Opiniões polares: Nick Petrangelo contra Brian Kim
GipsyTeam
15.12.2025 15:31
O novo programa GTO Lab traz um debates entre dois top regs: o que é mais difícil, MTT ou cash, o quão crítico é ter amigos no poker e, de sobremesa, a análise pesada de uma mão controversa de Jonathan Jaffe.
Bem-vindos ao programa “Opiniões Polares”, no qual jogadores de elite do poker se enfrentam em debates sobre dois temas escolhidos e uma mão complicada. Os participantes defendem posições atribuídas aleatoriamente, treinando assim a capacidade de construir argumentos independentemente de preferências pessoais. O vencedor é decidido pelos espectadores nos comentários.
Primeira pergunta: MTT vs cash
Para alguém que começa do zero em 2025, o que é mais difícil: entrar no top-100 jogadores de torneios do mundo ou no top-100 jogadores de cash?
Brian Kim
Definitivamente é mais difícil chegar à elite dos MTT. Todo mundo sabe que nos torneios existem muito mais spots diferentes. E não é só pela quantidade, eles também são muito mais complexos por causa dos stacks desiguais. Dominar ao menos 30% apenas do pré-flop já exige um tempo enorme. E os jogadores que estão no top-100 não ficam parados. Eles aprenderam o pré-flop completamente muitos anos atrás e hoje lapidam problemas mais nichados, como heads-up ou as sutilezas do ICM — que, aliás, são mais dois universos totalmente novos.
No cash, você resolve a mesma tarefa repetidamente. O pré-flop pode ser aprendido em três horas, especialmente os ranges de abertura — é algo simplesmente elementar.
Além das dificuldades técnicas, os MTT exigem um nível completamente diferente de resistência psicológica, porque as downswings são assustadoras. No geral, é um formato muito mais pesado para a mente. Compare um blefe padrão no cash com stacks de 100 bb, não deu certo? Paciência, rebuy!; com um blefe no quarto dia de um torneio ao vivo, em uma bolha cara. As emoções, no segundo caso, vão às alturas.
Melhores resultados de Brian Kim na carreira em MTT
Nick Petrangelo
De fato, o cash começa como um jogo mais estático: os fundamentos são mais simples, os spots são mais ou menos os mesmos. Mas a complexidade aparece quando se chega aos detalhes da estratégia dos jogadores dentro do ecossistema. Os top pros de torneios jogam, essencialmente, de forma parecida, porque com stacks de 30 bb há pouco espaço para criatividade e para exploits agressivos contra adversários muito diferentes. Trabalhar o jogo no cash frequentemente exige análises detalhadas da estratégia de oponentes específicos, em todos os seus nuances. Já nos torneios, você estará mais ou menos bem se simplesmente estudar 10 horas por semana no GTO Wizard.
Um jogador com fundamentos sólidos em MTT consegue apresentar bons resultados relativamente rápido — pode ficar um pouco abaixo da elite, mas ninguém vai destruir suas fraquezas. Já um jogador de cash game inexperiente será simplesmente destruído. Especialmente quando os stacks começam a se aprofundar — 200, 300, 400 bb —, imediatamente vão mostrar todos os spots em que você não tem blefes ou em que não consegue encontrar a quantidade necessária de calls contra overbluffs. A elite do cash é fenomenal em identificar os pontos fracos dos adversários. Já um regular de torneios, com as mesmas inúmeras fraquezas, desfruta da sensação de impunidade.
Brian Kim
Nick apontou corretamente que, no cash, jogamos muitas mãos repetidas contra os mesmos oponentes. Já nos torneios, estamos constantemente enfrentando uma enorme quantidade de adversários diferentes. Falta histórico, falta dinâmica. Então, como criar exploits? Na minha opinião, o que diferencia todos os jogadores de elite de MTT é um QI emocional fenomenal. Não é por acaso que é tão divertido conversar com eles: são pessoas extremamente sociais.
Nick Petrangelo
Quero acrescentar algo sobre emoções. No cash também existem dificuldades próprias. Imagine que você está jogando HU, perde 10 buy-ins e continua recomprando o tempo todo. Você tem $1.000 no stack e vê à sua frente um oponente com $10.000 — dinheiro que até pouco tempo atrás era seu — e, ainda assim, precisa continuar lutando com a cabeça completamente fria. Mesmo que você já não esteja jogando o seu A-game, o adversário pode ser fraco demais para simplesmente levantar e ir embora. Isso acontece o tempo todo, inclusive no live. Jogar bem em meio a um resultado ruim é incrivelmente difícil. Não é nem de perto a mesma coisa que perder um único buy-in de torneio.
Eu ouvi o teu argumento sobre o blefe na bolha, mas acredite: no cash também existem spots caríssimos que vão muito além da zona de conforto. Quando você joga limites altos demais para você ou está arriscando o dinheiro de backers, executar um grande blefe nessas condições é ainda mais difícil.
