– Olá a todos. Meu nome é Craig Tapscott e hoje estou com uma convidada especial. Annette Obrestad é a campeã mais jovem da história da WSOP. A jogadora que certa vez venceu um torneio de olhos vendados. Fiquei impressionado com aquela vitória. Foi mais ou menos naquela época que comecei minha trajetória no jornalismo de poker, e uma das minhas primeiras entrevistas para a CardPlayer foi justamente com a Annette. Seja bem-vinda, não consigo acreditar que você está em Vegas agora.
– Olá, pessoal. Mas eu moro aqui há 16 anos, então nunca fui embora.
– Para o nosso público mais jovem, fale um pouco sobre você. Você começou nos freerolls, mas jogava de maneira não exatamente legal, porque era nova demais.
– Sim, mas naquela época os tempos eram outros, as leis do poker online não eram cumpridas com tanto rigor. Eu nem lembro em qual sala criei minha primeira conta. Provavelmente PartyPoker. Eu tinha 15 anos e, no cadastro, coloquei minha data de nascimento verdadeira, mas apareceu uma janela de erro pedindo para escolher outra data. E foi o que eu fiz.
– Como você se interessou por poker online?
– Eu gostava de boliche, jogava e também assistia competições na televisão o tempo todo. Foi lá que vi uma propaganda de poker. “Cartas na internet?” Parecia divertido, então resolvi experimentar. Eu nem conhecia as regras, pensei que aprenderia no caminho. E realmente me adaptei muito rápido. Me registrei em um SNG 6-max de Stud Hi-Lo, não entendi nada, mas ganhei.
– Vocês jogavam poker em casa?
– Meu pai jogava cartas com frequência, mas não poker, e sim outros jogos. Em casa, a gente disputava jogos de estratégia de tabuleiro, e eu sempre gostei muito disso.
– Você começou a ganhar um dinheiro bom antes dos 18 anos?
– Sim, eu jogava freerolls. Em um deles ganhei uns dez dólares quando ainda nem tinha 16 anos. Comecei a grindar os SNG mais baratos e depois passei para os MTTs. Meu primeiro torneio importante foi na Ultimate Bet, um PLO de $10 com rebuy. Foi a primeira vez na vida que joguei Omaha, e ganhei $1.000. Com esse bankroll comecei a multitablear torneios de $20-$30 e logo de cara comecei a ganhar. Era muito fácil.
– Você estudava o jogo?
– Li o SuperSystem para ter pelo menos alguma noção de estratégia. As pessoas costumam achar que eu sou uma espécie de gênio da matemática. Mas é justamente o contrário, matemática sempre foi muito difícil para mim. Até hoje calculo pot odds mais ou menos no olho.
– Em quais salas você jogava?
– Em todas as principais: PokerStars, Full Tilt, UB.
– Uma vez você ganhou o famoso $100+R.
– Era o meu torneio diário favorito, eu o venci muitas vezes. As pessoas enlouqueciam naquele torneio. O field era praticamente sempre o mesmo, e muitas vezes, já na primeira mão, umas cinco pessoas iam all-in no escuro no pré-flop. Não havia conluio nenhum nisso, a gente só queria inflar os stacks.
– Você se lembra dos adversários mais difíceis daquela época?
– Eu gostava muito do jogo do lilholdem. (Nota do editor: Chad “lilholdem” Batista jogava de forma hiperagressiva; ele morreu em 2015, aos 35 anos.) Mas eu já quase não lembro de ninguém. Talvez você possa me lembrar de alguns nomes?
– Recentemente eu conversei com o Apestyles.
– Claro, ele era um deles.
– PearlJammer também jogava muito naquela época.
– Sim, lembro muito bem dele. O Jon também é um cara muito legal fora das mesas. Nos últimos 9 anos eu simplesmente não acompanhei o poker, não conheço os regs atuais, não sei quem está ganhando os grandes torneios. Comecei a assistir streams recentemente e não vi um único nome conhecido.
