Rob Kuhn acredita que, mesmo atualmente, vencer o Main Event ainda pode trazer muitos benefícios adicionais:

Será que os participantes da mesa final entendem a importância que uma vitória pode ter fora do poker?

Você se torna uma lenda.

Amplia seu alcance várias vezes.

Pode virar embaixador de uma grande sala de poker.

Em quanto vocês avaliariam uma vitória no Main Event, sem considerar a premiação?

Na minha estimativa conservadora, o campeão pode ganhar pelo menos $5 milhões, a menos que ele próprio decida se afastar do mundo do poker.

É claro que será necessário algum esforço para aproveitar a oportunidade. Depois de ganhar $10 milhões, porém, muita gente simplesmente não vai se importar com isso.

— Cinco milhões? — questionou Will Jaffe, acompanhando a publicação com uma foto de Jonathan Tamayo, que, tanto antes quanto depois da vitória, manteve a vida discreta de um grinder pouco conhecido.

51990-1785360269.webp

— Talvez fosse possível ganhar isso há 15 ou 20 anos, mas hoje eu nem entendo de onde sairia tanto dinheiro — afirmou Aaron Barone.

— Você exagerou claramente — opinou Joe Cada, campeão mundial de 2009 — Caso a pessoa não apresente resultados consistentes em outras séries depois de vencer o Main Event, eu estimaria esse valor em $250 mil. E isso ainda seria uma avaliação muito generosa. Também seria necessária uma presença intensa nas redes sociais. Muita coisa depende da exposição que você já tinha antes da vitória e do que consegue fazer depois. Apenas o título não é suficiente.

— Lol, cite pelo menos um campeão do Main Event, com exceção de Espen, que se esforçou muito, mas conseguiu um contrato relativamente modesto, que tenha ganhado algum dinheiro significativo explorando a própria imagem depois da Black Friday — pediu Matt Berkey.

— Acho que o Grinder teve um bom ano, e isso está longe de acabar — respondeu Kuhn, referindo-se a Michael Mizrachi.

1. Verdade, mas estamos falando do Grinder, que já era uma marca consolidada.

2. Apostaria com prazer que, durante o ano, ele ganhou menos de $500 mil com contratos e que, daqui a quatro anos, já não terá patrocinadores.

— Acho que a estimativa justa seria de menos $800 mil — afirmou Mike McDonald, sendo bastante realista. — Algumas pessoas tentarão simplesmente roubar seu dinheiro, outras vão convidá-lo para jogos duvidosos, e outras pedirão backing ou investimentos em suas ideias de negócios.

— Quem não fizer esforço algum não ganhará absolutamente nada. Mas a valorização máxima pode facilmente ultrapassar os $100 milhões — declarou Alec Torelli, apresentando uma opinião bastante controversa.

— Eu gostaria de ouvir um plano detalhado até mesmo para o cenário mais otimista — disse Aaron Barone, interessado.

Alec apresentou instruções detalhadas e elaborou um plano com vários pontos. Em primeiro lugar, recomendou investir os $10 milhões com rendimento de 10%, o que, em 30 anos, resultaria em um EV de $82 milhões. Alec não explicou como isso se relacionava às condições apresentadas por Rob Kuhn em sua publicação inicial.

— Estou chocado com algumas respostas — afirmou David “ODB” Baker, que também estava otimista. — Eu apostaria que uma vitória me renderia mais de $5 milhões, e olha que sou velho.

— Essa publicação inteira era ragebait — conteúdo criado propositalmente para irritar as pessoas e provocar engajamento —, e eu mordi a isca por completo — concluiu Matt Berkey algum tempo depois.

— Eu também estou completamente chocado relendo alguns comentários — concordou Jonathan Tamayo.

— Espero que você tenha feito isso enquanto contava os milhões recebidos de seus patrocinadores.

— Mas será que isso é realmente ragebait? — questionou Adam Levy. — É claro que $5 milhões é exagero, mas, caso você tenha algum valor de marketing, pessoas e marcas procurarão você por conta própria.

