Aos 37 anos, Mike “timex” McDonald encontra no xadrez e nas maratonas a motivação competitiva que antes vinha do poker. Aposentado profissionalmente há uma década, o canadense diz sentir pouca falta das mesas e encara a carreira que o levou aos torneios mais caros do mundo como um capítulo encerrado.

Em 2026, McDonald foi campeão de xadrez das Ilhas Cayman, onde mora há cerca de cinco anos, e representou o território na Olimpíada de Xadrez, no Uzbequistão. Na entrevista ao GipsyTeam, ele relata sua preparação, analisa partidas que marcaram a competição e explica por que até disputas em níveis modestos conseguem empolgá-lo.

Timex também revisita escolhas das quais se arrepende, admite que deveria ter trabalhado mais nas próprias fraquezas e destaca Stephen Chidwick como exemplo de dedicação. Entre histórias do poker, treinos de corrida e novas metas, ele reflete sobre o que realmente importa quando o talento encontra seus limites.

— Qual é a história das Ilhas Cayman? Você mora lá agora? Como foi parar na seleção?

— Sim. Eu me mudei para as Ilhas Cayman há cerca de cinco anos. Quando cheguei aqui, havia muito pouco xadrez. Tínhamos um clube que se reunia em um bar de vinhos, o que, na verdade, é bem legal. Imagino que, se você percorresse o mundo e conhecesse centenas de milhares de clubes de xadrez, pensando nos lugares onde a maioria funciona, um bar de vinhos em uma ilha tropical, meio que no coração do setor financeiro, seria um cenário muito bacana para um clube. Mas o nível do xadrez em si não era tão bom. Poucos jovens tinham rating acima de 1200 no chess.com — talvez dois ou três no país inteiro. E havia apenas uns quatro jogadores com rating FIDE. Embora meu xadrez estivesse um pouco enferrujado, se os jogadores mais fortes que apareciam tinham, talvez, 1600 ou 1700 no chess.com, eu tinha boas chances.

Eu não gosto de xadrez sem relógio. Para mim, o tempo é um recurso. Quem está perdendo começa a gastar cada vez mais tempo. Eu jogo bullet, rápido, blitz ou clássico, mas não gosto de um blitz que vira uma partida clássica, e isso acontecia um pouco. Também não havia muitos torneios. Nos últimos anos, as coisas ficaram mais organizadas. O campeonato das Ilhas Cayman começou em 2024. Ou talvez tenha havido uma edição antes de eu participar, quando eu simplesmente não estava jogando xadrez. Disputei o campeonato de 2024 e fiquei em segundo lugar. Quando aconteceu a Olimpíada anterior, eu morava na ilha havia um pouco menos de três anos. E acho que as regras — não sei se eram das Ilhas Cayman ou da FIDE — diziam algo como: você precisava morar no país há três anos ou ser o campeão nacional. Eu estava aqui havia, sabe, 32 meses e tinha sido vice-campeão nacional, então fiquei de fora da Olimpíada de 2024. Mas, depois disso, completei o tempo necessário para ser elegível e também ganhei o campeonato nacional.

Tenho sido bastante ativo no xadrez há pouco mais de um ano. Joguei praticamente todos os torneios de fim de semana que tivemos, vou ao encontro semanal do clube na maioria das semanas e estou me envolvendo cada vez mais. Agora, o número de crianças com rating acima de 1200 no chess.com provavelmente está perto de 40. O xadrez entre os jovens cresceu muito bem nos últimos anos, e tem sido muito bom acompanhar isso.

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— Vocês têm treinadores? Quero dizer, a seleção e você, individualmente?

