— Olá, pessoal, estou em Las Vegas, e aqui no estúdio comigo está Patrik Antonius! Jogando por aí, Patrik?

— Um pouco.

— Jogou ontem à noite?

— Durante o dia. A beleza de Vegas é que existe jogo em horários humanos. Na minha idade, trabalhar de dia e dormir à noite é uma grande felicidade.

— Você prefere cash games a torneios, estou certo?

— Sim, sempre fui um jogador de cash. Torneios eram mais um bônus. Nunca tive grandes ambições em MTTs. Além disso, durante a maior parte da minha carreira, sempre foi possível ganhar muito mais no cash. Você fica sentado como um idiota em um torneio de $10.000 (e antes nem existiam buy-ins mais caros), depois é eliminado e vai jogar cash, onde todo mundo tem centenas de milhares nos stacks. Não faz muito sentido!

Então eu me concentrava no que dava mais dinheiro. Quando surgiu a Triton, foi uma verdadeira revolução; graças a esses caras, agora também dá para me ver jogando torneios. Finalmente passou a existir algum sentido financeiro em disputar séries de torneios. E, além disso, a emoção de vencer um torneio é a melhor sensação que uma pessoa pode experimentar.

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— Onde você mais gosta de jogar na Triton?

— A etapa de Montenegro é incrível. Mas, no geral, todas as séries deles são boas. Os organizadores realmente fazem com que participar da Triton seja uma experiência inesquecível. O cuidado com os jogadores é máximo — eu nem consigo imaginar o que poderia ser feito melhor. Por exemplo, a comida pode ser pedida a qualquer momento diretamente na mesa.

— Na Triton jogam os melhores regs do planeta. Você muda seu estilo dependendo do field?

— O estilo precisa ser ajustado o tempo todo, em tempo real, dependendo do que os oponentes fazem. Não existe um estilo universal. Você precisa ser capaz de fazer qualquer coisa a qualquer momento. O que for necessário contra um oponente específico, é isso que você deve fazer. Por isso o poker continuará sendo um jogo extremamente complexo, que ninguém joga perfeitamente. Essa é a beleza dele.

Nos últimos anos, eu passei a enxergar o poker de outra forma, como um jogo profundo e rico. Aos 20 anos, eu só grindava sem pensar muito. Hoje, vejo o poker quase de fora e fico impressionado com o quanto ele ensina sobre você mesmo e o quanto permite crescer como pessoa.

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— Você ainda tem a mesma paixão que você tinha aos 20 anos?

— Hoje existe até mais. É só uma paixão diferente. Naquela época, tudo se resumia a grindar do amanhecer até a noite. Durante seis ou sete anos seguidos, joguei em média 12 horas por dia.

— Uau. Sem folga?

— Quase nenhuma. Era outro tempo. O poker online era completamente diferente. Não existiam solvers, não existia treinamento, nem dava para baixar histórico de mãos. Mas as mesas estavam sempre cheias. Você acordava, jogava, saía para caminhar, ia à academia, voltava e jogava de novo. Era assim que a vida funcionava.

— Bons tempos!

— Sim, mas hoje meu elemento é o jogo ao vivo. No live, eu sou muito mais forte. Há 20 anos, era o contrário.

— O que é mais difícil no poker ao vivo?

— Fingir força quando se está fraco — e o contrário também. Pouquíssimos jogadores conseguem fazer isso bem, especialmente em momentos decisivos.

— Você já jogou em praticamente todos os limites imagináveis. Em prêmios de torneios, você ocupa o 28º lugar no mundo e é o número um da Finlândia. Dá para dizer, neste momento, que você já alcançou tudo o que queria no poker? Ainda existem picos não conquistados?

— Bem, sempre existem alguns objetivos. Permanecer independente, ter controle sobre a própria vida. Eu gosto muito de competir com os melhores. Quero provar que consigo evoluir junto com o jogo e continuar competitivo. Acho que estou no meu auge agora, nunca joguei tão bem.

— Sério?