Berkey mostrou surpresa:

Quem? Quem vai procurar? Quais contratos com marcas os campeões do Main Event conseguiram nos últimos 13 anos? Riess, Jacobson, McKeehen, Blumstein, Qui Nguyen, Cynn, Ensan, Koray, Espen (somos amigos, então conheço as condições dele; são melhores do que as dos outros, mas ainda assim não são grande coisa), Weinman, Tamayo?

Essa lista tem aproximadamente a mesma quantidade de americanos e europeus. Os europeus, inclusive, ainda possuem uma grande variedade de salas de poker online que, em teoria, seriam perfeitas para ações de marketing.

O Grinder é a única exceção, porque já tinha um nome consolidado e viveu um ano fenomenal. Mesmo o contrato dele, porém, é bastante modesto quando comparado ao de jogadores que trabalham há muito tempo como embaixadores, como Koon, Fedor, Pads, DNegs e outros.

Ninguém vai pagar aos novos campeões. A vitória deles tem um prazo de validade de exatamente 365 dias. Vencer o Main Event vale $10 milhões antes dos impostos, além de alguns trocados. Não entendo de onde surgem tantas ideias ilusórias sobre a economia da nossa indústria.

— Mas o poker voltou à ESPN, a Solana se tornou a principal patrocinadora e a WSOP acabou de investir muito dinheiro para transmitir várias mesas ao mesmo tempo. Há sempre alguma movimentação acontecendo ao redor do poker. Vamos imaginar que, durante os próximos cinco anos, o hype não desapareça e que o Main Event seja vencido por alguém que não tenha medo das câmeras. Nessas condições, ganhar outros $5 milhões ao longo da carreira ainda parece uma loucura? Na minha opinião, não.

51991-1785360807.webp

Tudo isso é 100% mérito da GG. Você entende que é ela quem paga à ESPN e à Omaha Productions pela produção e transmissão do Main Event. Há alguns anos, ela comprou a WSOP junto com toda a marca, e todos os direitos comerciais sobre o campeão também pertencem à empresa.

Qual seria o sentido de investir ainda mais no vencedor? Caso assinem algum contrato com ele, provavelmente será por um valor irrisório. Quanto aos patrocinadores externos, estabelecer contato com eles também é responsabilidade da GG, com o único objetivo de reduzir custos. A ESPN não vai trazer Ray-Ban ou Busch Beer para as transmissões. Tudo isso é responsabilidade da GG.

Já deveria ser evidente há muito tempo que, se nem mesmo os maiores nomes da nossa indústria, como DNegs, Hellmuth e Moneymaker, são especialmente atraentes para marcas populares, um campeão aleatório do Main Event também não mudará nada.

Enquanto isso, os primeiros episódios do Main Event foram exibidos pela ESPN dos Estados Unidos. A primeira transmissão foi assistida por 174 mil espectadores, enquanto a segunda teve 186 mil.

Mais de 500 mil pessoas acompanharam a vitória de Chris Moneymaker em 2003. O recorde, provavelmente eterno, foi estabelecido em 2008. A mesa final disputada pelos europeus Peter Eastgate e Ivan Demidov foi assistida por 2,4 milhões de pessoas nos Estados Unidos. As demais transmissões daquele ano também tiveram audiências expressivas, entre 1 milhão e 2 milhões de espectadores.

Depois de 2010, os índices de audiência de todas as transmissões da ESPN nos Estados Unidos começaram a cair de maneira constante, e o poker não foi uma exceção. Em 2019, o canal encerrou a parceria com a WSOP. A série foi transferida para a PokerGO, mas a colaboração com a ESPN foi retomada neste verão.

— Apenas 174 mil espectadores assistiram ao primeiro episódio da WSOP — lamentou um fã de poker no Twitter. — Ficou em 119º lugar no ranking dos programas de televisão. Mais pessoas assistiram a “Press Your Luck”, na GSN, “Squatters”, na A&E, “Ms. Pat Settles It”, na BET, reprises de “Friends”, “Everybody Loves Raymond”, “Family Guy”... Parece que esse episódio nem sequer foi o evento de poker mais assistido de 2026…

A publicação inspirou Matt Berkey a escrever mais um longo texto:

— Recentemente, assisti ao podcast “This WAS SportsCenter”. Eles estão produzindo uma série nostálgica com pessoas famosas que ajudaram a transformar a ESPN em líder da indústria de transmissões esportivas. Em todos os episódios, o apresentador e os convidados lamentam que, no ritmo acelerado do mundo moderno, nada daquilo teria funcionado.