— Meu treinador online é Eric Hansen, mas não acho que eu esteja treinando xadrez de maneira muito séria. É mais como um jogador de golfe ou de tênis que está sempre fazendo aulas e nunca melhora de verdade. Disputei a Olimpíada e provavelmente tive umas três ou quatro horas de aulas naquele estilo: “Ei, Mike, você precisa parar de fazer merda assim”. Enfim, ele é meu treinador. A seleção das Ilhas Cayman também tem um treinador, o mestre internacional Jomo Pitterson, com quem fazemos uma chamada toda quarta-feira à noite para trabalhar várias questões táticas ou posicionais. Ele recomendou aberturas que deveríamos jogar e ajudou em parte da nossa preparação na Olimpíada. Tanto Jomo quanto Eric são meus treinadores online.

— Notei que todos os integrantes da equipe na seção aberta ganharam rating. Então, imagino que o desempenho da seleção possa ser considerado um sucesso?

— Sim, eu estava pensando um pouco nisso. Foi muito bom ver. Todo país e todo clube acha que seus jogadores têm rating abaixo do nível real, mas, se nossa equipe masculina ganhou uns 80 pontos de rating e a feminina ganhou uns 150, é legal levar algumas centenas de pontos de volta para o país! É menos divertido quando os jovens da escolinha viajam para algum torneio, perdem uns 100 pontos de rating e depois voltam para recuperá-los em cima de mim.

Acho que todos nós fizemos um torneio muito bom. Não estou dizendo que jogamos de forma incrível, mas talvez a Olimpíada reúna alguns jogadores com rating acima do nível real. Acho que há pessoas que só disputam um torneio a cada dois anos. Talvez tivessem nível de 2200 há 20 anos, mas já não tenham mais.

Além disso, nosso terceiro tabuleiro é um dos piores jogadores que já vi na administração do relógio. Em um ritmo de 60+30, talvez ele jogue como alguém de 1800; em um ritmo de 90+30+30, talvez seja mais próximo de um jogador de 1900. Quando disputamos um torneio clássico de seis ou oito rodadas, ele frequentemente perde duas partidas por tempo: uma em uma posição igualada e outra em uma posição melhor, mesmo com o incremento de 30 segundos. Então, acho que o rating dele, de 1830 ou algo assim, não reflete muito bem seu nível real. Não estou dizendo que deveria ter 2100 nem nada disso, mas, para ele, quanto mais tempo, melhor. Para mim, 60+30 ou 90+30+30 dá na mesma; não acho que isso afete minha força de jogo. Se há mil homens na Olimpíada, eu diria que ele está entre os 20 que mais se beneficiam desse tempo adicional. Isso pesa um pouco.

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E também tem nosso primeiro tabuleiro... Ele ensina xadrez há muito tempo. É um pouco mais velho do que eu, mas acho que não jogava muito xadrez de torneio desde os 12 ou 14 anos. Ele não achava que poderia ser o melhor jogador da Jamaica, mas, quando se mudou para as Ilhas Cayman, percebeu que poderia ser o melhor daqui. Então, acho que, quando disputa alguns dos nossos torneios locais, talvez não jogue o melhor que consegue. Quando jogamos um contra o outro, nossas partidas são bastante equilibradas. Mas, quando conversamos sobre xadrez, eu aprendo muito com ele, e ele não aprende praticamente nada comigo. Acho que a compreensão dele do xadrez talvez seja mais próxima da de um jogador de 2100, mas eu consigo extrair tudo de mim mesmo, e não sinto que ele faça o mesmo nos torneios locais. Só que, ao jogar em um palco maior, acho que ele encarou tudo com mais seriedade.

E Shaun, nosso quarto tabuleiro, também estava um pouco abaixo do rating que deveria ter. Ele tinha passado por uma queda, e eu o vejo como um jogador de 1800, mas na Olimpíada estava com algo como 1730, o que não parece representar bem seu nível.

Quanto a mim, acho que estou no rating que deveria ter. Estou mais perto de 1850 do que de 1950.

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— Qual das suas partidas na Olimpíada foi a mais marcante para você?

— Acho que a partida contra a Nicarágua, na sexta rodada. Joguei contra Arauz Espinoza, que tinha rating de 2041.