Segunda pergunta: a chave para os high stakes é o círculo social
A maior contribuição para uma transição bem-sucedida dos limites médios para os high stakes é a capacidade de se cercar de pessoas com quem se pode discutir poker.
Nick Petrangelo
Desculpem, pessoal, eu amo vocês, amo todos com quem trabalhei e trabalho no jogo, mas estamos em 2025. Posso ouvir tops discutindo poker mesmo sem conhecê-los pessoalmente. Para quem está começando, todos os caminhos estão abertos: podcasts, GTO Lab, GTO Wizard, solvers de todo tipo. Uma pessoa que não tem medo de trabalhar duro consegue alcançar quase tudo sozinha. E, quando já estiver a um passo do topo, pode colocar a cereja do bolo fazendo algumas aulas ou ficando amigo de algum cara de quem nem gosta tanto assim, mas que pode dar um bom conselho. Para 98% do caminho, o que existe em acesso público e o próprio esforço já são suficientes.
Brian Kim
Equipe é algo extremamente importante. Não é por acaso que todas as empresas da lista Fortune 500 são criadas e administradas por equipes. Os melhores tenistas? Cercam-se de treinadores e especialistas. As vantagens de um time são enormes: você conhece diferentes pontos de vista, exploits que nem teria considerado sozinho, tendências do field… Além disso, surge um sentimento de companheirismo que ajuda muito nos momentos difíceis. Poker é um jogo cruel, e eu não recomendo a ninguém enfrentar uma downswings sozinho. Precisamos de pessoas com quem possamos compartilhar emoções, que nos deem apoio.
Aliás, saber como estudar corretamente também é uma habilidade, e ela é formada, entre outras coisas, pelas pessoas com quem você convive.
Nick Petrangelo
Se existisse um PioSolver capaz de transformar alguém em CEO do Morgan Stanley ou algo do tipo, no mundo dos negócios as coisas também seriam bem diferentes. Jogadores de poker usam software e, com isso, alcançam um nível muito alto de jogo. No tênis, não existe um script que me transforme no Roger Federer.
Acredito que eu conseguiria transformar qualquer pessoa em um excelente jogador de poker usando exclusivamente software público. Não no sentido de treiná-la individualmente, mas simplesmente deixando instruções claras sobre como estudar o jogo.
Concordo que poker é um jogo difícil e que, para o jogador, a ajuda de um terapeuta, psicólogo ou simplesmente de amigos pode ser muito útil. Isso é inevitável, não tenho como discordar aqui. Com downswings, ninguém lida sozinho. Mas evoluir tecnicamente no jogo é possível sem ajuda externa.
Brian Kim
Nos torneios da Triton, é muito visível como muitos jogadores se relacionam de forma próxima entre si. Não há dúvida de que, nesses grupos, eles trocam informações livremente. O mesmo acontece nos mid stakes. Concordo com o Nick que qualquer spot no poker pode ser resolvido em um solver. No entanto, ao trabalhar em equipe, vocês podem dividir tarefas, analisar diferentes situações e depois trocar resultados e discutir conclusões. De um brainstorming coletivo surgem muito mais ideias.
Mão do dia
Agora vocês vão ouvir uma mão jogada por Jonathan Jaffe, e um de vocês vai defendê-lo, enquanto o outro vai xingá-lo até a última linha.
Montenegro, Triton Poker Series, início de um torneio de $25k. Andrew Chen abre do cutoff para 3.500. Profundidade de aproximadamente 180 bb. No small blind, eu 3-beto para 17.000. Andrew paga.
Flop (36.000):
Eu aposto 7.500. Andrew paga.
Turn:
Novo call.
River (77.000):
Stack efetivo 206.000. Eu aposto 15.000. Andrew dá raise para 150.000. Eu pago e ganho.
Brian, chegou a sua vez de se desonrar, descendo a lenha nessa obra-prima. Vamos lá!
Brian Kim
Pois é. Pelo que entendi, no flop você está fazendo uma range bet, certo? Bom, se quiser simplificar o jogo ao máximo, até dá pra aceitar. Não é um erro… mas no turn eu tenho várias dúvidas. Primeiro, com essa linha dá praticamente para cravar qual é a sua mão. Segundo, vamos olhar pela ótica da teoria. Você apostou todos os seus blefes no flop. Ele até pode ter feito algum float, mas, no geral, o range dele depois do call fica mais forte e concentrado em mãos boas. Pela lógica, você deveria ir para um sizing grande ou checar. E os pares médios, entre seis e ases, parecem querer jogar check.
A value bet no river me parece excessivamente fina. Eu provavelmente escolheria um sizing maior, tentando deixar indiferentes os dele e expulsar damas e valetes, que estarão no range nessa profundidade.