— Claro. Você fica melhor a cada ano, se se dedicar o suficiente. Ainda sinto prazer nisso, o poker continua sendo uma parte central da minha vida. E ele me faz feliz. Houve períodos na carreira em que joguei pouco — por exemplo, quando por muito tempo não havia boas mesas em lugar nenhum. Nesses períodos, eu simplesmente não sabia o que fazer comigo mesmo. De tédio, ia à academia duas vezes por dia. Enfim, só me sinto bem quando posso jogar bastante e manter a cabeça sempre funcionando.

— Isso não é uma espécie de abstinência de adrenalina?

— A adrenalina me ajuda a focar. Se o jogo é barato demais e o dinheiro na mesa não significa nada para você, não dá para jogar no seu máximo. E o mesmo vale para os oponentes — em certos limites, o dinheiro pesa para todo mundo, não importa o quão rico a pessoa seja. Surge então um aspecto importante: você começa a perceber quantas fichas aquele ou aquele adversário já não está disposto a colocar em um blefe ou pagar em um call. Isso faz parte da sua vantagem em jogos caros. Em limites baixos, isso não funciona; ali as fichas simplesmente voam de um lado para o outro sob risadas gerais. É divertido, mas é um poker completamente diferente.

— E nos high stakes todo mundo é extremamente sério?

— Não exatamente. Poker é sempre entretenimento. Nós também brincamos, rimos. Mas, ao mesmo tempo, todo mundo quer ganhar, cada aposta importa. E quando alguém faz uma aposta grande no river, ele realmente se importa se vai receber call ou não.

— O que você mais gosta no poker?

— Você provavelmente já ouviu que, quando jovem, eu queria ser tenista profissional. Mas não tive sorte: sofri muitas lesões e, em algum momento, ficou claro que eu já estava definitivamente atrás dos concorrentes. Mas a vontade de competir nunca desapareceu. Pessoas que nunca jogaram nada seriamente não entendem o quanto isso é importante. O quanto as derrotas doem, o êxtase que as vitórias trazem — especialmente quando se trata de torneios realmente importantes. E o poker também pode oferecer isso, ao contrário de outros jogos.

— E, ainda assim, você pode perder mesmo jogando perfeitamente…

— Claro, o fator sorte também é grande. O jogo te testa o tempo todo. Você pode ser o melhor do mundo e perder por seis meses seguidos. O dealer simplesmente vai te dar, toda vez, uma mão um pouco pior do que a do oponente, e pronto. Além disso, você vai acabar constantemente em spots difíceis com bluffcatchers.

A variância, mais cedo ou mais tarde, começa a pesar no psicológico. Você deixa de entender se realmente está jogando bem, perde a confiança em si mesmo. Uma sequência terrível — é só variância ou você simplesmente não serve para isso? Muitas carreiras terminaram assim, apenas por causa de longos períodos de resultados ruins com os quais os jogadores não conseguiram lidar. Mas, no geral, hoje as pessoas lidam melhor com isso do que na minha juventude. Naquela época, era muito difícil diferenciar uma bad run de jogo ruim, porque não existiam ferramentas de análise.

— Mas o jogo hoje não ficou muito mais difícil?

— O poker está em um momento interessante de desenvolvimento. Estudá-lo é mais fácil do que nunca, as ferramentas estão ao alcance de todos. A estratégia fundamental pode ser aprendida rapidamente. Há 20 anos, tudo o que você podia fazer era pegar algum livro. E, obviamente, muitas vezes estava escrito ali um completo absurdo, porque ninguém entendia nada de poker — nem mesmo o autor.

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— Mas hoje, para iniciantes, não dá medo de jogar? Parece que todo mundo joga bem.

— O acesso ao estudo não garante dedicação. Poker é um jogo complexo, todo mundo erra. Eu vejo constantemente até oponentes bem preparados teoricamente fazendo coisas erradas. Muitas vezes, eles não sabem se adaptar a uma mesa específica e se apoiam apenas em números e fórmulas, como se estivessem resolvendo um problema matemático. Mas o poker é, antes de tudo, sobre pessoas.

Existem muitos aspectos do jogo em que tentar copiar o solver simplesmente não faz sentido. Na maioria absoluta dos spots, as pessoas blefam menos do que a máquina. Isso significa que a adaptação correta é óbvia: se o seu oponente blefa pouco, você deve dar call com menos frequência — e não na frequência sugerida pelo solver.

