguém sabia quem éramos.
Depois de uma rotação inicial de jogadores franceses pouco conhecidos, montamos uma equipe sólida com LeftEye, Gebber e Nyhrox. Mais tarde, chegaram Aqua, 4zr e Noward.
Para mim e Édouard, a Cooler Esport virou uma família. Fazíamos bootcamps o tempo todo. Vivíamos entre Paris e Londres; em Londres, o ping era muito melhor. Ainda considero aquele período um dos melhores da minha vida.
Jogadores de outras equipes apareciam com frequência. Meu apartamento em Londres virou uma espécie de sede para todos os melhores jogadores de Fortnite.
Mongraal e benjyfishy certamente não esqueceram aquela época.
Percebi uma coisa quase de imediato: não sou um bom vendedor.
Negociar com patrocinadores e procurar dinheiro era humilhante para mim. Eu precisava correr atrás das pessoas, bajulá-las, prometer conteúdo, usar mouses ridículos de patrocinadores e fazer um monte de outras coisas para receber uma quantia que parecia pequena diante do custo de toda aquela aventura.
Durante as negociações, eu sempre diminuía o que éramos capazes de entregar. Tinha tanto medo de decepcionar os parceiros que prometia menos do que poderíamos fazer. Aquilo me parecia honesto.
Descobri que, nos negócios, o comportamento +EV é o oposto: todo mundo promete mais para fechar um bom acordo e só depois resolve os problemas.
Ainda não mudei. Isso me surpreende, considerando meu passado no poker.
No gambling, alguém pode perder uma fortuna para você e convidá-lo para jantar no dia seguinte. Existe uma lealdade estranha e um respeito mútuo entre pessoas que se enfrentam por anos nos high stakes.
Nos negócios é diferente. Logo aprendi que um aperto de mão, uma amizade e até anos ajudando alguém não significam nada quando há muito dinheiro em jogo.
Aprendemos essa dura lição com os contratos dos jogadores. Por causa da nossa inexperiência e de um timing muito ruim, alguns contratos venceram um mês antes do início da Copa do Mundo de Fortnite.
Foi uma lição caríssima. Aprendemos muito sobre cláusulas contratuais, poder de negociação e lealdade.
Na Copa do Mundo de Fortnite, Nyhrox e Aqua venceram o torneio de duplas e receberam $3 milhões em premiações — na época, um dos maiores prêmios da história dos esports.
A final teve seis partidas, e nossos jogadores venceram as três últimas consecutivamente.
Depois do torneio, apenas Aqua permaneceu conosco. Nunca vou esquecer isso, porque ele também poderia ter saído tranquilamente.
Para uma organização pequena, com menos de um ano de existência, tudo aquilo foi completamente surreal.
Em outra ocasião, Rui contou uma história para mostrar que gamblers experientes não blefam apenas nas mesas:
EPT Mônaco, 15 anos atrás.
Um lendário malandro francês conheceu uma mulher encantadora, nota dez. Ela parecia estar muito acima do nível dele, mas, por algum motivo, se interessou pelas histórias sobre como ele era um grande jogador, pelas fotos dos torneios e pela conversa de que seria possível ganhar €1 milhão em um deles. Ele a convenceu de que certamente terminaria em primeiro.
No dia seguinte, os dois foram às lojas da Chanel e da Hermès. Assim que entraram, ele anunciou: “Carta branca”. Ela escolheu, toda feliz, cerca de €50 mil em produtos. Ele pediu aos vendedores que separassem tudo: voltariam para buscar as compras alguns dias depois, quando ele vencesse o torneio.
Passaram os dois dias seguintes sem sair da cama. Depois que ele, como era de se esperar, foi eliminado do torneio em poucas horas, precisou dizer: “Desculpa, meu amor. Eu simplesmente dei muito azar”.
— Muito bem executado. Estou orgulhoso de você — elogiou um comentarista.
— Nunca tive problemas com mulheres — respondeu Rui, afastando as suspeitas. — Isso é golpe, e eu nunca fui pobre a esse ponto.
— Pessoal, juro que a história não é sobre mim — acrescentou Rui depois de uma enxurrada de comentários semelhantes. — Mas sempre tive curiosidade de saber se ele teria pago os presentes caso tivesse vencido.