Tudo bem, você apostou pequeno. Ele responde com um raise enorme. Temos um bluffcatcher ruim. O mais engraçado é que ele perfeitamente pode estar blefando com , e você dá call e não ganha nem do blefe.
Me parece que você pensou algo como: “joguei minha mão de forma muito óbvia, então preciso defendê-la de vez em quando”. Mas esse tipo de raciocínio leva a calls automáticos com qualquer mão! Andrew Chen é um jogador sólido e forte, vai aparecer aqui com um range equilibrado. Você simplesmente teve sorte de não ver .
Nick Petrangelo
Pré-flop, obviamente, muito bem jogado. No flop, se queremos barrelar todos os pares de mão, escolhemos um sizing entre 10% e 25% e não complicamos. Com esse tamanho, o Andrew até vai largar alguma coisa, mas será praticamente obrigado a pagar com todos os pocket pairs e todos os backdoors, exceto talvez , se é que elas existem no range dele. Assim, vocês dois chegam ao turn com ranges bem amplos.
Gosto da sua escolha de sizing: você continua extraindo valor dos pocket pairs, protege a mão ao expulsar mãos como que não viraram gutshot, mas ainda têm seis outs contra você. Além disso, isso é jogo ao vivo, e você pode ter percebido algo no comportamento dele durante a mão que ajudou a identificar em qual parte do range ele estava.
No geral, ambos têm nessa textura pocket pairs e , mas a diferença é que os seus são grandes — , e por aí vai — enquanto os dele são mais frequentemente pequenos, mesmo quando ele mistura alguns calls com mãos fortes. Para punir de verdade o range dele, você não pode partir para apostas polarizadas; precisa continuar de forma linear. Colocar um pouco mais de dinheiro no pote estando levemente à frente é exatamente o correto! 25% do pote é uma escolha excelente, como eu disse, suficiente para expulsar mãos com seis outs e ainda receber calls de mãos com apenas dois outs. Andrew é um jogador old school, conhece você bem e certamente fica um pouco paranoico achando que você pode estar overblefando aqui. Ele definitivamente não vai overfoldar contra você.
Pelo que entendi, no river você pensou que, se desse check, ele daria check back com um monte de mãos que você vence, então decidiu fazer uma aposta minúscula. Não acho que você tivesse um plano super detalhado. Se você jogasse assim com damas, por exemplo, eu não ficaria nem um pouco surpreso. Com , talvez seja fino demais.
Um ponto importante: se no turn ele tem e não folda, apenas flutua, você está imprimindo dinheiro. Some a isso todos os pocket pairs, , , floats criativos que deram dois calls contra você… Quem sabe ele overblefa ou underblefa nesse river, mas isso você sente melhor, afinal foi você quem o colocou nessa armadilha.
Gostei muito de como você jogou o flop e o turn, e no river você atuou no seu estilo — tirou o oponente da linha padrão e o forçou a tomar uma decisão difícil. É exatamente assim que você ganha dinheiro extra. Totalmente a favor.
Brian Kim
Ah, claro, agora vamos discutir tells durante a mão… O Andrew joga live há cem anos, não tenho a menor dúvida de que ele já aprendeu faz tempo a não entregar informação nenhuma.
O range dele no river está lotado de mãos fortes. Sabendo contra quem está jogando, ele certamente saturou esse range de propósito. Acho que o seu call, Jonathan, é simplesmente horrível e perde algo em torno de 60 bb.
Além disso, me parece que você não folda absolutamente nenhuma mão com a qual joga essa linha. É um range-call, e você teve uma sorte absurda.
Nick Petrangelo
Perder 60 blinds em um call só é possível em sonho, quando uma das suas cartas muda de valor do nada — e mesmo assim é difícil.
Do ponto de vista dos fundamentos, quando o solver nos diz que no turn é melhor dividir o range entre uma aposta grande e check, isso não significa de forma alguma que você não possa obter o mesmo EV reduzindo o sizing e aumentando a frequência. Nós jogamos contra pessoas, e ao forçar o Andrew a se defender com mais frequência, nós complicamos a vida dele. Eu jogaria assim com ? Provavelmente não, porque soaria meio artificial. Mas a polarização no turn não é um dogma.
Ao escolher uma linha incomum, você sempre obtém informação adicional. Tells, timings, sizings — tudo entra na conta. Apostar o pote ou dar check só porque o solver quer isso é algo para o qual o Andrew, um jogador extremamente experiente e forte, está obviamente preparado. O que ele definitivamente não espera é alguém que joga todas as streets como se já fosse heads-up, coloca duas apostas minúsculas nele — e, de repente, ele começa a te doar fichas! Foi exatamente isso que aconteceu.
Resultado da votação no momento da publicação do artigo: Nick: 47, Brian: 13. É até engraçado como isso quase corresponde exatamente aos milhões de dólares em premiações que esses jogadores acumularam ao longo da carreira.