por Kostya Koscience e Alexandre Badzhik

1. Quão lucrativo é desenvolver software de poker?

Pode ser um negócio muito bom, mas apenas se você encarar isso como um projeto de longo prazo, e não como uma oportunidade de ganhar dinheiro rápido.

Os usuários estão dispostos a pagar por ferramentas que melhoram seu jogo. Mas nosso público é relativamente pequeno, as expectativas dos clientes são extremamente altas, e o produto precisa ser preciso, rápido e útil — caso contrário, os jogadores vão embora muito rapidamente.

Trabalhar ao mesmo tempo no DeepSolver e no PLO Genius nos dá uma visão mais ampla do mercado. Hold’em e Omaha são ecossistemas diferentes, com métodos de estudo e desafios técnicos distintos, então a fonte de lucro não é a venda de um “solver” em si. O lucro vem da criação de produtos aos quais os jogadores retornam repetidas vezes, porque eles economizam tempo, melhoram a tomada de decisões e se encaixam no processo de estudo deles.

Então, sim, software de poker pode ser lucrativo, mas não é dinheiro fácil. São necessárias tecnologias avançadas, desenvolvimento constante do produto, infraestrutura séria, suporte e profunda expertise na área. Nesse negócio, a margem é conquistada com confiança e estabilidade, não com hype.

2. A IA pode matar o mercado de solvers?

A IA não vai matar o mercado de solvers. Ela vai matar produtos ruins de solver. Um LLM (Modelo de Linguagem de Grande Escala) pode explicar conceitos, fazer um resumo de uma mão ou ajudar o jogador a tornar o estudo mais eficiente. Mas o poker ainda é um jogo matemático com árvores de decisão extremamente precisas. Por baixo do capô, ainda são necessários cálculos confiáveis baseados na teoria dos jogos. IA sem uma base de solver pode falar besteira com muita confiança.

O que a IA realmente vai mudar é a interface. No futuro, os jogadores não vão querer clicar manualmente em centenas de nodes. Eles simplesmente vão perguntar: “Por que essa mão continua apostando no turn?” ou “Qual é a diferença estratégica entre esses dois flops?”. A IA pode tornar as conclusões do solver mais fáceis de entender.

Então vejo a IA como uma camada sobre os solvers, e não como substituta deles.

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3. Vocês planejam adicionar suporte a bomb pots ou outros novos formatos?

Sim, com certeza. Novos formatos estão no nosso radar, incluindo bomb pots.

Como desenvolvemos tanto o DeepSolver quanto o PLO Genius, vemos demanda de dois mundos um pouco diferentes: o ambiente mais estruturado do Hold’em e o ecossistema muito mais dinâmico do Omaha, onde formatos como bomb pots despertam muito interesse, especialmente no live e em jogos privados.

Ao mesmo tempo, não queremos tratar novos formatos apenas como uma caixinha a ser marcada para marketing. Queremos oferecer suporte ao formato da maneira certa — com cálculos precisos e ferramentas práticas de estudo; queremos criar uma experiência de usuário que realmente ajude os jogadores a evoluírem. Para nós, o principal não é apenas fazer os cálculos, mas apresentá-los de forma acessível, compreensível e útil.

Resumindo: sim, temos interesse em adicionar novos formatos, mas queremos corresponder ao padrão que os jogadores esperam tanto do DeepSolver quanto do PLO Genius.

4. O que acontecerá com os solvers em cinco anos?

Em cinco anos, os solvers parecerão menos calculadoras e mais treinadores pessoais.

A primeira geração de solvers respondia à pergunta: “Onde está o equilíbrio?”. A próxima geração responderá a perguntas como: “Como eu estudo isso de verdade? Onde estão meus leaks? Que simplificações posso usar durante o jogo? O que devo estudar em seguida?”.

O mercado de solvers vai se desenvolver em três direções: cálculos mais rápidos, explicações mais claras e maior personalização. Os jogadores passarão menos tempo esperando o fim de uma simulação e mais tempo treinando e construindo planos de jogo.

Os produtos que vão sobreviver não serão aqueles com a interface mais complexa, mas os que transformarem estratégias difíceis em decisões simples e fáceis de memorizar.

5. Como vocês verificam a precisão dos cálculos dentro do software?

Primeiro, monitoramos a qualidade técnica do próprio cálculo. Segundo, realizamos testes de regressão em spots de benchmark. Dessa forma, ao melhorar o mecanismo, conseguimos garantir que as mudanças sejam reais. Terceiro, verificamos os resultados do ponto de vista do poker, porque mesmo um cálculo tecnicamente correto pode ser enganoso se os ranges, o modelo de rake ou o desenho da árvore forem irreais.

Então, para nós, a verificação acontece em vários níveis: a matemática precisa ser confiável, o resultado precisa ser reproduzível e a estratégia precisa fazer sentido no contexto real do poker.

Treinador GTO

6. Qual é a parte mais difícil no desenvolvimento de solvers/treinadores?

Transformar um solver em um produto que realmente possa ser usado. As árvores de poker são enormes mesmo no Hold’em, e no PLO o espaço combinatório e as interações de equidade ficam muito mais complexos. Mas, mesmo depois de calcular o spot, surgem problemas: como transformar um volume enorme de dados em um modelo de estudo compreensível? O que pode ser simplificado e como ajudar os jogadores a desenvolverem intuição, em vez de simplesmente decorarem números?

7. Qual porcentagem das pessoas que compram seu software acaba nunca usando?

Conosco, esse tipo de situação não acontece. Software de poker é uma compra bastante consciente. Se alguém assina o DeepSolver ou o PLO Genius, isso geralmente significa que já entende por que precisa daquilo. Para nós, as principais perguntas são: por quanto tempo o cliente fica conosco, com que frequência ele retorna? O produto continua fazendo parte do seu processo de estudo semanal ou mensal?