– Eu estava relendo alguns artigos que você escreveu naquela época. Muitos deles continuam atuais até hoje. Por exemplo, você sempre destacava a importância do controle de bankroll. Você seguia regras rígidas?
– Eu simplesmente não tinha escolha. Por causa da minha idade, eu não podia fazer depósitos. Se eu perdesse aqueles $9 que tinha ganho num freeroll, teria que começar tudo do zero.
– Você nunca pedia aos seus pais?
– Imagine uma filha de 15 anos chegando para vocês e pedindo dinheiro para jogar online. Mesmo que vocês confiem no seu filho, provavelmente pediriam para ela esperar pelo menos até terminar a escola.
– Como era um dia normal da sua vida naquela época?
– Eu estudava até umas 2 ou 3 da tarde, depois almoçava em casa e jogava poker até meia-noite. E assim todos os dias, mas eu acabei não terminando os estudos. Os resultados no poker estavam bons demais para eu gastar tempo com qualquer outra coisa. Na Noruega, o sistema de ensino é um pouco diferente, não existe aquela ideia de que a escola define toda a sua vida. Eu podia voltar a qualquer momento e terminar, se o poker não desse certo.

– A primeira vez que você foi para Las Vegas foi com uns 17 anos?
– Sim, eu fui durante alguns anos seguidos, embora não pudesse jogar. Eu só queria sentir o ambiente e ver todos os amigos que conheci por causa do poker online. Às vezes eu andava entre as mesas e os seguranças vinham pedir meus documentos. Eu precisava me esconder nas salas de descanso dos jogadores, que naquela época eram abertas pelas maiores salas. No Main Event eu sempre tinha cavalos. Essas viagens eram muito divertidas.
– Você convivia com outras jogadoras?
– Não, tanto na vida quanto no poker eu quase sempre tive amigos homens. Sempre foi mais fácil para mim. Eu respeito muito a Liv Boeree, sempre tivemos uma boa relação. Com a Vanessa Selbst também tinha uma relação amistosa, mas nunca fomos amigas próximas. Eu sou introvertida, e espaço pessoal é muito importante para mim. Por isso eu nunca alugava casa com outros jogadores, sempre ficava em hotel para viver sozinha. Durante uma World Series, fiquei 30 dias no Wynn e depois levei um susto com a conta. Mais tarde comprei um apartamento em Las Vegas e passei a viver entre a Noruega e os Estados Unidos. Eu não podia ficar nos EUA por mais de 180 dias por causa do visto.
– Foi difícil a transição do online para o live?
– Eu conhecia meus pontos fortes e confiava totalmente neles. Tentava não pensar em live tells e me concentrava em como os adversários apostavam, nos sizings e coisas desse tipo.
– Você sabe o que são solvers?
– Tenho uma ideia. Comecei a voltar a assistir conteúdo de poker, sei que os jogadores mais fortes usam isso, mas não acho que eu mesma vá estudar em software. Depende dos seus objetivos. Se você quer virar um reg de cash 6-max online, está claro que sem solver não dá para competir. Mas eu vou jogar live, onde ninguém está nem aí para nada, ninguém sequer pensa em ranges. Acho que o bom e velho exploit vai ser mais do que suficiente.
– Fale sobre os seus primeiros passos no live.
– O primeiro torneio da minha vida foi em Aruba. Acho que era uma série da WPT, e eu tinha ganhado um satélite online. O torneio era organizado pela Ultimate Bet, e foi lá que conheci o Hellmuth. Eu tinha acabado de fazer 18 anos, levei minha mãe comigo, e nós duas assistimos ao Phil jogando golfe. Ele nos convidou para acompanhá-lo, nós fomos com ele pelo campo, conversamos bastante, foi muito legal. No Main Event eu cheguei ao top 40, foi um min-cash, mas ganhei uma confiança enorme. Percebi que tudo o que eu fazia no online funcionava também no live, não precisava inventar nada novo. Um ano depois venci o Main Event da WSOP Europe, e é surpreendente que ninguém tenha batido meu recorde até hoje. E dois meses depois fiquei em segundo lugar no Main Event do EPT Dublin.
