Salve, GT!

Já se passaram 15 anos desde o início da minha carreira como jogador e cerca de 10 anos como treinador de duas cartas.

O poker teve um grande impacto na minha vida: me deu uma base financeira, disciplina, a oportunidade de conhecer o mundo e viver em diferentes países, além de uma comunidade na qual encontrei alguns dos amigos mais próximos.

No início do caminho, os blogs de Inner e Elef me ajudaram a acreditar que era realmente possível ganhar dinheiro com poker. E no período em que passei quase um ano grindando NL100 e queria largar tudo, o blog do Forh foi uma grande motivação para não desistir e continuar.

No geral, decidi abrir um pequeno tópico de AMA, talvez minha experiência seja útil para alguém.

Antes de responder às perguntas, Jayser falou sobre um dos seus principais equívocos:

Durante toda a minha trajetória no poker, fui muito motivado por um objetivo que parecia final para mim: a independência financeira. Nos dias em que eu estava perto do burnout e literalmente odiava o poker, eu me obrigava a sentar nas mesas apenas relendo minhas metas financeiras.

Hoje vejo isso de outra forma. Esse objetivo é alcançável, mas não responde à pergunta “e depois?”. Mais do que isso, se você é uma pessoa que precisa de movimento, desenvolvimento e sensação de progresso (e normalmente são essas qualidades que ajudam a chegar lá), então, depois de reduzir drasticamente a carga de trabalho, acontece algo estranho: primeiro vem a euforia da liberdade, depois o vazio e um tédio profundo.

Se fosse possível “experimentar” antes a sensação de vida após atingir os objetivos financeiros, eu teria desacelerado bastante o ritmo do meu desenvolvimento no poker na fase final da carreira. Em vez de metas como virar top ou ganhar X, eu buscaria um sistema equilibrado: sem burnouts constantes, com esporte regular e sem sacrificar a vida social e o lazer.

– Depois de 15 anos de carreira, ainda sobrou amor pelo jogo?

– O amor pelo jogo em si, como era durante a carreira ativa, já não existe, embora às vezes eu ainda sonhe com sessões de poker. O interesse pela teoria varia e depende da quantidade de novos desafios. Por exemplo, foi muito interessante estudar jogos com ante em stacks deep quando jogava em aplicativos asiáticos. Quando surgiu o RocketSolver, o foco mudou para bomb pots, e depois de montar um PC potente, passei a me dedicar mais a pesquisas.

Meu perfil psicológico não é muito adequado para jogar poker. Para manter um bom nível, eu precisava pagar um preço alto em termos de saúde, me destruindo, suprimindo emoções e me transformando em um robô. Na época, não encontrei uma alternativa melhor, e essa abordagem funcionava, mas gerava muitos efeitos negativos fora das mesas.

– Pode explicar melhor o que quer dizer com “se destruir”?

– Nos primeiros anos, a maior dificuldade sempre foi a psicologia e o tilt. Aproximadamente uns 7 anos para resolver isso. Na época, trabalhar com um psicólogo nem era uma opção para mim; meu máximo eram os livros do Tendler e estudo por conta própria.

A melhor solução que encontrei foi suprimir emoções na mesa e me “robotizar”. Mas quando você aprende a reduzir suas emoções no jogo, esse efeito continua fora dele – diminui a empatia e, de forma geral, a intensidade das sensações da vida.

Hoje é um pouco mais fácil para os jogadores, mas não muito. Surgiram muitos psicólogos, mas a maioria é incompetente ou inútil, e alguns podem até ser prejudiciais. Isso não significa evitar psicólogos, mas é preciso selecionar com muito cuidado.

– Se não for suprimir emoções, qual é o caminho para lidar com o tilt?

– Encontrar um bom psicólogo que ensine a trabalhar com as emoções, não a suprimi-las.

– O que você quer dizer com “trabalhar com emoções”?

– É a habilidade de perceber a emoção no momento, entender o que a causou, não agir no automático e voltar a uma decisão consciente – ou seja, seguir a estratégia.

No tilt, após um gatilho (cooler ou erro), surge uma emoção (raiva, medo, frustração), que leva a uma ação impulsiva, como um blefe ruim por todo o stack, algo que você não faria em estado normal.

Trabalhar as emoções significa entender a cadeia: gatilho → pensamento/interpretação → emoção → impulso → ação,
e fazer uma pausa no momento: nomear a emoção, entender sua causa e então tomar a decisão com base na estratégia, não no impulso.

Depois de uma jogada em tilt, é útil perguntar: “Como um top reg com autocontrole exemplar (como Avr0ra ou fish2013) reagiria aqui? Por que eu reagi diferente? O que na minha interpretação está gerando o tilt?”

– Se você tivesse uma renda passiva de ~$20k e pudesse viver em qualquer lugar do mundo, quais três escolheria?

1. Portugal, Lisboa

(Abismo)

2. Austrália (Melbourne) ou Nova Zelândia (Wellington)

3. EUA (?)

Desde 2016 procurei um país para morar permanentemente e passei por mais de 10 países, vivendo de um mês a vários anos em cada um. Nada me pareceu melhor que um 6/10 no conjunto geral. Já escrevi sobre os prós e contras e sobre os impostos em Portugal.

