Um dos principais regs do poker online nos anos 2000 e fundador do GTO Lab, Jonathan Jaffe conta sobre seus primeiros passos no Limit Hold’em e nos HU SNG, um semestre praticamente inútil na faculdade e métodos incomuns para sair do tilt.

Era o verão de 2003. A ESPN transmitia o Main Event da WSOP. O programa tinha uma trama principal, histórias paralelas interessantes e um elenco de personagens incrivelmente caricatúrios. Rapidamente, tornei-me fã.

No centro das atenções estava Chris Moneymaker, um contador de 27 anos do Tennessee que havia conquistado sua vaga no Main Event por meio de um satélite online de apenas $86. Em um momento, ele se agigantava diante da mesa usando óculos escuros e blefava com sucesso contra profissionais lendários. No seguinte, aproximava-se do pai, sentado na arquibancada, e contava que quase havia se borrado de medo. Chris era um verdadeiro homem do povo, um herói no qual qualquer pessoa podia se enxergar.

52146-1787487549.webpO famoso blefe de Moneymaker no heads-up pelo título.

Em apenas sete episódios, os diretores da ESPN transformaram milhares de mãos em um coquetel inebriante de all-ins imprevisíveis, blefes atrevidos e conversas fascinantes nas mesas. Era impossível parar de assistir.

Um jogo que até então não significava para mim mais do que Banco Imobiliário ou Batalha Naval instantaneamente se transformou na coisa mais importante da minha vida. E eu não estava sozinho. Se você estava no ensino médio naquela época e gostava de esportes, provavelmente também se apaixonou pelo Texas Hold’em.

O poker se espalhou imediatamente por Longmeadow, Massachusetts, minha cidade natal. Em menos de um ano, o não oficial Longmeadow Poker Tour — LPT — já realizava várias vezes por semana torneios de $5 com rebuy. Cenas semelhantes aconteciam nas cozinhas de toda a América.

Começamos com cash games baratos entre amigos e conhecidos, mas os torneios rapidamente assumiram o protagonismo. Um cash game não tem um final propriamente dito. Ele termina naturalmente quando as pessoas se cansam e voltam para casa. Nos torneios, é diferente: existe um vencedor, o único jogador que termina com todas as fichas dos adversários. Ser o único vencedor é muito mais gratificante do que simplesmente encerrar uma sessão no lucro.

As vitórias são raras, mas, durante o jogo, surgem constantemente emoções intensas que fazem você retornar às mesas repetidas vezes: a empolgação febril ao olhar para suas cartas e encontrar dois reis; o prazer vingativo de revelar um blefe bem-sucedido; e as montanhas de fichas verdes — as menos valiósas — mostrando quem mandava naquela mesa ao roubar constantemente os blinds e antes.

Não sabíamos absolutamente nada sobre as sutilezas da estratégia, mas isso não nos impedia de gritar uns com os outros e revirar os olhos por causa das bad beats.

Seis meses depois, os torneios do LPT alcançaram outro nível. Os fields aumentaram, o buy-in subiu para $10 e, além de colegas de escola e conhecidos, começaram a aparecer completos desconhecidos com os quais você jamais passaria uma noite de sexta-feira em qualquer outra situação.

Isso também tinha seu encanto. Diferentemente das festas que exigiam convite, o poker estava aberto a todos. Quanto mais participantes houvesse, melhor seria para todo mundo.

Durante algumas horas, a hierarquia social tradicional ficava em segundo plano. Não que deixássemos de distinguir um calouro de um formando ou o astro dos esportes de um solitário sem amigos. Durante o torneio, porém, a coisa mais importante era o tamanho do seu stack.

Para um garoto que percebia que o cenário social começava a mudar de uma maneira que não o favorecia, aquilo era uma verdadeira válvula de escape.

Rapidamente ficou claro que alguns participantes tentavam apenas ver flops e torciam para ter sorte, enquanto outros — eu incluído — esforçavam-se para superar os adversários e reduzir a influência do acaso. Algumas pessoas demonstravam mais talento para isso, mas nenhum de nós compreendia a verdadeira profundidade daquele jogo.