– Em Londres você ganhou £1 milhão, que na época eram cerca de $2 milhões?
– Sim, mas muita gente esquece que eu não jogava totalmente por mim e não fiquei com a quantia inteira. 50% foram para os backers e 50% ficaram com a Receita norueguesa. No fim, eu fiquei com metade da metade.
– Como essa vitória afetou sua carreira?
– No primeiro dia do torneio eu já tinha começado a discutir um contrato com a Betfair. Depois da vitória acertamos todos os detalhes, e eles me ofereceram condições muito boas. Fiquei com eles por três anos. (Nota do editor: Annette até chegou a participar de uma série da Betfair Live em Kiev.) Fiquei satisfeita com tudo, embora nem sempre me sentisse confortável. Eu só queria jogar poker, mas precisava dar entrevistas, participar de gravações. Para uma garota tímida da Noruega, tudo aquilo era muito incomum.
– Os fãs também te perseguiam?
– Felizmente, eu nunca tive histórias malucas com stalkers. No máximo, vinham pedir autógrafo ou foto. As redes sociais ainda não eram tão populares quanto hoje.
– Em uma entrevista de 2011, você disse que gostaria de jogar a vida inteira. O que aconteceu? Você simplesmente deixou de amar o poker?
– Acho que muita gente percebeu que, desde então, eu emagreci bastante. No fim da minha carreira no poker eu sofria de transtorno alimentar, e isso me impedia de me concentrar no jogo, o que afetava meus resultados. Na mesa, eu só pensava em comida. Para quem nunca passou por isso, é muito difícil explicar o quanto isso é complicado. Em determinado momento eu parei de jogar, achando que seria uma pausa curta. Mas a luta contra o transtorno alimentar levou vários anos, e não posso dizer que resolvi isso completamente. Tentei voltar, mas o jogo já não despertava as mesmas emoções. “Por que jogar se você não sente prazer?”, perguntei a mim mesma, e acabei largando o poker de vez.
– Depois disso você passou a se dedicar seriamente ao esporte e à dieta?
– Sim, perdi 20 kg, mas por causa do treino com barra começaram os problemas nas costas. Não foi uma lesão repentina, mas a dor foi aumentando aos poucos. Fiquei muito chateada, porque eu gostava muito de treinar, ainda mais vendo meu progresso constante. Mas precisei parar com os pesos pesados, e até hoje tenho medo de levantar qualquer coisa muito pesada.

– Depois você migrou para o YouTube e criou um canal sobre maquiagem.
– Sim, eu também gostava muito disso. Trabalhei com YouTube por 7 anos, tenho vários canais com milhares de vídeos. Tenho um canal com reviews de hotéis de Las Vegas, um canal sobre moda. Mas dois anos atrás me separei do meu marido, com quem fiquei 10 anos, e depois disso perdi o interesse em produzir conteúdo. Nos últimos dois anos fiquei meio sem rumo, sem saber o que fazer da vida. Acho que esse é um dos motivos pelos quais decidi voltar ao poker. Uma tentativa de superar a crise da meia-idade. Afinal, é preciso sair de casa de vez em quando. Agora o poker voltou a me dar prazer, eu me lembrei de por que jogava tanto na juventude. A pausa no poker certamente era necessária, mas talvez tenha durado um pouco mais do que deveria.
– Os editores me contaram que, em janeiro, você entrou ITM num torneio de $150 no Orleans. Como foi parar lá?
– Eu adoro Scrabble, jogo duas vezes por semana em um clube. Temos uma comunidade excelente. Um dos jogadores disputa MTTs baratos. Eu disse a ele que planejava voltar a jogar, e ele me chamou para ir junto.
– As pessoas ainda te reconhecem?