Mas, claro, no geral, os solvers mudaram muito a forma como o jogo é jogado, inclusive no live. Antigamente, todos tentavam “sentir” o outro, puxar conversa, extrair tells, e os profissionais muitas vezes conseguiam isso. Hoje, cada vez mais, chegam às mesas pessoas de um mundo completamente diferente, que passaram milhares de horas no solver. Ainda assim, dá para encontrar um caminho contra elas — no fim das contas, o jogo continua sendo muito interessante.

— Você mesmo estuda com solver? Recentemente, tive o Bryn Kenney no podcast, e ele afirmou que nunca abre um.

— Eu trabalho com treinadores, eles analisam spots para mim. Mas eu mesmo tento não ficar preso ao solver. A ideia de equilíbrio absoluto em todas as linhas não me interessa muito. Meu principal recurso é levar os adversários para situações que não são naturais para eles — onde eles se orientam pior e, por isso, erram mais. Acho que as pessoas ficaram presas demais ao jogo padrão, aos mesmos padrões e sizings. Dá para jogar de forma mais criativa.

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— Dá para dizer que estamos vivendo um boom do poker, graças a streamers e vloggers?

— Com certeza. A participação nas séries bate recordes no mundo todo. O poker está se tornando mainstream, e isso é excelente.

— Colocar o poker nas Olimpíadas, então? Você representaria a Finlândia…

— Não sei sobre Olimpíadas, mas estou convencido de que o poker merece uma enorme popularidade. As estatísticas mostram que hoje mais de 100 milhões de pessoas jogam com alguma regularidade — é muita gente.

— E como você descansa do poker? Joga padel?

— É uma ótima atividade, exige muito movimento. Mas eu ainda prefiro o tênis e quero voltar a praticá-lo com mais intensidade em breve.

— E a saúde mental? Meditação, esse tipo de coisa?

— Saúde é a base da minha vida. Para mim, poker é um esporte. E, nesse esporte, é fundamental manter sempre a clareza mental. Eu tenho um personal trainer, e trabalhamos também na chamada “otimização da atividade cerebral”. É algo tão complexo que eu não consigo explicar em poucas palavras. Nem eu mesmo entendo completamente. Mas a ideia principal é que o cérebro é um mestre da adaptação — ele se acostuma com tudo. Nossa tarefa é sempre apresentar algo novo para ele.

— Jogadores de poker precisam ter uma ótima memória, certo? Lembrar mãos jogadas contra o mesmo adversário, esse tipo de coisa.

— Exatamente. Mas, na verdade, tudo isso é importante em conjunto: boa memória, mente flexível e corpo saudável. Como você vai manter clareza mental na mesa se não dormiu bem, se algo está doendo ou se a cabeça está cheia de problemas? Um jogador que se sente bem sempre terá vantagem. E isso não vale apenas para o poker, mas para a vida em geral. Boa saúde significa boas decisões.

— Para encerrar, quais são seus planos para este ano?

— Vai ser um ano cheio. Eu não gosto de ficar entediado, sempre tenho muita coisa para fazer. Recentemente, assinei contrato com um grande site de poker.

Nota do editor: trata-se da WePoker, um aplicativo móvel voltado para o mercado asiático. Patrik agora não apenas representa a plataforma, como também atua como “consultor de segurança”. Anteriormente, Phil Ivey e Kristen Foxen também assinaram contrato com a WePoker.

Além disso, como você provavelmente sabe, sou um dos fundadores da First Land of Poker. Ainda há muito trabalho pela frente, mas tudo parece muito promissor.

Nota do editor: FLOP é uma plataforma para organizadores de jogos de poker, cassinos e salas de poker, além de funcionar como uma rede social para jogadores. Ela ajuda jogadores a encontrar jogos e clubes a gerenciar mesas, listas de espera e muito mais.

Vou continuar jogando bastante, como sempre: cash games caros, viagens para a Triton. Mais um ano seguindo a fórmula que eu gosto: saúde, poker e negócios. Pacote completo!

Nota do editor: Patrik é modesto — existe ainda outro negócio. Ele abriu o cassino online Duel, junto com o finlandês Ossi Ketola, o que provavelmente também reforça bem o seu bankroll.

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— Boa sorte! Obrigado por ter vindo, Patrik. Até a próxima!

— Obrigado a você também!

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