Na mesma época, comecei a experimentar as mesas de dinheiro fictício do PokerStars. Os jogos a dinheiro real também estavam a apenas um clique de distância, mas, para um adolescente de 15 anos sem cartão de crédito, a única maneira de depositar era por meio de uma ordem de pagamento enviada pelo correio. O PokerStars exigia um depósito mínimo de $200.

Eu tinha aproximadamente $600. Colocar um terço daquele dinheiro no poker parecia exagerado. Em determinado momento, porém, a tentação falou mais alto.

Fui ao banco, aproximei-me do atendente e, tentando não levantar suspeitas, pedi que enviasse $200 para o endereço de uma empresa com nome neutro que o PokerStars havia criado especificamente para esse tipo de operação.

Durante os dias seguintes, consultei minha conta repetidas vezes. Finalmente, o dinheiro chegou.

Saldo em dinheiro real: $200,00.

Fiquei tão feliz que poderia ter chorado, mas não havia tempo para isso. Abri duas mesas de Limit Hold’em $1/$2 e fiquei grudado na tela durante oito horas. Quando encerrei a sessão, havia ganhado $250.

Eu nunca tinha conseguido tanto dinheiro em tão pouco tempo. Foi assim que o poker me conquistou pela segunda vez.

Naquela mesma noite, saquei $200 para garantir que nunca mais ficaria no prejuízo. Durante o ano e meio seguinte, ganhei aproximadamente $30.000, jogando principalmente Limit Hold’em e acrescentando ocasionalmente torneios de uma mesa e HU SNG.

Eu não tinha consistência na escolha das modalidades, uma estratégia refinada ou um treinador. Nada disso, porém, me impedia de ganhar dinheiro regularmente nas mesas.

Ao mesmo tempo que minha carreira no poker florescia, minha vida acadêmica entrava em declínio. Eu estava no 11º ano — o penúltimo do ensino médio nos Estados Unidos — e, em apenas dois meses, fui transferido da turma de matemática avançada para a de reforço.

Eu nunca havia me interessado muito pelos deveres de casa, mas agora os ignorava completamente. Minha média escolar despencou, acabando com minhas chances de entrar em uma boa faculdade.

Certo sábado, atendendo a uma exigência da minha mãe, meu pai me arrancou da frente do computador, colocou-me no carro e fomos visitar algumas faculdades da região.

Quando chegamos ao campus da Westfield State College, a instituição mais próxima de nossa casa, fomos recebidos por uma funcionária que se preparava para conduzir uma visita guiada para futuros alunos. Ela perguntou se gostaríamos de participar.

Olhei para meu pai com uma expressão sombria e disse:

“Se não fizermos a visita e formos comer em algum lugar, aceito estudar nesta faculdade.”

Estranhamente, ele concordou. Poucos minutos depois, estávamos devorando Whoppers no Burger King.

Desde o princípio, eu sabia que meu lugar não era na Westfield State. No primeiro dia, todos os calouros foram convocados para uma orientação obrigatória sobre as regras de convivência nos alojamentos.

Antes do início da reunião, funcionários do campus passaram de quarto em quarto para verificar se ninguém estava tentando escapar. Eu me escondi deles dentro do armário.

Não queria que os blinds devorassem meu stack em um torneio 6-max de $530 do WCOOP por causa de uma reunião idiota.

A faculdade, porém, não foi completamente inútil para mim. De alguma maneira, o sistema automatizado de seleção de colegas de quarto me colocou no mesmo dormítório que um garoto chamado Chad Walker. Ele provavelmente era o único jogador de poker sério e lucrativo de toda a faculdade.

Nem ele nem eu havíamos incluído o poker entre nossos interesses no formulário de admissão.

Logo na primeira semana, Chad e eu fomos convidados para um cash game que acontecia no mesmo alojamento. Nick Petrangelo também estava lá. Ele não estudava na Westfield, mas havia sido levado por um amigo que organizava o jogo.

