Uma única sessão de poker é capaz de mostrar o verdadeiro rosto de uma pessoa, tanto o seu quanto o de qualquer um dos seus oponentes.
Costumo aconselhar amigos a jogarem poker com pessoas com quem pretendem iniciar um negócio em conjunto, entrar em parcerias de longo prazo ou assumir outros compromissos sérios.
Não se trata de cartas ou nem de jogo. Bastam algumas horas à mesa de poker para entender como as pessoas pensam, reagem e se adaptam às circunstâncias em um ambiente de incerteza. O poker remove a “casca” das palavras e revela o caráter real do indivíduo. Tomada de decisões sob pressão. Reação às derrotas. Ele está disposto a ter paciência e esperar ou vai buscar o que quer usando força. Consegue diferenciar decisões ruins de um simples azar. Quão flexível é na tomada de decisões — agarra-se desesperadamente ao plano inicial ou muda a tempo para o melhor plano em novas condições. Todos esses padrões aparecem regularmente à mesa de poker — talvez com mais frequência e de forma mais evidente do que em qualquer outra atividade.
Comportamento diante da injustiça
Quem joga poker se depara regularmente com situações em que faz tudo certo e, ainda assim, perde. Talvez o oponente tenha feito um call ruim, mas foi recompensado com o único out. Ou o dealer cometeu um erro, e isso lhe custou um pote enorme. Existem muitas formas de perder após tomar a decisão correta, mas o mais interessante é o que acontece depois.
Alguns aceitam isso com calma, quase de forma meditativa. Entendendo que não podem controlar o resultado, eles se reajustam e jogam a próxima mão, adaptando a estratégia para jogar com short stack. Outros entram em discussões, se fecham completamente ou tentam forçar a ação para se recuperar o mais rápido possível. Na mesma situação, pessoas diferentes se comportam de maneiras completamente distintas.
O poker não recompensa quem busca justiça. Ele foi criado para quem sabe se adaptar rapidamente. No longo prazo, jogadores que não permitem que resultados injustos influenciem suas decisões seguintes mantêm a cabeça fria por mais tempo e colhem com mais frequência os frutos dos erros alheios. O mesmo vale fora da mesa de poker.
Seu negócio perde um grande cliente por razões que não dependem de você? Não adianta reclamar — isso já não pode ser mudado. O que fazer a seguir é o que importa. Alguns precisarão de uma semana para se recompor; outros entram em ação imediatamente e já no dia seguinte começam a colocar em prática um novo plano, baseado na nova realidade.
A capacidade de ter paciência quando você recebe cartas ruins
O poker testa não apenas sua reação a grandes derrotas pontuais, mas também se você consegue manter a disciplina quando simplesmente nada dá certo.
Você pode jogar perfeitamente por horas, dias, às vezes meses, e ainda assim perder. As cartas simplesmente não querem colaborar. Quando você tem uma mão forte, os oponentes dão fold. Quando você dá call, eles mostram uma combinação mais forte. Você toma uma decisão correta atrás da outra, mas continua perdendo dinheiro.
Essas situações também dizem muito. Alguns jogadores mantêm a paciência e seguem a estratégia original, mesmo quando ela não traz resultados. Outros perdem a tranquilidade e começam a mudar tudo. Passam a jogar mãos cada vez mais marginais, forçam a ação, porque não suportam simplesmente ficar sentados sem fazer nada. A impossibilidade de controlar o resultado os tira do sério.
O poker é adequado para quem sabe lidar com frustrações e valoriza recompensas de longo prazo. Ele favorece quem segue a estratégia correta até o fim.
Decisões corretas em carreira, relacionamentos e saúde normalmente não geram resultados imediatos. O mais difícil é continuar trabalhando com perseverança na direção escolhida, mesmo quando não há confirmações óbvias de que você está certo.

A perseguição ao que já não lhe pertence
Poucas coisas revelam tanto o caráter de uma pessoa quanto sua reação a um pote perdido. As fichas que você perdeu há cinco minutos valem exatamente o mesmo que as fichas à sua frente agora. No entanto, para muitas pessoas, isso não é verdade. Depois de perder um pote, elas desenvolvem subitamente um forte apego emocional às fichas perdidas. O desejo de recuperá-las o quanto antes torna-se tão avassalador que influencia as decisões nas mãos seguintes. É a personificação literal da falácia dos custos irrecuperáveis no mundo real.
