Kornuth: Hoje teremos uma verdadeira loucura. No geral, em mesas finais caras, os donos dos maiores stacks tentam evitar confrontos entre si. Imagine: de 120 participantes em um torneio com buy-in de $150k, restam apenas oito, jogando por muito dinheiro. E entre eles se destaca Vladimir Korzinin, mais conhecido como Gambledore, uma mistura de Dumbledore com gambler. Ele é uma verdadeira lenda. Pode nos contar sobre ele, Alex?

Foxen: Eu fico um pouco desconfortável em falar, porque sei o quanto ele valoriza sua privacidade. Ficamos amigos durante a série em Monte Carlo. É uma figura muito interessante. Leva uma vida nômade, é incrivelmente rico e tenta evitar exposição pública. Gosta de ser chamado de Santa [Ed.: Papai Noel, em inglês], por isso era acompanhado por elfos durante a série. Uma personalidade totalmente misteriosa, mas muito agradável no convívio. É absolutamente íntegro no personagem, nunca sai do papel. Estar perto dele é um grande prazer. Mas a atenção que ele recebeu por causa do poker o obrigou a parar de jogar.

No poker, ele era um iniciante absoluto, mas se apaixonou muito pelo jogo. Em uma mão, eu apostei no river, e ele disse: “Sei que minha mão é pior, mas estou curioso para saber o que você tem”. Ele deu call valendo o stack, não tinha absolutamente nada. Ele realmente só queria ver minhas cartas. Eu disse que teria mostrado de qualquer jeito se ele tivesse pedido, mas, claro, fiquei muito agradecido pelo call.

Ele também falava muito bem das pessoas da comunidade do poker. No geral, é uma pessoa interessante, com uma história incomum e um estilo de jogo estranho. Alguns até suspeitavam dele por cheating. Bom, eu tento nunca atribuir probabilidade zero aos acontecimentos, mas, no caso dele, a probabilidade parece muito baixa.

Kornuth: As pessoas gostam de falar isso quando não conseguem jogar bem contra os fishes.

Foxen: Sim. Não entra na cabeça delas que alguém pode tomar decisões incomuns que acabam sendo muito boas em determinadas condições. Quando você observa esse tipo de jogo, recomendo se livrar dos preconceitos e tentar entender por que algumas coisas feitas por essas pessoas funcionam tão bem. Mesmo que você não respeite determinado jogador, em vez de julgar suas ações, pense em quais circunstâncias aquilo seria uma decisão correta. E se, depois de analisar a situação por todos os lados, você ainda chegar à conclusão de que a linha é horrível sempre e em qualquer condição, essa reflexão não terá sido em vão. Esse experimento mental é uma ótima lente para observar o jogo, e certamente vai abrir seus olhos para algo novo.

Kornuth: Vamos olhar para os outros participantes da mão.

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Vladimir faz um miniraise com damas, stack de 57 blinds, algo completamente padrão.

Foxen: Na mesa, vejo pelo menos duas pessoas que sabem jogar muito bem contra adversários desse tipo: Fedor Holz e Bryn Kenney. Stephen Chidwick também é mais para bom do que ruim nisso. No entanto, entra na mão um jogador que, na minha opinião, é um dos mais fracos nesse aspecto.

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Kornuth: Sam Greenwood é um dos jogadores mais perfeitos no estilo solver da atualidade. Só que agora ele não está jogando contra um computador, e sim contra o Gambledore!

Foxen: Acho que aqui ele pensa exclusivamente no que a tabela diz e com qual frequência precisa escolher uma linha ou outra. Onde está o ponteiro do relógio? 80% do círculo, ok, frequência alta o suficiente: fazemos 3-bet. Embora aqui, pelo que entendo, ele vá dar call. Se vier outra coisa à sua cabeça, melhor não.

Kornuth: Sim, call. Ele está fora de posição e é o segundo stack contra o primeiro, um jogador recreativo e muito ativo. As outras opções são ruins.

Os outros foldam, e o dealer abre o flop:

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Greenwood acerta um monstro no flop.

Foxen: Em equidade, ele é até favorito contra duas damas: gutshot, overcard, nut flush draw... Um spot interessante contra um jogador que pode ter praticamente quaisquer duas cartas.

Kornuth: A maior continuation bet que Sam Greenwood poderia enfrentar contra um profissional seria de 400k a 450k. Às vezes, muito raramente, o pote. O que vai acontecer agora é extremamente incomum!