Sinto que, no xadrez, sou principalmente um jogador tático e me considero fraco no jogo posicional. Na maior parte do tempo, tento complicar as partidas e torná-las tão táticas quanto possível. Nessa partida, ele jogou muito rápido e foi muito melhor do que eu taticamente, mas achei que jogou bastante mal do ponto de vista posicional. Foi um pouco apressado em alguns lances. Fiquei satisfeito quando joguei Qxe6.

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É um lance pouco natural, mas me ajudou a igualar a posição. E acho que ele não o analisou, porque presumiu que eu jogaria o mais natural, fxe6.

Depois, conduzi completamente mal as trocas das peças menores para chegar a um final. Eu estava tentando calcular, mas, do ponto de vista posicional, acabei entrando em um final perdido. Para mim, foi um bom exemplo de uma partida contra alguém cujo rating não é tão diferente do meu, em que eu não deveria simplesmente tentar calcular melhor do que o adversário.

Algumas vezes por ano, sou emparceirado com um jogador de 2300, e não importa muito o que eu faça: vou perder. Mas ali era uma partida contra um adversário que eu poderia vencer, cujo rating não é tão diferente do meu, que jogou uma partida um tanto ruim e, de algum jeito, eu joguei ainda pior. Ele me deixou voltar ao jogo duas ou três vezes, e em todas elas eu administrei mal meu tempo.

Esse é um bom exemplo de que há jogadores mais fortes do que eu que poderia vencer no jogo posicional. E tentar tornar a partida mais tática, especialmente contra jogadores mais jovens, nem sempre é a melhor opção. Se eu fosse disputar um match contra esse cara, provavelmente deveria optar por posições mais voltadas ao jogo posicional do que normalmente prefiro. É por isso que essa partida ficou na minha cabeça: era um adversário que eu poderia vencer, que não estava em seu melhor dia, mas minha abordagem da partida me colocou no caminho da derrota.

— Você já analisou suas partidas?

— Ainda não. Fiz uma viagem de quatro dias depois da Olimpíada, então vou me aprofundar nessas partidas em algum momento desta semana. Durante a Olimpíada, só dei uma olhada rápida no Stockfish para verificar erros graves, mas isso, é claro, não é uma análise de verdade.

— Você teve a chance de usar seu famoso olhar fixo durante as partidas?

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— Hahaha! Uma coisa que vale mencionar: eu realmente não gosto de contato visual! As pessoas odeiam quando fico encarando, mas aposto que, em nove de cada dez vezes, eu odeio isso ainda mais do que elas. Nunca gostei; só acho que pode me ajudar um pouco. E o xadrez, antes de tudo, é meu hobby. Não o levo nem de perto tão a sério quanto levava o poker.

No entanto, quando sinto que minha posição passou de igualada para vencedora, até gosto de olhar para o adversário, só para ver se ele sente a mesma coisa, hahaha. Gosto mais de olhar para a pessoa do que de encarar os olhos dela.

Minha partida da 11ª rodada foi uma das piores que já joguei em termos de desperdiçar uma posição melhor. E foi justamente aquela em que meu meu adversário não tinha poker face. O rosto dele mostrava claramente que já tinha dado a partida por encerrada. Se meu rating fosse 2200, ele provavelmente teria abandonado. Mas saí de uma situação em que meu adversário parecia completamente abatido, com aquela cara de “por que eu ainda estou aqui?”, para uma em que ele acabou ganhando a partida, hahaha!

Fico muito feliz por ter sido na 11ª rodada. Se isso tivesse acontecido na sétima ou na oitava, talvez fosse mais difícil me recuperar. Mas foi um pequeno alívio não precisar jogar mais nenhuma partida de xadrez depois de desperdiçar aquela posição.

12778-1791482495.webpApesar de estarem em desvantagem material, as brancas dominam completamente a posição. O computador atribui a Mike uma vantagem de +5, semelhante à de ter uma torre a mais.

