Sam Greenwood analisa uma mão que deu o que falar na mesa final de um torneio ao vivo de $10 mil. Ao consultar o solver, descobre que errou na avaliação dos ranges desde o pré-flop.
À medida que a mídia se fragmenta, fica mais difícil acompanhar o trabalho dos nossos autores favoritos. No meu caso, tenho dois filhos pequenos e cada vez menos tempo livre. Raramente consigo parar para ouvir meus podcasts favoritos, assistir a filmes e séries ou ler livros, artigos e blogs pagos de estratégia de poker. Para quem está sem emprego e sem filhos, é mais fácil, embora aí os problemas sejam outros.
Eu era do tipo que ia ao cinema no dia da estreia. Hoje, tudo o que quero ver vai para uma lista que espero conseguir encarar um dia. John Wilson, The Avalanches e John Early, artistas cujo trabalho acompanho com prazer, lançaram filmes e álbuns recentemente. Ainda estou para conferir. E isso é só o que chegou ao meu conhecimento. Outra experiência típica de 2026 é descobrir que um ídolo lançou algo seis meses atrás e você só ficou sabendo agora. É difícil acompanhar essa enxurrada de lançamentos.
Por isso, aproveito a abertura de hoje para avisar quem deixou passar que comecei a escrever uma coluna semanal para a Octopi. Ela sai às quintas-feiras, e a equipe da Octopi complementa minha análise com simulações de solver para o pré-flop e o pós-flop. Estou muito satisfeito com o resultado e recomendo a leitura.
Nas primeiras edições, escrevi sobre mãos que me chamaram a atenção, mas tiveram pouca repercussão no mundo do poker. Hoje escolhi uma mão que viralizou. Nicholas Palma, um dos novos nomes mais interessantes do circuito, foldou uma sequência até o valete usando apenas uma das cartas da mão. A sequência só perdia para QJ, e Palma acertou. Da última vez que comentei um hero fold de Palma, ele me bloqueou nas redes sociais. Vamos ver como isso afeta meu veredito. Talvez ele leia a coluna e me desbloqueie. Ou talvez a fragmentação da mídia faça com que o texto nunca chegue a ele.
Evento #4 do Poker Masters 2026
No-Limit Hold’em com buy-in de $10.500.
Blinds de 20.000/40.000 e big blind ante de 40.000.
Com seis jogadores à mesa, os prêmios do 6º ao 1º lugar eram de $40 mil, $56 mil, $76 mil, $104 mil, $144 mil e $224 mil.
Pré-flop: Jamie Dwan (1.840.000 fichas, 46 BB) folda. Nicholas Palma (1.190.000, 30 BB) recebe e abre para 80.000 do HJ. Erik Seidel (210.000, 5 BB), Clemen Deng (2.775.000, 69 BB) e Andrew Lichtenberger (790.000, 20 BB) foldam. No BB, Vitalijs “zavor” Zavorotnijs (3.080.000, 77 BB) paga com .
Flop (pote de 220.000): Vitalijs sai apostando 60.000 e Nick paga.
Turn (pote de 340.000): Vitalijs aposta 180.000 e Nick paga.
River (pote de 700.000): Vitalijs vai all-in, cobrindo as 870.000 fichas que restam a Nick, que folda.
O que eu pensei antes de consultar o solver
Quando a mão viralizou, escrevi o seguinte no Twitter.
Costumo dar o devido crédito a quem encontra um hero fold e acerta. Ainda mais quando o adversário segue uma linha que, em teoria, nem deveria existir. Suspeito que Vitalijs devesse dar check no flop com todo o range.
Imagino que a lógica de Nick seja a seguinte. Vitalijs nunca blefa no river, então o melhor resultado possível ao pagar é dividir o pote. Considerando apenas o valor em fichas, Nick precisa de 35,5% de equidade para pagar. Com um risk premium de cerca de 4,5 pontos percentuais, ele deveria foldar se o adversário tiver QJ em 20% dos casos e apenas um valete nos outros 80%.
Só que há uma nuance nesses 40% de equidade. Dobrar o stack em 40% das vezes e cair em 60% é bem diferente de dividir o pote em 80% das vezes e cair nas outras 20%. A segunda situação é muito mais favorável. Por isso, o cálculo convencional subestima a frequência com que Vitalijs precisa ter a sequência maior para justificar o fold de Nick.
Também entra em jogo a leitura ao vivo. Vitalijs parece ter o nuts, mas pode muito bem ter um valete e dividir o pote. Se me oferecessem uma aposta na lucratividade desse fold ao longo de um milhão de mãos, eu passaria. Ainda assim, Nick merece crédito por uma jogada que entrou em todas as compilações de melhores mãos.
No geral, o BB só sai apostando em flops de três cartas consecutivas quando a textura é ou mais baixa. O HJ costuma abrir JTo e, por isso, tem vantagem de nuts. Seu range também tem muitas combinações de suited, e offsuit, além de overpairs e sets. No geral, um flop favorece o agressor pré-flop.
A pressão de ICM muda um pouco a dinâmica. Acho que Nick pode foldar JTo com Erik Seidel ainda na disputa com cinco blinds. Vitalijs, na minha leitura, foldaria conectores offsuit como 65o e 98o. Com isso, o flop favorece seu range menos do que parece. Acho que ele deveria dar check com todo o range nesse flop. Se optar por uma estratégia de leads, porém, é uma mão ideal para sair apostando.