As redes sociais, os smartphones e os agregadores de notícias mudaram para sempre as regras do jogo. Hoje, não é apenas o conteúdo que importa, mas também a maneira como ele é apresentado. Não precisamos procurar muito longe por um exemplo. Por que Pat McAfee é tão popular atualmente? Porque ele tem acesso direto a insiders, atletas e informações de primeira mão. Tudo isso permite uma imersão maior no esporte, em vez de simplesmente acompanhar o placar final.

Digo tudo isso para destacar que a WSOP, e a cobertura de poker em geral, precisa desesperadamente de reformas. Eu não entendia por que todos ficaram tão empolgados quando anunciaram que o poker voltaria à ESPN. Da mesma maneira, não entendo por que agora todos estão tão decepcionados com a divulgação dos índices de audiência.

Vale lembrar como era a World Series no auge do boom do poker.

Em 2010, cheguei ao quinto dia do Main Event. Restavam 300 jogadores de um field de 7 mil. Quando entrei no Amazon Room antes do início do dia, duas mulheres se aproximaram de mim. Elas entrevistavam todos os jogadores que entravam no salão de poker. Estavam interessadas principalmente em pessoas jovens, com aparência de jogadores online, perguntavam o tamanho do stack e ofereciam a possibilidade de jogar usando um adesivo da Full Tilt Poker ou do PokerStars.

Aceitei a proposta da Full Tilt. Eles ofereceram $25 mil caso eu aparecesse na principal mesa televisiva e $10 mil por cada aparição na transmissão em uma mesa comum. Também prometeram um bônus pela mesa final, que dependeria da colocação alcançada.

Depois de sete dias exaustivos, fui eliminado na 42ª colocação. Na manhã seguinte, encontrei $85 mil na minha conta. Obrigado ao Grinder, ao lado de quem passei praticamente todo o Dia 7.

Durante as semanas seguintes, concedi entrevistas, participei de programas de rádio e cheguei até a aparecer em um telejornal local de Pittsburgh.

Quando os episódios da WSOP foram exibidos pela ESPN, passei da noite para o dia de um completo desconhecido para um jogador reconhecido.

Tudo isso aconteceu graças à ESPN, pelo menos era o que eu pensava.

Naquele momento, eu já jogava poker profissionalmente havia sete anos, mas ainda era muito jovem e não entendia como funcionavam os bastidores da nossa indústria.

Depois da Black Friday, passei a disputar cash games high stakes ao vivo — um tema que merece uma publicação própria — e comecei a enxergar o que acontecia por trás das câmeras.

O sucesso da World Series praticamente não dependia das transmissões da ESPN. Sim, na época, era o maior canal esportivo, mas muitos outros programas de poker também eram muito populares, embora fossem exibidos em canais menores: o WPT no Travel Channel, o High Stakes Poker na GSN e o Poker After Dark na NBC.

Full Tilt e PokerStars eram os principais patrocinadores de todos os programas de poker daquela época. As empresas pagavam pelas transmissões e pelos anúncios no horário nobre para atrair ao poker um público muito específico.

Não vou fingir que conheço todos os detalhes — embora saiba mais do que posso contar publicamente —, mas, em resumo, as salas pagavam à ESPN e a outros canais para que exibissem poker.

Durante a era de PokerStars e Full Tilt, os índices de audiência estavam no auge.

O poker ainda era uma forma de entretenimento relativamente nova, e o online representava uma oportunidade real de transformar um sonho em realidade de maneira instantânea. Era um sonho palpável, e isso atraía os espectadores mais jovens.

51989-1785360269.webp

A Black Friday mudou tudo. A responsabilidade pelos enormes custos passou para a WSOP, os serviços de streaming substituíram a televisão por assinatura e o público-alvo dos programas de poker deixou de ser composto por iniciantes interessados em aprender as regras. Em vez disso, passou a ser formado por fãs hardcore que queriam assistir a todas as mãos ao vivo.

