Dvoress: Todas essas mãos eu peguei de um torneio que você certamente conhece muito melhor do que eu: o WPT Seminole Hard Rock Hollywood.
Jaffe: Sim, excelente torneio, eles o realizam várias vezes por ano. Fica a 15 minutos da minha casa!
Dvoress: O tema é habilidades não técnicas em MTT. Vamos começar pelo mais simples:

Joost tem cerca de 15 blinds. Atrás dele há seis jogadores. Uma pergunta que meus alunos que estão tentando jogar MTT me fazem com frequência, inclusive jogadores de cash game experientes que estão migrando para torneios, é: a partir de que stack podemos começar a dar open shove? Dá, por exemplo, para enfiar KJs aqui?
Levando em conta que mãos dessa classe são das primeiras a migrarem para um jogo baseado em all-ins, o open shove não é totalmente sem sentido. John, o que você pensa?
Jaffe: Eu simplesmente não quero puxar 15 blinds de posição inicial. Em chipEV, é um shove aceitável, mas quando o ICM entra em cena, não deveria haver shoves com essa profundidade contra a mesa toda.
Dvoress: Compartilhe algumas heurísticas simples que possam ajudar o pessoal do cash nesses casos.
Jaffe: Antes de eles decorarem os tabelas, eu aconselho multiplicar mentalmente o stack na mesa final por um e meio. O stack do Joost, por exemplo, vira 22,5 bb. Parece que não existem shoves contra seis jogadores com esse stack em chipEV. No cutoff? Talvez.
Dvoress: É uma boa. Eu também gosto de pensar no tamanho do erro potencial. Suponha que você esteja no lugar do Joost e não saiba qual é a decisão correta. Qual erro custaria mais caro: um shove errado ou um raise errado?
Vamos supor que os stacks de todos os jogadores da mesa, incluindo o do Joost, sejam de 12 bb nesse momento. No solver, KJs nessas condições é jogado de shove. No entanto, a diferença de expectativa entre shove e raise será muito, muito pequena.
Com 15 blinds e com a distribuição de stacks que havia nessa mesa final, o shove, comparado ao raise, queima dinheiro. Mesmo que você não conheça o spot com exatidão, você deve conseguir avaliar a diferença de EV entre as estratégias e escolher o caminho em que seus erros potenciais custem menos.
Uma consideração adicional: em um torneio com field fraco, normalmente vale a pena escolher linhas em que os adversários tenham mais chances de errar: linhas mais jogáveis, com mais decisões a serem tomadas. O open shove é literalmente o oposto dessa abordagem.
Jaffe: Por isso, a linguagem tradicional do poker me parece um pouco imprecisa. Dizem: “se eu colocar all-in, vou exercer muita pressão sobre os adversários”. Bem, em certo sentido, sim — eles vão pensar duas vezes antes de colocar um monte de fichas no pote. Mas eles não terão decisões complexas pela frente, não será exigido deles nenhum pensamento de alto nível. Quase todas as decisões serão automáticas. E o que fazer contra um min-raise de um stack de 12 bb quando você está no hijack com ATs? Eu não sei! AJo no BTN? Cinco no BB é call ou shove? É tudo um enigma. Com o min-raise, nós obrigamos os adversários a tomar um monte de decisões difíceis.
Dvoress: É uma mão simples, mas dá para discutir tanta coisa! A propósito, no fim o Joost deu min-raise.
Jaffe: Boa.

Dvoress: Agora vem um spot mais complicado. O UTG abre raise com reis, e o jogador no hijack tem . Essa ainda não é a minha principal pergunta nessa mão, mas antes de chegar nela: o que fazemos com os par de Dez aqui?
Jaffe: Hijack contra UTG em mesa 9-max. Stack efetivo de cerca de 35 blinds, o do adversário é um pouco maior. É improvável que tenhamos muitos calls. Por outro lado, eu ouço na minha cabeça as palavras do Ben Heath, que diz que frequentemente é uma 3-bet/fold ruim, porque bloqueiam muitas mãos de raise/fold do adversário. Claro que eu quero dar call e jogar o pós-flop, mas com a ressalva de que vai ser difícil realizar totalmente a equidade da mão contra a posição mais inicial, e meu range de call acaba ficando bem transparente — espero que ainda seja mais amplo do que quatro combinações, mas não muito.
Eu pago. 3-bet/fold e 3-bet/call me agradam ainda menos.
Dvoress: Ok. Caio dá 3-bet, a ação volta para Hogan, e ele anuncia all-in. E é sobre essa situação que eu quero falar.