Diante da lead, Nick tem pouco motivo para dar raise. Sob pressão de ICM, contra uma aposta em um board conectado, a tendência é jogar de forma defensiva em posição e ver como o board se desenvolve antes de inflar o pote.

Quando o BB sai apostando em um flop com três cartas consecutivas e o turn traz a quarta, ele costuma apostar de novo. Essa textura me parece uma exceção. Se o BB pode sair apostando nesse flop, é porque tem muitas mãos como e , além de / / e assim por diante . Só que o turn é excelente para Palma. É difícil saber se JTo faz parte do range dele, mas certamente há , , , , flush draws para o nuts, combo draws e sets. Se o turn fosse um cinco de outro naipe, Vitalijs quase sempre se beneficiaria de continuar apostando. Com o , eu esperaria mais checks. Ele escolhe uma aposta grande.

É tentador responder à aposta com um shove no lugar de Nick. Só que mãos como e ainda podem ter um freeroll contra ele nesse turn. Por isso, só pagar provavelmente é a decisão mais sensata, mesmo com o . O call certamente é defensável.
O river me parece simples. A relação entre o stack efetivo e o pote é baixa o suficiente para que Vitalijs possa ir all-in com outras mãos além de e blefes. Se ele shova com um valete para extrair valor ou para fazer foldar uma mão que dividiria o pote, fica muito difícil largar o próprio valete, que bloqueia 25% das combinações do nuts. Também dá para falar em frequência mínima de defesa. Chegamos ao river com muita coisa além de sequências até o valete. Temos flush draws de dois naipes que ficaram pelo caminho, , , – , , A6s e algumas combinações de dois pares. Isso sem contar mãos que poderiam pagar o turn com menos segurança, como ou .