Vladimir Korzinin aposta 750.000.

Foxen: Uau! Que brutalidade! Acho que eu não tinha visto essa mão. A situação é realmente muito desagradável para Sam. De fato, estamos à frente em equidade contra mãos fortes como damas ou reis. Estamos bem até contra sets! A princípio, parece que o raise não pode ser ruim. Mas talvez exista uma opção melhor?

Claro, não queremos complicar a decisão. Vamos dar call, e se no turn vier um , e nosso oponente fizer uma overbet all-in. E aí? Pagamos com ás-high? Ali pode ter ? Quem pode saber que mão o Santa tem?

Estou disposto a concordar com qualquer decisão. Sei que Sam muitas vezes joga errado contra adversários desse tipo, mas aqui me parece que não é o caso.

Na verdade, meu primeiro instinto é call. O raise, na minha visão, não nos dá tanta coisa. Não queremos colocar o stack contra Vladimir sendo apenas 52% favoritos para vencer. E se ele tiver , o que não é impossível, nossa equidade cai para 40%.

É assim que eu formularia minha decisão. Eu me perguntaria se, no range com o qual o adversário aposta overbet, existem folds para meu raise que continuariam barrelando no turn caso eu desse call. Essa é a pergunta principal! Ele tem segundos barrels que foldariam para um raise no flop? A resposta, na minha opinião, é: sim, tem, mas não muitos. O sizing de quase um pote e meio é ou um blefe de uma street, ou um valor muito forte. Por isso gosto do call.

Kornuth: Sim, o fator-chave é o peso desse sizing aumentado. Eu não joguei contra o Gambledore, mas, para muitos jogadores recreativos, o sizing está diretamente ligado à força da mão. Na overbet dele há valor demais, e estamos presos pelo ICM. Muito provavelmente, podemos simplesmente foldar até o terceiro lugar. Por isso, contra um jogador com stack maior que o nosso, que nunca vai foldar para raise com , ou overpair, eu também me inclino ao call.

Foxen: Outra pergunta importante é: com que frequência Vladimir conseguirá se livrar de uma mão de valor se acertarmos o nuts? Minha resposta é: quase nunca. Quando ele tem um dez forte ou overpair, e no turn vier um , na maioria das vezes ele ainda vai dar all-in. Nesse sentido, o call não será muito pior do que o raise. Por isso gosto de dar call, ver o turn e tomar uma decisão mais ponderada com base em informações adicionais.

Kornuth: Vamos ver o que Sam faz.

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Foxen: Ha-ha! Parece que o all-in foi uma surpresa para o Santa. Se ele pudesse ver a mão do adversário, ele mesmo teria dado all-in ou dado check behind.

Kornuth: Suspeito que Sam decidiu ir all-in aqui porque não entendeu que, nos turns bons para ele, ainda assim ganharia o call do adversário. Ele simplesmente está chutando: "mão boa, talvez alguma fold equity — vou enfiar todo o stack com ela e ver no que dá".

Foxen: “O push não pode ser ruim” — algo assim deve ter passado pela cabeça dele. Além disso, ele comparou essa linha com check-call no flop e check-fold no turn contra , uma verdadeira catástrofe. Talvez a decisão tenha sido tomada justamente assim. E não estou dizendo que a lógica é ruim. O all-in não pode ser um erro grosseiro, enquanto depois do call eu corro o risco de cometer um erro enorme no turn.

Kornuth: E se queremos mesmo dar raise, o all-in é o melhor sizing, sem dúvida alguma. Não queremos que o oponente interprete um raise pequeno como fraqueza e dê push com ou AKo!

Foxen: Concordo, mas, na verdade, parece que nem existe outra opção de raise, porque o all-in não é uma overbet tão grande assim, algo em torno de 160% do pote. Como alternativa, talvez eu só possa sugerir um miniraise, que não vai resolver nada.

Kornuth: Espere, pensando bem, com miniraise podemos obter uma parte de call/folds. Digamos que com / ele possa pagar nosso miniraise e foldar para um all-in no turn em uma blank.

Foxen: Hm, o miniraise fica mais atraente! Damas nós nunca vamos fazer foldar, mas com miniraise podemos extrair fichas extras de ases-high mais fortes e provocar mãos mais fracas a irem all-in. Embora seja difícil analisar ranges de amadores. Não dá para excluir, por exemplo, que essa overbet do Santa seja estritamente de mãos prontas a partir de um dez forte.