– Sim, e eu fiquei em choque. Minha primeira sessão foi em dezembro passado, no South Point, e eu estava certa de que ninguém me reconheceria. Mas as pessoas na mesa começaram a me olhar e cochichar. “Tem alguma coisa errada, rapazes?”, perguntei. Um deles disse que já tinha me visto em algum lugar, e outro perguntou: “Você não é a Annette?”
– O que você gosta tanto em Vegas? Por que não foi embora mesmo depois de encerrar a carreira no poker?
– Aqui eu vejo o sol todos os dias. Para entender minhas emoções, é preciso passar metade da vida na Noruega, onde chove ou neva 300 dias por ano, e o céu está sempre encoberto. No verão, claro, faz calor demais, mas ainda assim é melhor do que neve.
– Vamos te ver na World Series?
– Ainda não sei. Eu não tenho a meta de jogar torneios caros para provar alguma coisa. Pretendo focar no cash. Se eu conseguir bater os limites iniciais, subo. Eu até poderia me permitir jogar torneios caros, mas não vejo sentido nisso. Uma downswing de dezenas de milhares de dólares me causaria estresse demais.
Hoje moro perto do South Point, então jogo basicamente lá. Mas em breve vou me mudar para mais perto da Strip e vou jogar bastante, só que apenas nos limites que forem confortáveis para mim.
– Você disse que ficou 9 anos sem acompanhar o poker?
– Sim, eu nem sei quem ganhou o Main Event da WSOP nesse período. Sabe quando um relacionamento termina mal? As pessoas fazem de tudo para esquecer e tiram da vida qualquer lembrete. Não vou dizer que tive uma relação ruim com o poker, mas naquele período eu realmente precisava apagar isso totalmente da minha vida.
– Nesse torneio recente no Orleans você ficou em 6º lugar e ganhou $431. Você percebeu o quanto o jogo mudou?
– O que mais me impressionou foi o quanto todo mundo joga mal. Eu achei que seria muito mais difícil. Claro que era um torneio barato, com muitos recreativos, mas mesmo assim eu esperava mais.
– Por que você decidiu focar no cash?
– Eu tentei jogar cash quando era mais nova, mas nunca deu certo. Parecia que aquele formato não era para mim. Agora minha abordagem em relação ao poker mudou, e para mim a cash game é um desafio específico. Eu realmente quero mostrar um bom resultado. Posso estar errada, mas me parece que no cash a variância é menor. Além disso, nos torneios eu já conquistei tudo.
– Que conteúdo de poker você está assistindo?
– As streams da Hustler. Três semanas atrás eu não sabia quem era Alan Keating, e agora ele é meu ídolo. Assisto Hungry Horse, o canal do Charlie Carrel e alguns blogueiros menos conhecidos. Gosto muito da Abby Poker. Ela não me conhece, mas, se algum amigo dela estiver vendo isso, diga que eu adoraria conhecê-la.
Alguns dias depois da primeira entrevista, Craig e Annette voltaram a conversar. Obrestad contou que os organizadores da WSOP Europe entraram em contato com ela e a convidaram para ir a Praga.
– Eu sei que os organizadores costumam convidar jogadores populares e querem que eles gravem vlogs ou façam algum conteúdo desse tipo. Eu já estava pronta para dispensá-los e dizer que isso não me interessava. Mas eles disseram: “Queremos apenas que você venha, jogue o torneio feminino e o Main Event. E de quebra anuncie o ‘Shuffle up and deal’”. Eu perguntei quanto do meu próprio dinheiro eu teria que investir. Eles responderam: nada. Naturalmente, eu aceitei. Agora estou jogando cash o dia inteiro, quero acumular o maior número possível de mãos. Em Praga também vou ver minha mãe, ela prometeu ir da Noruega por alguns dias.
Nota do editor: o torneio começou em 3 de abril, às 06:00, no horário de Brasília. Ele foi aberto por Annette Obrestad ao som de “Ecstasy of Gold”, de Ennio Morricone, trilha do lendário filme “Três Homens em Conflito”.