A princípio, o call com um valete parece obrigatório. Ainda assim, se você parte da premissa de que Vitalijs deveria dar check com todo o range no flop, como eu parti, e considera a linha de três apostas dele muito desequilibrada, dá para justificar o hero fold.
Onde eu errei e o que o solver mostrou
Para começar, o solver faz Nick jogar bem mais tight no pré-flop. Ele folda KTo, QTo e JTo, e alterna entre abrir e foldar KJo e QJo. Para Vitalijs, a solução propõe uma defesa bem mais loose, que inclui mãos como 63o e 52o. Pensando bem, talvez Nick devesse abrir para um tamanho maior que o min-raise. Com esses ranges, faz sentido Vitalijs sair apostando no flop. Na simulação da Octopi, ele faz isso em 68% das vezes e alterna entre uma blocking bet e uma aposta maior. Contra os dois tamanhos, Nick quase nunca dá raise. Entre as mãos mais fortes que Nick larga contra a aposta pequena estão A5s, , , sem backdoor de flush.
Mesmo foldando várias broadways offsuit no pré-flop, Nick ainda se beneficia bastante do dez no turn. Seu range tem 56% de equidade contra o do adversário. Vitalijs tem um pouco mais de sequências porque também chega ali com algumas até o dez. As de Nick aparecem com menos frequência, mas são mais altas. As sequências representam cerca de 33% do range de cada jogador, então é preciso cautela com as outras mãos.
Na solução da Octopi, Vitalijs faz uma aposta de bloqueio com sequência até o valete e usa a overbet com sequência até a dama ou, às vezes, com . A aposta de meio pote fica fora da estratégia. De novo, Nick quase nunca aumenta, embora possa dar raise com qualquer sequência.
Uma overbet no turn já é suficiente para que Nick comece a foldar algumas sequências até o valete. Essa estratégia de dois tamanhos do solver ajuda pouco a avaliar o que ele fez na prática. Por isso, rodei a simulação do turn de novo, limitando Vitalijs a apostas de 53% do pote. Contra esse tamanho, Nick vai all-in de vez em quando com uma sequência e paga no restante das vezes.
Num river que pouco muda a força das mãos, Vitalijs pode apostar um quarto ou meio pote com as sequências até o valete. A aposta de um quarto recebe calls de sets, dois pares, e outras mãos. As sequências até o valete ficam fora do range de all-in. Para Vitalijs, tem 85% de equidade no river. Seria um desperdício transformar essa mão em blefe só para fazer foldar outro valete e evitar a divisão. Os shoves de blefe se restringem a combinações específicas de , Q5s a Q2s.
Mesmo contra esse range polarizado e sob forte pressão de ICM, o solver reluta em largar uma sequência até o valete. Até a pior combinação de , que bloqueia parte dos blefes de Vitalijs, tem 55% de equidade contra o range de all-in e alterna entre call e fold. Eu estimava o prêmio de risco de Nick em cerca de 5%. Na simulação, ficou mais perto de 20%. É um spot de ICM complicado, sobretudo com , mas, em geral, qualquer sequência até o valete tem equidade suficiente para pagar.
Ainda assim, a decisão ficou bem mais apertada do que eu imaginava. Quando você está convencido de que o adversário tem o nuts, o fold faz sentido.

Conclusão
No lugar de Nick, eu abriria um range mais amplo no pré-flop. No de Vitalijs, defenderia um range mais restrito. Dados os ranges calculados pelo solver da Octopi, a linha no flop faz sentido. O jogador com mais fichas e vantagem de nuts sai apostando com alta frequência. Mesmo sem vantagem de range, o BB ganha espaço para jogar agressivamente quando o adversário quase nunca pode responder com um raise.
O turn favorece Nick. Mesmo assim, o solver permite que Vitalijs continue apostando em baixa frequência e inclui QJ nesse range. Nick pode jogar pelo stack inteiro no turn com qualquer valete, mas o call cauteloso é a resposta mais frequente.
No river, a teoria aponta um call puro para Nick com uma mão que bloqueia combinações de valor sem bloquear blefes. Vitalijs também tem blefes fáceis de encontrar. Se saiu apostando no flop com AQ, KQ ou um flush draw até a dama, pode apostar nas três streets nesse runout. Por outro lado, que se danem os bloqueadores se você tem certeza de que o adversário blefa pouco. Se Nick espera ver o nuts em mais de 45% das vezes em que pagar, pode foldar.
Por isso, volto à minha primeira reação no Twitter e dou a Nick o crédito que ele merece. Uma linha pouco comum, em circunstâncias bem específicas, levou a um fold raro de se ver. Diante do all-in, Nick percebeu que sua sequência estava batida. Confiou na própria leitura e foi recompensado pela decisão.