Não percebi a força de Qb6+. Quando estava pensando em como recapturar em h6, capturar com o bispo parecia mais natural, mas eu estava com um pouco de dificuldade no tempo e simplesmente pensei: “Tudo bem, vamos recapturar com o cavalo”. E deixei passar completamente a força de Qb6.

Eu estava analisando algumas variantes e acho que vi uma posição em que poderia chegar a um final de damas e peões com uns dois peões a mais. E acho que fui ganancioso. Naquele momento, só tinha dez minutos no relógio e queria visualizar uma posição completamente ganha, mas não encontrei nenhuma nos meus cálculos. Acho que havia uma ou duas posições em que poderia ter calculado mais longe ou feito uma avaliação melhor.

Acho que, se estivéssemos jogando um blitz de 3+2, provavelmente teria incluído Kh2, só como um lance natural no ritmo da partida, para me defender de Qb6.

12777-1791482494.webpApós o lance profilático 32.Kh2, que não foi jogado na partida, as brancas mantêm uma vantagem esmagadora.

Mas, com o incremento de 30 segundos, fiquei focado demais em buscar um cálculo mais preciso, em vez de passar para ele a responsabilidade de encontrar uma resposta. E acho que deixei passar algumas ideias em sequência, permitindo que ele assumisse a vantagem. Foi bastante desmoralizante.

Então, não fico encarando os adversários no xadrez. Talvez fizesse isso se não gostasse deles, mas gosto da maioria. De vez em quando, jogo uma partida caseira de poker e tenho o impulso de encarar alguém, mas aí penso: “Espera, não preciso fazer isso! Esse não é mais meu trabalho!”. Posso simplesmente jogar poker por diversão, e isso é bem legal.

— Com que idade e de que maneira você começou a jogar xadrez?

— Aprendi como as peças se movem muito pequeno. Minha lembrança de infância é meio como se eu sempre tivesse sabido jogar xadrez. Meu pai deve ter me ensinado os movimentos quando eu tinha três ou quatro anos. E acho que sabia que o en passant existia, mas nunca entendi como funcionava. Talvez tenha jogado umas cinco partidas quando tinha três ou quatro anos e depois nenhuma até os 11. Acho que meu vizinho começou a jogar nessa época, contra o ChessMaster 7000 ou 8000. Ele estava se interessando, eu também me interessei e descobri que havia um estabelecimento na nossa cidade que oferecia aulas de xadrez, aulas em grupo nas quais você ia avançando pelo conteúdo. Comecei a fazer isso quando tinha uns 11 ou 12 anos e mergulhei de cabeça. Fiquei completamente envolvido com o xadrez pelos três ou quatro anos seguintes. Então descobri o poker pouco antes de completar 15 anos. Continuei jogando na equipe de xadrez do colégio e coisas assim por mais um ano, aproximadamente, mas já não estudava xadrez nem ficava jogando umas três horas de blitz antes de dormir. Antes era: “Tenho tempo livre, vamos jogar xadrez”. E passou a ser: “Vamos jogar poker”.

Então, joguei xadrez por quatro ou cinco anos na adolescência, mas, depois que comecei a jogar poker nos limites altos e terminei o ensino médio, não joguei mais nada de xadrez até o Campeonato Mundial de 2018. Assisti pela Twitch. Eu já estava fora do poker havia alguns anos, gosto de competir e gosto de ter metas pelas quais trabalhar. Então voltei ao chess.com.

Uma coisa estranha: eu não acompanhei nada da carreira de Magnus Carlsen. Sabia que ele era o segundo grande mestre mais jovem da história, e a única coisa que vi foi quando Anish o venceu, quando tinha uns 16 anos e era considerado o próximo Magnus Carlsen! Eu realmente estava tão focado no poker que não prestava atenção em nada fora dele. Não acompanhei Anand como campeão mundial, não vi Magnus destroná-lo. Estive totalmente focado no poker de 2004 a 2018 e perdi toda a era Magnus — uma coisa um pouco estranha de ouvir de alguém que tem só 37 anos!