Tudo é muito subjetivo. Se eu tivesse cerca de 20 anos e sem família, nunca escolheria Portugal, porque é difícil construir carreira e ganhar dinheiro do zero lá.

– Qual abordagem de ensino você considera mais eficiente?

– Ensinar o aluno a pensar por conta própria e desenvolver o que eu chamo de “inteligência de poker”, idealmente usando o método socrático.

Dar um algoritmo de tomada de decisão e um algoritmo de estudo que maximize o resultado por hora investida. Ensinar a questionar informações, não aceitar tudo como verdade, porque todos cometem erros.

Também é importante incluir aspectos fora do poker: rotina, sono, alimentação, otimização do cérebro e estado psicológico.

– Como você construiria a carreira hoje sendo um reg de NL100?

– Não entraria em um time nem pegaria backing. Procuraria um coach de poker e um psicólogo com experiência em atletas ou traders (TCC ou similar). Estudaria educação financeira – muitos acordos de backing exploram a falta de conhecimento financeiro.

Reduziria ao máximo o custo de vida até o bankroll cobrir o limite desejado.

Quase nunca vendi action na carreira. Comprei meu primeiro carro quando ele valia menos de 3% do meu bankroll. Primeiro construa o bankroll, depois o resto.

– Na época, muitos futuros tops tiveram dificuldades no NL100?

– Sim. Foi ali que apareceu uma grande camada de profissionais sólidos. A relação reg/fish piorou muito em comparação aos limites menores. Hoje ainda há o problema do rake alto em muitos sites. Table selection virou praticamente a habilidade número 1. Antes o poker era “nível médio”, hoje o NL100 é “hardcore”.

– O que te motivava além do blog do Forh?

– Simplificando: interesse pelo jogo + medo da pobreza. Houve períodos em que eu odiava o poker, mas foram poucos. Na maior parte do tempo eu gostava. Lembro de fases em que, depois de estudar teoria, eu mal conseguia dormir de ansiedade para testar novas ideias nas mesas.

– Que conselho daria ao seu eu do passado?

– Buscar mais equilíbrio entre trabalho e vida, e dar muito mais atenção à saúde e à psicologia.

– Pretende migrar para MTT?

– Pode ser uma boa para quem joga cash online. Para mim, não funciona. Nunca gostei de MTT nem de live.

– Seu sono melhorou depois de se aposentar?

– Melhorou bastante. O principal foi o fim do estresse crônico e do estilo de vida sedentário. Hoje não fico mais de 45 minutos sem me movimentar.

– Até que limite você morou com os pais?

– Até NL50, mais ou menos. Hoje, começando a carreira, a partir de NL100-200 eu dividiria moradia com outros jogadores para ganhar autonomia sem prejudicar o bankroll.

– Para quem joga NL100 e tem família, que outras áreas considerar?

– Se ainda gostar do poker (5/10 ou mais), tentaria migrar para o live. Não sei quais profissões intelectuais ainda existirão em 5–15 anos, já que muita coisa poderá ser substituída por IA.

– Poker pode virar vício?

– A maioria dos jogadores desenvolve dependência das “montanhas-russas” de dopamina. Outras atividades parecem sem graça em comparação.

Isso ajuda na motivação para jogar e ganhar dinheiro, mas tem efeitos negativos: burnout, desgaste do sistema nervoso, problemas de sono e apatia.

Um sinal de motivação saudável é jogar pelo interesse no processo e na estratégia, não por ambição ou adrenalina. Os melhores exemplos que conheci nesse sentido são Aurora e fish2013.

– Já enfrentou regs que te destruíam?

– Sim, mas a análise individual raramente ajudava porque eu não sabia estudar direito. Até NL200 isso não era tão crítico, porque havia muitos jogos. Evitar adversários muito fortes é uma boa ideia. Em alguns casos, esses jogadores depois se revelaram bots ou usando assistência. Muitos acabaram banidos.

– E se a pessoa gosta de jogar, mas odeia estudar teoria?

– Então a motivação é apenas o entretenimento. Isso não sustenta uma carreira profissional. Você não vai competir com quem passa horas em solvers e evolui constantemente.

– Como você investe seu capital?

– Sigo a filosofia de investidores como Buffett e Bogle: o mercado é eficiente na maior parte do tempo.

Conclusões:

  • Não tentar bater o mercado
  • Evitar fundos e “dicas” financeiras
  • Entender impostos e dividendos
  • Ler livros básicos de investimento
  • Montar uma carteira diversificada de ETFs e manter no longo prazo

Isso já é suficiente para obter resultados próximos ao mercado e superar a maioria dos gestores.

– É preciso ter inteligência acima da média para ter sucesso no poker?

– Inteligência é um conceito amplo. Para ganhar $2–4k por mês em 2026, não é preciso ser genial. Vai exigir mais trabalho do que antes, mas a barreira de entrada ainda é menor que em muitas outras profissões com retorno semelhante.

– Estudo sozinho ou curso?

– Nada substitui o estudo consistente por conta própria. O coaching serve para acelerar o processo: otimizar tempo, desenvolver pensamento, dar feedback rápido e oferecer suporte.

Hoje, o valor do coaching está menos no conhecimento em si e mais no algoritmo de estudo, na economia de tempo e no desenvolvimento da forma de pensar.

A teoria base (GTO) é estática. O que muda são os exploits, ideias e ajustes — todos construídos sobre fundamentos sólidos.