Olá a todos, aqui é o Phil. Hoje me pediram para explicar GTO de várias maneiras: do mais simples ao mais complexo. Vamos tentar!
1. Explicando GTO para o meu filho de 6 anos
Olha, filho. Imagine que estamos jogando um jogo em que eu escondo um doce em uma das mãos. E você tem que adivinhar em qual delas! Se acertar, fica com o doce. E aí nós jogamos de novo e de novo, muitas vezes seguidas.
Agora imagine que eu te contei a minha estratégia: o doce sempre vai estar na mão direita.

Claro, depois disso você adivinharia facilmente onde ele está. Na próxima vez, e depois quantas vezes mais fosse preciso. Mas, convenhamos, para mim essa é uma estratégia ruim, porque eu sempre vou perder!
Agora vamos imaginar que o doce nem sempre fique na mão direita: em vez disso, eu vou trocando de mão a cada vez. Ficou um pouco mais difícil, mas no fim você também não vai ter problemas: mesmo que erre uma vez, depois ainda vai sempre saber onde eu escondi o doce.
E como eu posso criar uma estratégia que você conheça, mas ainda assim não consiga me vencer? Na verdade, é bem simples: entre uma rodada e outra, eu só vou para o quarto ao lado e jogo uma moeda para o alto. Se der cara, escondo o doce na mão direita; se der coroa, na esquerda. Pronto: agora você não tem nenhuma pista, não existem decisões boas nem ruins. Isso se chama “randomização”.

Você conhece a minha estratégia, mas isso não te ajuda em nada. Do meu lado, isso é jogar em GTO.
2. Explicando para um adolescente
Ei, cara! Bora jogar pedra, papel e tesoura? Como seria a minha estratégia perfeita? Digamos que eu mostre mais papel ou pedra, e só de vez em quando coloque tesoura. O que aconteceria? Você conseguiria me ganhar aos poucos, sabendo que existe um certo padrão.
E a única forma de eu mostrar um jogo perfeito seria escolher pedra, papel ou tesoura de forma aleatória toda vez. Por exemplo, usando um gerador de números aleatórios no celular. Eu associo cada ação a um número: 1 (pedra), 2 (tesoura), 3 (papel). Aperto o botão, aparece 2, e eu mostro tesoura.

Isso não é uma estratégia vencedora, mas também não é isso que eu estou tentando criar. A ideia toda é que você não consiga pensar em uma estratégia melhor do que a minha. No poker, é justamente algo assim que buscamos. Só que lá é tudo mais complicado.
3. Falando com um estudante (ou jogador amador)
Deixa eu te ensinar a jogar um jogo chamado “Ás, Rei, Dama”. É uma versão super simples de poker, e eu consigo te explicar facilmente como jogar isso de forma perfeita. Olha só:
- Você joga contra um único oponente.
- Há $100 no pote.
- Cada um de vocês tem $100 no stack.
- Existem apenas 3 cartas: ás, rei e dama, e cada um recebe uma delas.
- Você sempre aposta primeiro (ou dá check); em resposta, o adversário pode foldar ou pagar a sua aposta.
Digamos que você recebeu um rei, ou seja, eu tenho ou um ás, ou uma dama. Vamos discutir como você deve jogar.

Então, você tem rei. Em metade das vezes eu tenho ás, e na outra metade dama. Apostar aqui com rei não faz nenhum sentido. Por quê? Porque eu sempre vou foldar a dama e pagar com o ás. Logo, a decisão perfeita é dar check.
Olha: com ás eu sempre vou apostar, em 100% das vezes, isso é óbvio. Já com dama a situação fica mais interessante. Eu não posso blefar sempre com dama, porque se eu apostar com ás e com dama em 100% das vezes, então metade do meu range será de blefes. E isso significa que você vai ganhar $200 em metade das vezes e perder $100 na outra metade. Isso te daria um lucro de $50 por mão.

Ou seja, eu vou precisar balancear de algum modo a frequência dos blefes com dama. Seus pot odds são de 2 para 1. Isso quer dizer que, nas minhas apostas, deve haver duas vezes mais ases do que damas.

E agora já não dá mais para se ajustar à minha estratégia. Só falta entender o que você deve fazer com rei na mão quando eu aposto all-in. Eu balanceei meus pushes, e você precisa balancear seus calls. Porque, se você não pagar com rei na frequência correta, eu vou ganhar vantagem: ou paro completamente de blefar com dama, ou, ao contrário, começo a blefar sempre.
Então vamos calcular a sua estratégia ótima com rei. Eu arrisco $100 nos blefes para ganhar os $100 do pote. Isso dá odds de 1 para 1: ou eu ganho $100, ou perco $100. Portanto, para jogar break-even, eu preciso ganhar em 50% das vezes. E você, consequentemente, deve dar call com rei em metade das vezes.
Pronto, resolvemos o jogo, que, aliás, lembra bastante a busca pela decisão certa no river no poker.
4. Falando com um pós-graduando (ou regular de poker)
Então, você entende bem o jogo “Ás-Rei-Dama” — e sabe que no river precisamos balancear value bets e blefes. Mas o mesmo também precisa ser feito nas outras streets. No poker, isso se chama “preenchimento do range”.