— Você assiste a streams de xadrez? Tem algum streamer favorito além do Eric?

— Gosto de assistir às streams durante os grandes torneios, acho divertido, mas o xadrez clássico é tão difícil! Sinto que não entendo as posições nem as variantes críticas. E acho que, mesmo se fosse muito melhor, ainda assim não conseguiria compreender tudo. Também sinto que só fico realmente envolvido quando não tenho muita coisa acontecendo na minha vida.

Além do Eric, não acompanho muitos outros streamers. Gosto de ver qualquer um dos jogadores muito fortes jogando, como Magnus quando faz streams, mas assisto às transmissões do Eric muito mais do que às de qualquer outra pessoa.

— Você ainda é um profissional de poker semiaposentado? Ou a aposentadoria é completa? Não há planos de voltar à WSOP?

— Estou totalmente aposentado há dez anos. Acho que não jogo um torneio há quatro anos e meio e não disputo uma WSOP há sete ou oito anos. Já faz bastante tempo. É curioso como sinto tão pouca falta disso! Competir no xadrez em um nível bem modesto ou correr maratonas em um nível bem modesto meio que ativa as substâncias químicas no meu cérebro de maneira parecida, e essa competição me empolga.

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Não acho que eu tenha me importado tanto com o palco em que estava no poker. Jogar um super high roller de $250 mil contra Phil Ivey ou um torneio online de $22 com rebuy nunca pareceu tão diferente para mim. E, quando olho para meus colegas, sinto que, para a maioria, a parte favorita da carreira foi quando jogaram os limites mais altos, competiram contra os melhores do mundo, apareceram na TV e coisas assim. Para mim, acho que a fase favorita foi subir os degraus. Os primeiros três ou quatro anos, quando sempre havia um próximo nível, uma nova conquista e assim por diante. Será que consigo passar dos jogos de $100 para os de $200? Depois, para os de $500? Também gostava de jogar em alto nível, mas acho que não tanto quanto gostava da época em que aprendia e melhorava todos os dias. Nesse sentido, não sinto falta nenhuma de competir em nível mundial.

Uma vez a cada alguns anos, depois de assistir a um vídeo de poker ou jogar uma partida caseira, penso por um instante que poderia voltar a jogar bem. Mas então percebo que não gostaria de chegar a um nível inferior ao que tinha no meu auge, e também não gostaria do esforço necessário para voltar àquele auge. E talvez seja até impossível voltar a ser tão bom quanto já fui.

Foi um capítulo incrível da minha vida, mas não é algo em que eu realmente pense. Há pessoas que conheço há anos da comunidade do xadrez ou da corrida que não fazem ideia da minha carreira no poker. Mesmo no Uzbequistão, sempre é um pouco engraçado quando algum grande nome do xadrez vem conversar comigo durante o torneio. Peter Svidler provavelmente é o mais conhecido deles. Alguém me disse que Hans Niemann queria me conhecer, embora não tenhamos chegado a conversar. Também havia outros grandes mestres fortes. E acho que todo mundo na equipe das Ilhas Cayman ficava um pouco surpreso quando um jogador de 2700 vinha conversar comigo. Tipo: “Que porra é essa?”.

Não tenho nada contra falar da minha carreira no poker, mas não gosto de forçar o assunto. “Ah, isso me lembra de quando eu jogava contra Daniel Negreanu!” Ou: “Ah, que legal ver esse jovem grande mestre! Isso me lembra de como me tornei o campeão mais jovem da história do EPT!”. Não é algo tão relevante para as conversas. É um capítulo encerrado da minha vida. Se alguém faz uma pergunta sobre poker, respondo com prazer, mas isso simplesmente não é tão relevante.

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— Olhando para trás, você está satisfeito com as escolhas que fez na sua carreira no poker? Há algo que gostaria de ter feito de outra maneira?

— Hum, essa é uma boa pergunta!...