Se você já jogou blackjack e dobrou apostas para se recuperar, ou operou na bolsa e, após perdas, abriu posições maiores e mais arriscadas, sabe do que estou falando.
A forma como esse desejo afeta o comportamento às vezes é até engraçada. Se o stack de um jogador cai de 10.000 para 5.000, ele considera que está no prejuízo e está disposto a arriscar para voltar aos 10.000. Mas se ele passou muito tempo jogando short stack com 2.500 e de repente dobrou para 5.000, entra em êxtase e se fecha ao máximo para proteger o que conquistou. O mesmo stack, mas com histórias diferentes — e reações completamente distintas!
Mas o poker não se importa com a sua história. Cada decisão é totalmente independente. O que importa é apenas o seu EV.
Esse padrão vai muito além do poker. Pessoas se agarram a empregos ruins por causa do tempo investido. Persistem teimosamente em ideias de negócio equivocadas nas quais já colocaram muito dinheiro. Tentam salvar relacionamentos que chegaram a um beco sem saída porque não querem admitir a derrota. Nesses casos, é útil fazer a seguinte pergunta: se eu estivesse entrando nessa situação hoje pela primeira vez, sem envolvimento emocional, mas sabendo tudo o que já sei, qual seria a minha decisão?
No poker, tente abordar cada mão como se fosse a primeira. Imagine que você acabou de sentar à mesa. Considere o field, sua energia e nível de concentração e tente decidir se faz sentido continuar jogando ou se é melhor levantar. E não importa se você acabou de triplicar ou perdeu metade do buy-in.

Compreensão do conceito de risco e recompensa
No poker, surgem regularmente situações em que o jogo ótimo exige que você coloque fichas no pote mesmo sabendo que vai perder com mais frequência do que ganhar. Um exemplo simples: há $100 no pote. Seu oponente aposta $25. Você pode dar call de $25 e ter a chance de ganhar um pote de $150 (seu investimento também conta). Isso significa que você precisa ganhar um pouco mais de uma vez a cada seis tentativas (16%), e o call será lucrativo no longo prazo.
Ao fazer esse call, na maioria das vezes você vai perder. As fichas irão para o outro jogador. As emoções vão sugerir que você cometeu um erro.
No entanto, se esse call vence o pote para você em 20% das vezes, a matemática o considera lucrativo e obrigatório, apesar das derrotas frequentes. Com o tempo, todos esses calls positivos se acumulam e passam a gerar dinheiro. O principal é não se desviar do jogo matematicamente correto. Porém, muitos têm grandes dificuldades com isso.
Eles querem certeza, uma confirmação imediata de que estão certos. Decisões corretas precisam trazer satisfação moral. Por isso, essas pessoas começam a evitar situações em que perdem com frequência e parecem tolas aos olhos dos outros.
Bons jogadores não são inclinados ao risco cego. Eles tomam decisões de longo prazo, cujos benefícios superam os prejuízos, e sabem que um fracasso pontual não diz nada sobre o valor esperado da linha como um todo. Essa habilidade é extremamente útil na vida cotidiana. Um novo negócio. Mudança de carreira. Investimentos. Relacionamentos. A capacidade de iniciar uma conversa no momento certo. Todas essas apostas são assimétricas. Assumimos riscos em busca de um resultado positivo raro, que pode mudar drasticamente nossa vida. Ao recusar o risco, sentimos segurança, mas na realidade começamos a regredir aos poucos.
O poker treina a habilidade de pensar em termos de expectativa no longo prazo, e não de emoções ou ganhos de curto prazo. Com o tempo, você entende cada vez melhor quais riscos valem a pena, e logo eles começam a trazer lucro.
Confiança ou ego?
O poker exige confiança. Uma pessoa insegura deixará passar regularmente oportunidades promissoras. Mas a linha entre confiança e um ego exacerbado é bastante tênue, e o poker ajuda perfeitamente a distinguir uma coisa da outra.
Alguns jogadores confiam em suas habilidades, mas não consideram impossível que possam cometer erros em determinados spots. Eles são atentos e se ajustam quando surgem novas informações. Não precisam provar nada aos vizinhos de mesa. Outros parecem confundir confiança com a obrigação de serem infalíveis. Ao perder uma mão, procuram um culpado — o oponente certamente fez algo errado! E não hesitam em dizer isso em voz alta.