E é aí que tudo deixa de ser tão simples.
Existe uma quantidade enorme de flops, cartas de turn diferentes que afetam cada board de maneiras distintas… E depois ainda vêm os rivers! No geral, fica bem complicado.
Muitos jogadores cometem o mesmo erro: analisam cada street separadamente, como se estivesse no vácuo. Mas, se você joga o river no vácuo, enquanto os ranges no flop e no turn estão bagunçados, então no river o desastre é inevitável. Para evitar isso, precisamos sempre pensar na cobertura de texturas desde o início da mão.
Por exemplo, não dá para montar uma estratégia de modo que, quando venha uma carta que completa flush ou straight no turn, não existam flushes e straights no nosso range. Ou um exemplo mais simples: o pareamento da carta do meio do flop. Se nunca apostamos com o segundo par no flop, então isso significa que no turn nunca teremos trips. Isso não serve, porque aí como vamos blefar?
Para evitar esse tipo de cenário, no flop muitas vezes apostamos pequeno. Pelo menos porque existem mãos com as quais não faz nenhum sentido usar uma aposta grande: por exemplo, justamente o segundo par. Caso contrário, teríamos que ou incluir essa mão no sizing grande (o que não é necessário), ou nunca apostar grande com ela (o que também não é muito bom). Por isso, no flop, o jogador com vantagem de range frequentemente aposta pequeno com a maior parte das mãos, e depois usa sizings maiores no turn e no river.
Outra coisa importante é a frequência mínima de defesa (MDF).
Quando alguém aposta, é preciso defender uma porcentagem suficiente das mãos para que os blefes do adversário fiquem próximos de zero EV. E isso vale não só para o river, mas também para as streets anteriores. Ainda assim, existem runouts em que é preciso pagar ou foldar com muito mais frequência do que a MDF indicaria.

Digamos que, se o oponente tem vantagem de range, então você precisa foldar mais, independentemente do que os números digam. E, em boards carregados de draws, acontece o contrário: você deve dar mais calls, porque o seu range contém mais mãos com boa equidade.
Parece complicado, né? Mas, no fim, tudo se resume a perguntas simples:
- Como é o meu range?
- A carta que saiu é boa para esse range?
- Existem no meu range mãos que melhoraram com essa carta do river?
- Eu terei mãos fortes no range em qualquer runout? E vou ter blefes suficientes para compor?
5. Chegamos ao especialista (poker pro)
Olá, colega! Você já sabe, sem a minha ajuda, como o GTO funciona. Então, com você, vamos falar sobre como trabalhar com solver da forma certa. Quando você tenta decorar as decisões da máquina, está cavando um pouco na direção errada, porque o que ela te mostra é uma estratégia perfeita e inexplorável, não a linha mais lucrativa em um momento específico. Então, quando você senta à mesa e tenta jogar como o solver, você:
- Não vai conseguir. Isso é impossível.
- Vai se expor aos exploits dos outros jogadores.
Digamos que você não perceba que está usando probe bets no turn basicamente por valor, e blefando pouco demais. Um adversário forte vai notar isso e se ajustar: vai overfoldar contra suas apostas e blefar nos seus checks. E tudo vai dar certo para ele, porque você tentou copiar a estratégia do solver, mas não conseguiu executar (até porque isso é impossível por definição).
Por isso eu sempre incentivo todo mundo a abandonar a tentativa de jogar como o solver, e em vez disso tentar aprender a pensar como o solver. Quando estudo GTO, eu não tento memorizar nada (exceto, talvez, a estratégia de pré-flop). Um trabalho muito mais inteligente é tentar entender por que o solver toma determinada ação. Sempre existe lógica no que ele faz.
Eu tento criar heurísticas simples: ok, em boards assim apostamos pequeno, nesses outros apostamos grande. Além disso, tento formular conceitos e entender a lógica geral da máquina.

E depois, quando estou na mesa, eu não fico lembrando nada nem tentando copiar. Em vez disso, raciocino mais ou menos assim: “Bom, conceitualmente eu entendo mais ou menos como esse spot funciona. Você aqui tem vantagem de range, então eu vou defender mais ou menos esse conjunto de mãos, e blefar com algo próximo disso aqui.”
Resumindo, o principal segredo para trabalhar bem com solver é: quanto mais simples, melhor. Não se torture tentando decorar coisas. Tente entender as estratégias, procure os conceitos. Aí, durante o jogo, você não vai ficar se esforçando para lembrar de nada, e vai deixar sua cabeça livre para a criatividade e para buscar exploits.
Eu me lembro de muitos spots em que vi uma aposta no river de um adversário (mesmo sendo um reg forte) e soube com clareza que ele estava blefando em 60% das vezes, quando na teoria deveria estar em 30%. Ou, ao contrário, percebia que ali os blefes eram praticamente zero, quando deveriam ser 30%. E tudo isso simplesmente porque eu observava com atenção como eles jogavam, como montavam os ranges, quais sizings usavam em cada etapa da mão. Se você fica ocupado apenas tentando lembrar o que o solver recomenda, simplesmente não vai ter energia para observar os adversários também. Não faça isso, no poker, todo o dinheiro vem do exploit.
Ufa, acho que consegui, né? Se tiverem mais ideias para vídeos originais, mandem aí sem vergonha!