É essa métrica que realmente importa.

8. Vocês jogam poker? Seus funcionários jogam?

Sim, muitos de nós viemos do meio do poker, e muitos de nós ainda jogam ou estudam o jogo. Algumas pessoas da equipe são ex-regulares, e isso ajuda o produto a continuar relevante.

Ao mesmo tempo, nem todo engenheiro precisa ser jogador de high stakes. O melhor produto surge quando os desenvolvedores constroem o mecanismo e a interface, enquanto os especialistas em poker garantem que estamos resolvendo problemas relevantes.

9. Seus funcionários que jogam poker e usam o software são lucrativos?

Alguns, sim. Mas eu não diria que a qualidade de um solver depende de os funcionários serem jogadores ativos e lucrativos. A pergunta mais importante é: temos pessoas que entendem como jogadores lucrativos estudam, como pensam e quais problemas enfrentam? E aqui a resposta é sim, temos esse tipo de gente.

O poker muda. Uma pessoa que destruía o jogo cinco anos atrás, mas parou de estudar, hoje pode não bater o field. Por isso, tentamos nos manter próximos de profissionais ativos, treinadores e usuários sérios. Eles são a melhor fonte de feedback, porque percebem imediatamente quando algo é útil e quando é apenas teoria.

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10. Qual é a função mais inútil que os usuários continuam pedindo para adicionar?

Eu não chamaria os pedidos dos nossos usuários de inúteis, porque normalmente eles vêm de um desejo real de aprender alguma coisa. Mas, se for preciso apontar o tipo de solicitação menos valiosa, provavelmente seria a customização infinita para casos extremos muito raros.

As pessoas muitas vezes pedem mais filtros, mais branches, mais cenários de nicho e mais formas de recortar os dados. No papel, isso parece incrível. Na prática, muitas vezes torna o software mais pesado, o processo de estudo mais lento e os conceitos principais menos claros.

No DeepSolver e no PLO Genius, nossa tarefa não é adicionar complexidade pela complexidade, mas ajudar os jogadores a aprender mais rápido e tomar decisões melhores. Às vezes, a melhor decisão de produto não é adicionar mais uma opção, e sim remover o excesso.

11. O que falta no software de vocês?

Muita coisa — e isso é bom. Um produto de qualidade nunca está completamente finalizado. A maior área de melhoria é a navegação no estudo. No DeepSolver e no PLO Genius, já oferecemos cálculos poderosos, trainers, relatórios e visualização, mas o próximo passo é ajudar os usuários a responder perguntas mais práticas. O que devo estudar hoje? Qual leak está me custando mais caro? Qual próximo passo será mais eficiente para o meu jogo?

Também ainda há espaço para melhorar a usabilidade, adicionar novos formatos, expandir funções de colaboração e personalização. O PLO Genius já oferece suporte a dispositivos móveis por meio de web design responsivo, mas o estudo mobile pode, com o tempo, se tornar mais rápido, limpo e intuitivo.

Então, sim, ainda falta muita coisa, e isso é animador. Se algum dia sentíssemos que não há mais nada a melhorar, isso provavelmente significaria que paramos de ouvir nossos usuários.

12. Você pode citar uma função disponível no DeepSolver ou no PLO Genius que não existe nos produtos concorrentes?

Para mim, a principal vantagem do PLO Genius não é simplesmente ter importação de mãos, mas a forma como ela está integrada ao processo geral de estudo. Os jogadores podem carregar históricos de mãos em arquivos nos formatos .txt e .xml, ou simplesmente em texto. Depois, eles são comparados com o conjunto de simulações adequado, e então, em um só lugar, é possível analisar a perda de EV, a qualidade das decisões, categorias de mãos e leaks por posições. Isso faz com que o produto seja algo maior do que uma biblioteca de soluções — ele se torna um sistema prático para transformar mãos reais em estudo direcionado.

13. Quanto tempo ainda resta ao poker?

O poker tem muito mais tempo do que os pessimistas imaginam. A morte do poker já foi prevista muitas vezes — depois do surgimento dos softwares de tracking, dos HUDs, dos solvers, dos stables, da IA. Mas o poker continua vivo porque não é apenas um problema matemático. É também competição, psicologia, pressão do bankroll, ego, seleção de mesa, leitura ao vivo e muito mais.

Algumas partes do poker ficarão mais difíceis. Mas o poker como jogo continuará atraente enquanto os operadores protegerem os jogadores recreativos, combaterem o cheating, criarem novos formatos divertidos e mantiverem um ecossistema saudável.

O poker não vai morrer porque as pessoas estudam. O poker só vai morrer se o jogo deixar de gerar confiança ou de ser divertido.

14. Os solvers estão matando o poker?

Não. O que mata o poker não são os solvers, mas o cheating. O solver é uma ferramenta de estudo, como uma IA de xadrez. Os problemas começam quando alguém tenta transformar uma ferramenta de aprendizado em ajuda em tempo real durante o jogo. É exatamente por isso que o jogo justo sempre foi prioridade para nós.

Até onde sabemos, o DeepSolver foi a primeira empresa de solvers a introduzir uma função pública de Fair Play Check — jogadores e salas de poker podem verificar se um board específico foi calculado recentemente.

Os solvers elevam o padrão de estudo, obrigam os jogadores a pensar com mais clareza e tornam o jogo mais profundo. A tarefa da indústria é proteger a fronteira entre o estudo legítimo e o cheating.

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