Jogadores com o ego inflado têm dificuldade em mudar o jogo diante de novas informações. Eles deixam de aprender ou de se adaptar, se agarram a decisões antigas e não buscam alternativas. E o poker os pune por isso, porque o jogo e a meta mudam constantemente. Os truques de ontem deixam de funcionar amanhã. Para um jogador forte, confiança é acreditar no processo de tomada de decisão, e não a disposição de convencer todos ao redor da infalibilidade da própria estratégia. Um jogador forte está pronto para admitir que cometeu um erro, está aberto a isso e enxerga os erros não como uma ameaça à integridade de sua personalidade, mas como uma oportunidade de ajustar o pensamento de jogo e se tornar ainda mais forte.
Nos negócios, na política e nos relacionamentos, a confiança fortalece a confiança mútua, enquanto um ego doentio a destrói. As pessoas que evoluem mais rápido não são excessivamente barulhentas, nem excessivamente autoconfiantes — e nem sempre estão certas.
Tomada de decisões com base em informações incompletas
Quão bem você toma decisões sem dispor de todas as informações? O poker obriga você a jogar sem conhecer as cartas do oponente nem as cartas que o dealer ainda vai abrir. Você usa as informações disponíveis, modela resultados possíveis levando em conta o range do adversário e o desenvolvimento da mão. A qualidade das suas decisões é determinada pelo que você sabia em cada street, e não pelo que descobriu no final.
Imagine que seu oponente jogou de forma muito conservadora a noite toda, mas de repente executou um bluff muito caro e fez você foldar a melhor mão. Um jogador forte não chamará esse fold de erro. O conhecimento do oponente disponível naquele momento crítico levou à conclusão de que a probabilidade de bluff era baixa. O fold parecia a melhor decisão.
Um jogador com pensamento inconsistente julga decisões pelos resultados. “Eu devia ter dado call, eu sentia que ele estava blefando!” Se o fold ou o call se mostraram errados no fim, para ele isso é um erro. Esses jogadores tiram conclusões equivocadas constantemente e evoluem muito devagar — quando não ficam estagnados.
Na vida, tomamos muitas decisões com base em informações incompletas. Existe futuro para nosso relacionamento? Vale a pena trocar de emprego? Quão promissor é um potencial parceiro de negócios? Como escolher uma universidade? Para onde viajar nas férias? Nunca há clareza total. Você escolhe entre várias opções com base nas informações disponíveis naquele momento. E a qualidade da sua decisão deve ser avaliada não pelo resultado, mas por quão correta ela foi à luz dos dados existentes.
A maioria das pessoas evita esse tipo de decisão. Elas querem certeza, mas certeza quase nunca existe. É preciso aprender a pesar as probabilidades dos desfechos e então decidir rapidamente, sem esperar por uma clareza absoluta.
O poker treina essa habilidade da mesma forma que exercícios constantes treinam os músculos. Ele ensina a separar a qualidade da decisão do resultado, a manter a objetividade e a lapidar o pensamento — em vez de se punir por não conseguir prever o futuro.
O poker é o melhor jogo estratégico de todos os tempos. Jogando poker, você se depara regularmente com a injustiça, aprende a ter paciência sem receber confirmações claras de que está certo, treina o pensamento lógico sob forte pressão emocional, avalia riscos, mantém o ego sob controle e julga decisões pelo processo de tomada, e não pelos resultados de curto prazo. Poucos ambientes oferecem tudo isso ao mesmo tempo.
É exatamente por isso que o poker revela tão bem o caráter. E, em especial, ajuda a entender a si mesmo.
Para ter sucesso no poker, não basta memorizar uma estratégia. Será preciso aprender a controlar as emoções, pensar com foco no longo prazo, ser humilde, mas não hesitar em agir de forma decisiva quando necessário, mesmo quando falta informação. Essas habilidades são úteis em qualquer área da vida. Fingir por muito tempo que você as domina não vai funcionar — o poker não permitirá. O poker revela a verdade.
Seu apelo é difícil de entender para quem está de fora. Não se trata das mãos ganhas. É uma escola de pensamento, ajustes, sangue-frio, paciência, confiança e decisão em um mundo sem respostas óbvias.
Experimente jogar poker. Talvez isso ajude você a se tornar a melhor versão de si mesmo.