Os detalhes daquela noite desapareceram da minha memória. Só me lembro de que Nick perdeu, Chad ganhou muito e eu terminei próximo do zero.

Não gostei muito de Nick, e o sentimento claramente era recíproco. Quem poderia imaginar que, com o passar do tempo, aqueles dois se tornariam as pessoas mais importantes tanto para minha carreira no poker quanto para minha vida?

52147-1787487931.webpChad e Nick em 2007

No geral, apesar de ter encontrado um verdadeiro amigo em Chad, eu não gostava da faculdade. Todas as noites, reclamava com meu pai pelo telefone. No fim do semestre, a resistência dele finalmente cedeu: fui libertado das obrigações acadêmicas e recebi autorização para desenvolver uma carreira profissional no poker.

No início de 2006, eu tinha 18 anos, morava sozinho e aproveitava a liberdade com a qual sempre havia sonhado.

Desde que consigo me lembrar, sempre odiei viver de acordo com horários. Despertador, dever de casa, hora obrigatória para dormir, estudos obrigatórios… Um pesadelo! Finalmente, eu era completamente responsável por minha própria vida.

Naquela época, jogava simultaneamente quatro mesas de Limit Hold’em 6-max $5/$10 no PokerStars. Fiz uma estimativa aproximada do meu ganho esperado com uma jornada semanal de 40 horas e cheguei ao valor de $60.000 por ano.

Algumas semanas depois de deixar a faculdade, experimentei jogar HU SNG com mais seriedade. Rapidamente percebi que tinha talento para aquilo e que o formato provocava emoções muito mais intensas do que o Limit Hold’em.

Durante o ano seguinte, transformei-me de grinder de Limit Hold’em em regular de HU SNG com buy-ins de $100 e $200.

Eu não sabia nada sobre trackers com HUD ou sites como o Sharkscope. Registrava meus resultados em post-its. Tinha uma compreensão rudimentar sobre variância e, por isso, reuni estatísticas para avaliar a influência da sorte e acompanhar meu progresso.

Cada partida terminava em vitória ou derrota. Depois de cem confrontos, subtraía o número de derrotas do total de vitórias, multiplicava o resultado pelo buy-in e descontava o rake.

Minha confiança aumentava ou despencava de acordo com o resultado de cada uma dessas sequências.

Sim, eu praticamente não sabia nada sobre o universo no qual havia decidido construir minha carreira. Também não demonstrava nenhum interesse em ler fóruns, livros ou outros conteúdos de estratégia disponíveis na época. Quase nunca conversava sobre o jogo com outros regs.

Eu era o exemplo máximo de um reg que jogava apenas no feeling. Se tentasse explicar em voz alta o que pensava sobre o jogo, provavelmente soaria como um discurso incoerente. No mundo do poker, eu era um lobo solitário.

Eu adorava meu novo estilo de vida. Minha jornada de trabalho terminava por volta das três horas da madrugada. Depois disso, sempre tomava um banho, que funcionava como uma espécie de ritual de descompressão.

Enquanto a água escorria pelo meu corpo, recordava os acontecimentos daquele dia e pensava no que poderia ter feito melhor. Também refletia sobre meus resultados.

No início, um dia muito bom podia me render entre $2.000 e $3.000. Lembro-me claramente da euforia que sentia nessas ocasiões. Ela poderia ser resumida aproximadamente assim:

“Esta é realmente a minha vida?!”

Quando perdia entre $2.000 e $3.000, enfrentava uma tempestade emocional. Ficava irritado comigo mesmo e com a injustiça do mundo. Oscilava entre uma leve sensação de ser especial e uma profunda vergonha.

Em algum momento, decidi que não deveria demonstrar emoções nem mesmo quando ninguém pudesse me ver. Por isso, qualquer manifestação de raiva ou tristeza imediatamente me fazia sentir vergonha por minha falta de autocontrole.