Em determinado momento, tirei um ano de folga. Fazer isso foi uma burrice. Se a vida é uma jornada e você a vive ano a ano, talvez eu precisasse daquele ano de pausa para ganhar alguma perspectiva ou algo assim. Mas, olhando hoje para minha carreira no poker, eu simplesmente teria dito: “Isso é algo em que você é muito bom, você está competindo em alto nível, e outra pessoa vai trabalhar pra caralho ao longo do próximo ano”. Então, foi uma decisão bem burra.

Acho que também teria me beneficiado de... Como posso explicar? O golfe é um bom exemplo. Muita gente prefere treinar algo em que já é boa. A pessoa é ruim no putting, mas consegue fazer boas tacadas longas e continua treinando essas tacadas. Quando olho para meu poker, acho que eu era um pouco assim também. Muitas vezes, me concentrava nas coisas em que sou naturalmente bom. E era um pouco descuidado com aquelas em que sou naturalmente fraco ou pouco disciplinado.

Sou bastante bom em criar minhas próprias estratégias ou pegar uma estratégia relativamente nova e ir aperfeiçoando. Basicamente, quando todo mundo joga poker muito mal, acho que sou muito bom em dominar o adversário o máximo possível. Conforme as pessoas melhoram cada vez mais e passa a ser necessário escolher exatamente os combos certos, especialmente usando informações de um solver ou ferramentas mais simples, anteriores aos solvers, acho que não sou naturalmente bom nisso. E também tenho pouca disciplina para trabalhar nas minhas fraquezas.

Sim, acho que talvez tenha mais facilidade do que a maioria para aprender poker em pouco tempo, mas não tive tanta disciplina para trabalhar nas coisas em que sou menos talentoso ou apenas mediano — e, normalmente, são justamente essas coisas que você deveria trabalhar mais.

No nível mais alto do poker, eu via pessoas definitivamente mais talentosas do que eu para lembrar das mãos. Ou, em particular — e isso realmente me chama a atenção —, algumas pessoas processam as informações de uma maneira diferente: “Certo, esse cara dá check em flops demais; portanto, as apostas dele no turn vão ter uma proporção alta demais de mãos de valor”. Todos os jogadores fortes são bons em pegar uma pequena informação e tirar boas conclusões a partir dela. Mas os melhores realmente se destacam. Alguém como Trueteller, Sauce ou Ike. Quando você percebe o quanto eles são melhores do que você, isso pode intimidar um pouco.

Talvez eu fosse mais talentoso do que alguns dos melhores jogadores em fazer cálculos rápidos, contas de cabeça. Mas dava como garantidas as coisas em que era bom e tinha certa rejeição por algumas coisas em que os outros eram bons. O que não fiz foi pensar: “Esses caras são tão bons em tirar conclusões que eu simplesmente preciso trabalhar mais do que eles!”. O que eles conseguem aprender em 50 horas com um solver, eu consigo aprender em 100. E, se dedicar 150 horas, posso começar a vencê-los. Dedicar zero horas em vez disso não foi uma boa escolha.

Mesmo que os solvers tenham prejudicado minha capacidade de chegar ao topo ou de permanecer lá, provavelmente deveria ter sido mais diligente no uso deles, pelo menos para ultrapassar outras pessoas que eram tão preguiçosas quanto eu.

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Então, esses seriam meus dois arrependimentos. Quanto à duração da carreira em si, não, não me arrependo de tê-la encerrado cedo nem nada disso. Acho que queria dar ao poker tudo o que pudesse, com a intensidade necessária para competir contra os melhores do mundo. Houve pouquíssimo tempo em que realmente pensei que seria o melhor jogador do mundo, mas passei alguns anos meio que acreditando que isso era viável, com aquele tipo de intensidade necessário para perseguir essa meta.

No geral, estou feliz com o que conquistei, feliz com o nível a que cheguei e não me importo muito se poderia ter mantido esse nível por mais cinco, dez ou 20 anos.

— Pela maneira como você descreve seus pontos fortes e fracos, parece que tem uma predisposição natural para os mixed games!