Sabemos que, com stacks de 30+ bb contra posição inicial com um stack mais profundo, o hijack não deveria ter calls, e precisa usar uma 3-bet linear. Damos 3-bet porque vimos algo parecido no solver, e recebemos um all-in de volta. Horrível. Temos o terceiro stack da mesa e , mas quem vai all-in é o segundo stack. É fácil se perder! Especialmente quando você entrou nessa situação acreditando que não tinha calls no pré-flop, e que par de Dez é forte demais para foldar. John, eu já entendi que você não daria 3-bet, mas mesmo assim: o que faria no lugar do Caio?
Jaffe: Mesa cheia, 9-max. Pela aparência, meu oponente tem uma família para sustentar, esse tipo de pessoa não vai all-in contra mim com A3s. Nós aplicamos uma 3-bet muito tight. E talvez, algum dia, o meta evolua a tal ponto que pessoas mentalmente normais comecem a 4-betar mãos não feitas mais fracas do que , mas isso ainda não aconteceu.
Ele estava terrivelmente nervoso quando anunciou all-in, isso é verdade. Mas, acreditem em mim, pessoas que são capazes de dar all-in aqui com A4s não vão ficar nervosas — elas são psicopatas.
Dvoress: A ideia de que aqui não serve não é nenhuma revolução. Só quero destacar que, quando nos encontramos em um spot estranho em que talvez nem devêssemos estar, é fácil convencer a si mesmo a cometer alguma loucura desesperada. Você inventa dinâmica, acrescenta tells e por aí vai. Quero aconselhar vocês a começarem pelas coisas mais tangíveis e objetivas possíveis. Ou seja: de quanta equidade contra o range dele precisamos para pagar esse shove? Em fichas, precisamos colocar cerca de 7 milhões para um pote de 17 milhões. Quarenta e tantos por cento. Estou fazendo uma conta bem aproximada, como se estivesse na mesa. A próxima pergunta é: qual é o risk premium? Sempre prestem atenção ao risk premium quando estudarem simulações de mesas finais, e vocês logo vão memorizar que um stack acima da média contra um stack maior sempre terá um risk premium de pelo menos 15%, às vezes mais perto de 20%. Então eu preciso de 55% de equidade, se não mais. Overpairs me destroem; contra as mãos que eu destruo, eu tenho 70%. Ou seja, ele precisa ter mais blefes do que overpairs para que eu tenha o direito de pagar. Sério?
Jaffe: Você não esqueceu que, pela vitória no torneio, eles entregam uma guitarra?
Dvoress: Esqueci. Tudo bem, então preciso de 53%!
Caio pensou por bastante tempo e foldou. Não tenho certeza se ele só fingiu que estava tomando uma decisão difícil ou se realmente pensou sério.
Jaffe: Na minha opinião, é exatamente assim que tem que ser, mesmo que você saiba de imediato que vai foldar. Eu ainda gastaria uma ficha de time bank, se tivesse sobrando. Por que os adversários deveriam saber que você dá 3-bet/fold com esse tipo de mão com tanta facilidade e naturalidade?

Dvoress: Meus enigmas vão ficando mais difíceis aos poucos. O que fazemos com valetes?
Jaffe: Fold.
Dvoress: Aham. Muita coisa do que você falou sobre o 3-bet com também se aplica aqui. É literalmente o mesmo spot, só que turbinado!
Jaffe: Valetes são reverse blockers muito ruins tanto contra o range do Kyle quanto contra o range do Martins. O único lado positivo é que qualquer um deles vai foldar dois valetes para a nossa 4-bet. O que mais gostaríamos de ver no range do Martins seria AJo, KJs, KJo. Então eu nem vou ligar se a teoria disser: 3% de 4-bet com setes, e com valetes é simplesmente sempre fold.
Dvoress: É óbvio que 4-bet com valetes não é por valor contra o range de nenhum dos jogadores. Meu conselho é: não tentem decorar fronteiras rígidas de fold quando estiverem estudando no solver. Pensem na mecânica do jogo, no que determina as nossas decisões. Se damas aqui dão 4-bet e valetes foldam — eu não tenho certeza, mas suspeito que o solver dirá exatamente isso — é porque damas pelo menos às vezes irão de all-in por cima contra, digamos, o Kyle. Valetes nunca estarão na frente, isso é apenas um blefe com dois blockers muito ruins.
Ryan acaba aplicando uma 4-bet para 3 milhões. Um sizing bem grande, embora a 3-bet também tenha sido grande. Kyle folda, e Martins anuncia all-in.

Jaffe: Voltamos ao ponto de partida. Parece a mão do ! Não acho que haja mais ases suited com uma carta para wheel no range do Martins do que havia no range do Ryan. Estamos andando em círculos!
Dvoress: E é exatamente essa a essência desses spots em que não deveríamos estar! Quando acabamos neles, começamos a girar em círculos, esperando capturar aquela mão única com a qual podem estar blefando contra nós.
Voltando ao risk premium. Desta vez, o nosso stack é maior, mas o adversário tem o segundo stack da mesa, então contra ele o nosso risk premium é o mais alto. Acho que perto de 15%? Para pagar, precisamos colocar 7 milhões em um pote de 22 ou 23 milhões. Matematicamente, as situações são bem diferentes. Em fichas, precisamos ter 30% de equidade ou algo por aí. Com o risk premium, a situação começa a parecer um spot limítrofe mesmo contra um range tight com pouquíssimos blefes.
Então chegamos de novo ao ponto: “é uma decisão apertada, não sei o que fazer”. É hora de levantar a cabeça e olhar em volta.
Você é Ryan Hogan, chip leader da mesa final de um WPT. O segundo stack está à sua direita. Situação ideal! Se eu chegasse à conclusão de que a decisão está no limite, e precisasse buscar argumentos adicionais a favor de uma ou outra resposta, essas considerações seriam decisivas.
Jaffe: Se expressarmos isso matematicamente, quanto uma posição confortável na mesa acrescenta ao risk premium? Um e meio, dois por cento?
Dvoress: Provavelmente algo assim. Não sei. Mas seria catastrófico derrubar o stack para 6 milhões e transformar o cara à sua direita em um enorme chip leader, que começaria a abrir any two. Já com 13 milhões, podemos dar raise com qualquer ás de qualquer posição. Uma diferença enorme!
No fim, ele foldou. Boa! Foi ótimo que ele não tenha agravado o erro. Isso também é uma habilidade não técnica importante, vale mencioná-la. Não carreguem o peso de erros anteriores se, no meio da mão, perceberem que erraram. Cada bifurcação é uma folha em branco. Basta considerar todas as variáveis e tomar a melhor decisão possível.