Evidentemente, eu não compreendia muito bem o conceito de controle emocional.

Essa imaturidade, de maneira surpreendente, levou-me a uma prática que funcionou como um verdadeiro milagre durante algum tempo.

Eu não me permitia extravasar a raiva e a tristeza provocadas pelas derrotas. Em algum nível, porém, entendia que precisava me acalmar antes de ir para a cama.

Decidi, então, que minha raiva e minha tristeza eram apenas manifestações de absoluta ingratidão, provocadas pela perda de perspectiva. Afinal, quando analisava a situação de maneira mais ampla, eu estava construindo uma carreira de sucesso em um jogo que amava profundamente.

Para sentir isso de verdade, inventava uma vida alternativa para mim, na qual ainda estava na faculdade e seguia o caminho tradicional.

Imaginava-me estudando para uma prova de uma disciplina mortalmente entediante. Imaginava acordar cedo em um quarto apertado, dividido com outras duas pessoas, para atravessar o campus e assistir a uma aula de filosofia que odiava.

Imaginava controlar cada dólar gasto com comida e gasolina e avaliar criticamente todas as compras com base em um saldo bancário de apenas três dígitos.

Entre cinco e dez minutos nessa realidade alternativa eram suficientes para me trazer de volta ao mundo no qual eu tomava banho em meu próprio apartamento e a pior coisa que poderia acontecer era perder, temporariamente, uma quantia de dinheiro que jamais imaginara possuir naquela idade.

Com um sentimento de gratidão e certa sensação de privilégio, eu abandonava aquele mundo de sofrimento e saía do banheiro com o ânimo renovado.

Esse método funcionou durante algum tempo, talvez alguns meses, mas depois deixou de produzir efeito. A história perdeu a força e a liberdade começou a parecer algo natural.

No fim, passei a sentir um pouco de vergonha do meu próprio comportamento, principalmente por me colocar de maneira tão explícita acima de outras pessoas apenas para encontrar algum alívio emocional.

Precisei tornar o método mais intenso.

Para realmente provocar uma reação, comecei a imaginar pessoas próximas à beira da morte. Suas vidas terminavam de maneiras diferentes — pouparei vocês dos detalhes — e, em seguida, eu imaginava os funeráis e o período de luto, que durava semanas ou meses e mudava para sempre minha rotina.

As fantasias sempre terminavam em lágrimas, e eu gostava disso. Havia passado tanto tempo afastado daquela parte de mim que poder chorar livremente trazia um alívio enorme.

Aquelas noites marcaram o início de um período de amadurecimento emocional do qual eu precisava desesperadamente. Ao imaginar a perda das pessoas que amava, concedia a mim mesmo — e à minha abordagem distorcida das emoções — permissão para chorar.

Eu acreditava que, se estivesse chorando por pessoas queridas, aquilo seria perfeitamente aceitável segundo minhas regras internas e até mereceria respeito.

Somente muitos anos depois percebi que, na realidade, chorava pelo medo de não conseguir me tornar um profissional, pela vergonha das decisões erradas e de ter sido superado pelos adversários, além da frustração provocada pela injustiça do jogo.

Eu chorava porque, naquela noite, a justiça não havia prevalecido — porque eu havia perdido.

Meu primeiro ano no poker estava chegando ao fim. Eu havia encontrado um ritmo confortável, disputado pouco menos de 2.500 HU SNG e ganhado os mesmos $60.000 que havia projetado.

Paralelamente, jogava ocasionalmente alguns MTTs no PokerStars e participava de cash games ao vivo. Dessa forma, meus ganhos totais no poker ultrapassaram $82.000.

Eu havia me tornado profissional! A vida tinha entrado nos eixos.

O ano de 2006 foi marcado por uma renda estável e pela descoberta da minha verdadeira vocação.

O ano de 2007 seria marcado por provações. Ele me apresentaria tanto a picos enlouquecedores quanto a quedas devastadoras — os dois extremos que formam a rotina de um jogador de poker.