— No Canadá, a situação tributária é melhor para quem joga em países que não sejam os Estados Unidos, e os mixed games são muito dominados pelos americanos, com os jogos em Las Vegas e tudo mais. Acho que, se fosse americano, provavelmente teria me tornado um jogador de mixed games. Há tantas questões de sorte na vida: algumas possibilidades deixam de existir porque nasci 50 km ao norte da fronteira. Provavelmente foi por isso que me tornei um jogador de torneios, em vez de um jogador de mixed games. Sempre levei em conta logística, tributação e coisas assim, e decidi não me dedicar seriamente aos jogos mistos. Mas talvez eles tivessem sido uma boa opção para mim.

Os mixed games também têm uma longevidade muito boa. Lembro que, em determinado momento, os jogadores dedicavam um tempo enorme ao poker chinês, mas hoje quase ninguém joga mais. Naquela época, porém, parecia fazer mais sentido dedicar a vida ao poker chinês do que estudar mixed games. Mas os jogos mistos realmente resistiram ao tempo, e isso não era nada óbvio entre 2008 e 2012.

— Então, qual é sua carreira hoje? O que você faz além dos seus hobbies?

— Hum, não muita coisa, para ser sincero! O que é até bom. Acho que a principal atividade é ser investidor. Não é que eu não faça nada, mas tenho a liberdade de tirar duas semanas para disputar um torneio sem me preocupar muito com isso. Quem sabe, talvez daqui a um ano, talvez daqui a cinco, eu esteja totalmente focado em alguma coisa e trabalhando 60 horas por semana, sabe? Não tenho nada contra abrir algum tipo de negócio no futuro, mas, neste momento, estou meio que relaxando.

— Você é tão bom na corrida quanto Huck Seed?

— Ah. Definitivamente não nas distâncias mais curtas. Não sei o que Huck já fez nas distâncias mais longas. Talvez pudéssemos disputar uma meia maratona ou algo assim. Ainda não corri uma maratona abaixo de três horas, mas já fiz uma em três horas e zero minutos — três horas e 25 segundos na minha última.

— Poxa.

— Espero fazer a próxima em pouco mais de 2h50; algo em torno de 2h55 também seria ótimo. Provavelmente corro oito ou nove horas por semana. Estou mais envolvido com a corrida do que com o xadrez, mas esses são meus dois principais hobbies. Parei de beber há um ano, o que definitivamente ajudou!

Tudo o que faço, faço de maneira um pouco excessiva. Durante alguns anos, beber foi a coisa que escolhi fazer em excesso, e parar tem sido bom para meu estilo de vida em geral, mas também para a corrida. A primeira coisa para melhorar na corrida é correr bastante, e a segunda é não beber. Isso ajuda demais na recuperação! Não é exatamente a corrida que faz de você um corredor melhor, mas a recuperação depois dela — a maneira como seus músculos se reparam e como seu coração e seus pulmões se adaptam.

Quando você olha para esses maratonistas rápidos, é quase cômico o quanto conseguem correr depressa por duas horas inteiras. Eles mantêm por duas horas uma velocidade que pouquíssimas pessoas conseguiriam sustentar por um minuto, e que muita gente não conseguiria atingir nem por um segundo, mesmo dando tudo de si. Mas, quando você corre 15 horas por semana, seu coração e seus pulmões se adaptam muito ao longo de anos e anos de recuperação. Ao contrário dos músculos, coração e pulmões não são visíveis, e não é óbvio que o cara sentado ao seu lado tem o coração mais saudável do mundo.

Então, parar de beber ajudou muito na corrida e também na perda de peso. É uma bola de neve que vai na direção certa.

— Suponho que você saiba qual é seu VO₂ máximo?

— Meu relógio diz que é 57. Isso se baseia em treinos no calor, porque moro em um lugar quente e úmido o ano inteiro. Quando vou disputar uma corrida no frio, sempre tenho um ganho de desempenho. Imagino que, se passasse um mês treinando em algum lugar com clima bom para correr, esse número subiria alguns pontos, talvez para 59 ou algo assim.