Kornuth: Mas se ali ainda existem ou / , os argumentos a favor do miniraise ficam bem fortes. É aí que está a beleza do poker! Sempre dá para construir as circunstâncias de uma forma que justifique qualquer decisão.

Foxen: Então tomar decisões contra amadores imprevisíveis, tendo apenas 30 segundos para pensar, é muito difícil. Você pode simplesmente não ter tempo de pensar em tudo! Mas é possível trabalhar esse músculo.

Kornuth: Exatamente. Ok, vamos ver como terminou. Consegue prever a resposta do Santa?

Foxen: Ahm, call? Uau, ele pede para contar o stack, o quê? Ou seja, ele não está gostando nada disso.

Kornuth: Talvez ele esteja apenas curioso. Já vi comportamentos assim de pessoas com ases no pré-flop.

Foxen: Ele é o tipo de pessoa que não me surpreenderia se dissesse algo como: “eu só queria permanecer mais tempo nesse momento”. Prolongar a experiência emocional. Um flip por grande parte das fichas do torneio, valendo vários milhões de dólares!

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Kornuth: E agora Sam, que estava praticamente garantido no terceiro ou quarto prêmio, cai em oitavo. É difícil imaginar o que ele sentiu.

Foxen: Um golpe muito cruel. Só dá para sentir pena. Ver um flop desses e depois tomar uma overbet! Ir all-in com 52% e perder...

E olhe esse turn! Acho que eu citei uma carta mais ou menos assim, não? Digamos que Sam dê call no flop e receba all-in no turn. Há 2 milhões no pote, stack efetivo de 3,5 milhões. A decisão matemática parece muito simples: contra all-in, não há equidade suficiente para o call, mas uma aposta normal do Santa poderia ser paga. Pensei aqui que talvez o Santa tenha blefes, mas não acho que ele blefaria com a linha overbet flop e overbet-all-in turn. Então, contra all-in, dá para foldar com segurança e ficar com um stack de 35 bb, em segundo ou terceiro lugar, sem nenhuma tragédia.

Por outro lado, também é possível acertar e passar a ter 70% das fichas do torneio nas mãos! E isso também é um swing enorme de EV.

Kornuth: É uma pena que eu não tenha tido a chance de jogar contra ele. Nunca nos cruzamos nas Tritons.

Foxen: Espero que ele ainda volte. Sei que Jesse Lonis mantém contato com ele por e-mail. Talvez consigamos convencê-lo a voltar ao poker. Era muito divertido estar perto dele! Uma verdadeira lenda.

Na sua primeira série, ele ganhou 6 ou 7 milhões, depois voltou mais uma vez para, como ele mesmo disse, devolver parte do dinheiro à comunidade do poker! Ele ficou um pouco constrangido por ter jogado apenas uma vez. Em Montenegro, ele se esforçou ao máximo para doar fichas e cumpriu essa missão com sucesso. Depois disso, não o vi mais.

Kornuth: História incrível. Ele realmente é um verdadeiro Papai Noel.

O "feiticeiro Gambledore": a estreia sensacional de Vladimir Korzinin em Monte Carlo
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Greenwood comentou no vídeo:

Olá, aqui é Sam Greenwood. Escrevi meus pensamentos sobre a mão em um dos episódios do Punt of the Day. O YouTube, ao que parece, corta links para recursos externos; procurem o episódio #101.

Gostei de ouvir os raciocínios de Alex e Chance sobre a mão. Ao longo do torneio, Vladimir muitas vezes fez continuation bets maiores que o pote e muito raramente desistiu depois disso. Eu achava que ele podia jogar assim com ou e estaria disposto a ir all-in contra elas no turn. Por isso, eu queria garantir ver todas as cinco cartas comunitárias com a minha mão. Pensando em retrospectiva, a alta probabilidade de que ele cometesse um erro gigantesco no “meu” turn ou river torna o check-call no flop obrigatório para mim.

Quanto ao meu range de check-raise-all-in, eu nunca vou dar push com set, mas não acho que isso tenha importância para ele. Duvido que ele, de repente, me colocasse estritamente em draw e pagasse com . A mão de valor mais provável com a qual eu jogaria dessa forma é, curiosamente, sem paus.