A audiência diminuiu rapidamente, e não havia uma maneira simples de combater o problema. A WSOP foi obrigada a eliminar os custos das transmissões na ESPN. Assim começou a era da PokerGO.

Cary Katz sonhava em criar um equivalente do Golf Channel dedicado ao poker. O problema era que o mundo já começava a se afastar da televisão linear em direção ao conteúdo disponível sob demanda 24 horas por dia.

Em 2017, dois anos depois de sua criação, o canal Poker Central se transformou na PokerGO, com um serviço de assinatura paga.

Em 2019, o contrato da WSOP com a ESPN terminou, e uma das principais tarefas da direção da PokerGO passou a ser adquirir os direitos de transmissão da World Series. Não conheço todos os detalhes, mas parece que, inicialmente, a PokerGO apenas ajudava na produção. Depois de 2019, assumiu completamente a operação. No fim, Cary adquiriu os direitos de licenciamento sobre todo o conteúdo da WSOP: passado, presente e futuro.

Quase todos os programas estavam disponíveis apenas para assinantes, mas parte dos conteúdos editados continuava sendo exibido de graça. A PokerGO chegou a trabalhar com a CBS Sports, mas o poker recebeu os piores horários possíveis. Os programas eram transmitidos durante a madrugada, quando normalmente são exibidos infomerciais.

Naturalmente, os fãs de poker ficaram furiosos.

“Eles estão matando o poker!”

“O principal torneio do ano atrás de uma assinatura paga?!?!?”

“Com essa estratégia, nunca conseguiremos atrair novos jogadores.”

Nunca vi os dados financeiros da PokerGO, mas suspeito que a parceria com a WSOP tenha dado prejuízo.

Voltando aos dias atuais: por que a venda da marca WSOP para a GG e o retorno à ESPN geraram tanto hype?

A comunidade do poker recebeu o negócio com entusiasmo porque acreditou que a GG investiria valores comparáveis aos que Full Tilt e PokerStars destinavam ao poker no auge do boom.

O problema é que o poker moderno não é um mercado novo e ainda em formação. O público-alvo agora é completamente diferente, e o custo de aquisição de cada novo cliente ou espectador aumentou entre dez e 25 vezes em comparação ao que era há 20 anos.

O poker não é adequado para a televisão linear e não possui popularidade suficiente para ocupar entre oito e dez horas de programação com transmissões ao vivo.

Também não podemos esquecer que, atualmente, a GG nem sequer está disponível nos Estados Unidos.

Não acredito que, ao adquirir os direitos da WSOP, a GG tivesse os mesmos objetivos de suas antecessoras, Full Tilt e PokerStars, que direcionavam todos os esforços de marketing para atrair novos jogadores às suas salas de poker online.

Acredito que eles simplesmente quiseram ampliar de maneira significativa o reconhecimento de duas marcas ao mesmo tempo: WSOP e GG.

Caso consigam fazer isso e, eventualmente, obtenham uma licença para operar poker online nos Estados Unidos, poderão monopolizar tudo o que restou do nosso mercado, que já está consolidado há muito tempo.

Tudo isso é confirmado pela guerra tática contra o WPT. Primeiro, eles marcam sua série para dezembro. Depois, aplicam banimentos vitalícios a James Carroll e Jesse Yaginuma — jogadores que fizeram um acordo no heads-up de um torneio da WSOP por causa de uma promoção do WPT —, que acabaram se tornando danos colaterais na disputa territorial entre as duas empresas.

Chip dumping escancarado no heads-up por um bracelete: promoção com bônus de um milhão gera escândalo
Leia Leia

Nem estou afirmando que tudo isso seja ruim para o poker. Na minha opinião, porém, algumas dessas medidas provavelmente prejudicam o ecossistema. Estou apenas dizendo que tudo isso já aconteceu e que não importa se gostamos ou não.

O poker já teve o seu próprio “O Gambito da Rainha”. Isso aconteceu em 2003, quando um contador do Tennessee chamado Moneymaker transformou $35 em $2 milhões. Nem mesmo os melhores roteiristas de Hollywood conseguiriam criar uma história mais inacreditável.

Mãos Históricas: Chris Moneymaker x Sam Farha
Leia Leia