Entre as pessoas que fazem maratonas com tempos próximos dos meus, imagino que ninguém tenha menos de 50. E, se você encontra alguém acima de 65, isso significa que a pessoa tem bastante potencial ainda não aproveitado. Tenho certeza de que há pessoas com VO₂ máximo de 75 que fazem uma maratona em um tempo parecido com o meu, mas isso simplesmente significa que deveriam correr em 2h35 e ainda não acumularam quilometragem suficiente ao longo da vida. E, se disputássemos uma prova de 5 km, a pessoa com VO₂ máximo de 70 me venceria por um minuto e meio, talvez dois, praticamente independentemente do treinamento. Talvez jogue futebol, pedale ou nade e quase nem corra, mas ainda assim me atropelaria completamente.

É uma coisa muito comum na corrida: agir como um ladrão da alegria dos outros. Digamos que eu corra há dois anos, você há seis meses, e você me vença por uma margem absurda e publique isso no Reddit — mas tenha 15 anos de treinamento de ciclismo quase profissional nas costas. E isso se transfere muito bem. Todos aqueles atletas do esqui nórdico com VO₂ máximo perto de 100 podem simplesmente aparecer em qualquer corrida local e fazer um tempo entre os 1% melhores. Magnus Carlsen não pode simplesmente jogar Go ou Scrabble em alto nível. Se jogar Go amanhã, provavelmente estará abaixo da média em um torneio.

— Embora exista um jogador japonês de shogi, Yoshiharu Habu, uma lenda do jogo, que tentou se dedicar ao xadrez convencional por um breve período e rapidamente chegou ao nível de mestre internacional. Então, alguns jogos são muito próximos uns dos outros.

12785-1791484949.webpYoshiharu Habu, na direita

— Ah, interessante, eu não sabia disso. É bem legal, impressionante.

No xadrez, aliás, algumas pessoas também têm um histórico no jogo, mas fingem que não. Você jogou no clube de xadrez da escola com jovens fortes, talvez não tenha obtido um rating FIDE, mas talvez já tivesse força de jogo equivalente a 1600. Agora volta ao xadrez aos 30 anos, joga por três meses, consegue 1600 de Elo e começa a dizer às pessoas que só joga há três meses. Sinto que vejo isso com certa frequência. Provavelmente mais na corrida do que no xadrez, mas bastante nos dois. É quase como se quisessem roubar a alegria do progresso de outra pessoa ao distorcer a própria evolução.

— Bem, todo mundo quer parecer talentoso.

— Sim, exatamente. Mas acho que o poker me ensinou que ser talentoso é... meio que não significa nada. O que você realmente quer é ser o melhor que pode ser e conquistar o máximo que consegue. E seu talento, por si só, meio que não vale nada. Se você está no mesmo nível de alguém, mas tem mais talento do que essa pessoa, isso significa que ela conquistou mais do que você e tomou decisões melhores do que as suas.

Penso em Stephen Chidwick como um bom exemplo. Sempre achei que ele era um dos jogadores de poker mais subestimados. Quando as pessoas listavam seus dez melhores, eu sempre colocava o nome dele na conversa, mas não ouvia muita gente mencioná-lo. Agora, avançando até o momento atual, ele é um dos melhores de todos, e seria meio absurdo não incluí-lo em qualquer lista curta dos melhores. Eu o vejo como alguém que, ao longo de 15 ou 20 anos, pode conquistar muito mais do que uma pessoa mais talentosa por meio de dedicação extrema, mantendo a cabeça no lugar e sem se deixar levar pelos próprios vieses. Ele se manteve diligente por um longo período, algo que pouquíssimas pessoas fizeram. Definitivamente está entre os melhores jogadores, e seu sucesso vem, em grande parte, daquilo que conquistou com o próprio esforço. Ele seria um exemplo perfeito de uma carreira da qual você pode se orgulhar muito.